domingo, 12 de agosto de 2007
A festa de família
Hoje não sei se é dor. Não tenho "Snapshots". Agi comportadamente na festa de família (ia dizer: "fresta" de família. Ato falho?). Mas a verdade é que não há como: os amo. A todos. Sim. Todos. Mesmo aqueles com quem não tenho contato.
A festa sempre termina. Sempre começa com aquela sensação de "ai que saco, putaqueopariu, vou ter que sorrir por três horas". Aí vem o espaço para a autencidade. Sorrio. Fico sério. Fico alegre, triste, alegre-triste. Vejo as crianças correndo, o cachorro latindo, as crianças com medo do cachorro latindo, o cachorro com medo das crianças com medo... Vejo a mãe negligente sentada tomando cerveja e o filho, sabedor da negligência, pulando na cama elástica de modo a provocar um tombo. Tombo este com o qual ele nunca se machuca, mas ergue-se com cara de choro e vai pro colo da mãe... Para acabar sendo consolado pela tia que se senta ao lado, que a mãe prefere segurar o copo de cerveja.
Meu pai, que sempre disse não ter tempo para aproveitar uma festa porque tinha o famigerado trabalho. O famigerado trabalho de 23 anos que lhe comia o tempo e a saúde. E agora que já não o tem, usa como desculpa a necessidade de ter tudo em ordem para ir dormir. Não pára. Carrega coisas para lá, para cá, de novo para lá, a mesma coisa, só para tirá-la de lugar e sentir-se ocupado. "Meu filho, senta do lado do pai um bocado", disse-me ele agora, agora quando eu já estava sentado ao lado dele e olhei-o com uma cara de "como assim?! Já estou sentado ao seu lado".
Meu avô... Sempre sentado na ponta da mesa. Sempre pousando de patriarca. O galo. O manda-chuva. O grande mestre que de mestre nada mais tem. Não manda em nada mas é como se mandasse. Age como se comandasse a festa, que nem é dele. Não pagou nem por meia tigela... Mas é como se tivesse pago. E fico feliz em vê-lo ali, assim, cantando de galo, como se tudo e todos o pertencessem. Sinto que há vida nele ainda. Por mais alguns bons anos. Quero vê-lo em minha formatura também.
E as tias. As irmãs do meu pai. Sempre ocupadas, sempre tristes, sempre com problemas a contar (mesmo que sejam os da vizinha, da amiga, ou da prima do parente distante lá de Curicia do Norte, esse lugar que nem sei se existe, esse lugar onde mora esse parente distante de onde nem nunca ouvi falar mas que parece ter um câncer. Aliás, parece ter um câncer... Que é de família... Que todos têm! Meu deus! Será que eu vou ter?!). Elas, com seus netos nas mãos, limpando as golfadas das crianças. A linda priminha de olhos verdes e bochecas gordas e rosada... Sua roupinha rosa. E a avó, baloiçando-a para lá e para cá.
E os primos. Aquela que senta do meu lado e diz: "Não sei o que faço... Gosto dele mas não sinto o mesmo ânimo". E aquela que diz: "Primo, vou te visitar", mas ela sempre diz e nunca visita... Eu também faço o mesmo: sempre digo e nunca visito. Falamos todos também sobre a querida prima-irmã que está longe, muito longe... E todos temos saudades. Quanta saudade! Parece que a vida parou e todos esperamos a volta dela para que os assuntos sejam, de fato, colocados em dia.
A tia que me abraça e comenta que estou alto. Ela sempre comenta que estou alto e há anos que não cresço.
Sinto saudades de todos e uma tristeza nostálgica dos minutos que acabaram de se acabar. E prometo-me, mais uma vez, "durante a semana, ao longo deste ano, vou me reaproximar de cada um deles" e tenho a ligeira sensação de ser capaz de mudar a vida de cada um.
sexta-feira, 10 de agosto de 2007
Carta de Amor*
Agi de má-fé comigo mesma. Não há como enganar-me e fugir de mim, daquilo que sinto e que agora me dói. Como podemos fazer tanto mal a nós mesmos? Quão ingênua fui ao pensar que poderia me esconder de mim! E agora, novamente, coloco-me a teus pés: é que já não sei o que fazer de mim sem que mo digas.
E agi de má fé contigo. Nem tudo que é teu e que estava aqui lhe devolvi. Vejo agora como fui tola. Talvez a posse de algo seu pudesse me ajudar a manter a raiva que conseguia manter por estar sendo ignorada, eu pensei. Talvez se você percebesse que eu ficara com algo, viesse me procurar, eu pensei. Qual nada! Tudo o que consegui foram lembranças! Tolas lembranças... Como no dia em que você chegou de mansinho, abriu a porta devagar, pisando leve e me surpreendeu na cozinha, me abraçando pelas costas e me deixando com as pernas bambas pelo susto e pelo prazer.
Sim, me afastei. Fiz de tudo o que pude. Sei que tudo o que fiz fora, também, fruto de uma decisão tomada apenas por mim, nunca a propósito de qualquer pedido seu. Julguei o que era melhor e assim o fiz. Com isso, aprendi que nem todos os julgamentos, por mais que sejam bem feitos, são corretos. A justiça é cega e assim o é, do mesmo modo, o amor. Não há como querer exatidão ao unir os dois. Não passei de uma boboca infantil querendo ser adulta e senhora de minha vida, a mesma que pertence a ti - agora bem sei.
Talvez não receba bem estas palavras. Talvez precise rasgar esta carta para que uma outra mulher não a veja ou não a descubra no bolso do casaco, quando o "acaso" acaba servindo ao propósitos ocultos que temos, aqueles que escondemos de nós mesmos. Não há problemas. De cá, tento satisfazer-me simplesmente com o fato de tê-las escrito e de crer que consegui fazê-las chegar a ti.
Queria poder dizer, como Pessoa disse a sua amada: "Quanto a mim, o amor passou", mas seria mentir novamente. Amo-te, querido. Amo-te, mesmo que, por isso, sinta dores. Aliás, estas me são bem quistas, uma vez que são o único motivo que tenho para amar-me a mim: o amor que tenho por ti e que faz doer-me o peito.
Da sua,
Beatriz
* Para os que não leram, há em Julho o post "Carta de (des)Amor", também de autoria da Beatriz, ao qual o presente representa continuação.
quinta-feira, 9 de agosto de 2007
Caetano
Aì vai uma letra:
Deusa Urbana
Com você eu tenho medo de apaixonar, eu tenho medo de não me apaixonar
Tenho medo dele, tenho medo dela
Os dois juntos onde eu não podia entrar
Com você eu tenho mesmo que me conformar, eu tenho mesmo que não me conformar
Sexo heterodoxo, lapsos de desejo
Quando vejo, o céu desaba sobre nós.
Mucosa roxa, peito cor de rola
Seu beijo, seu texto, seu queixo, seu pêlo, sua coxa.
Menina, deusa urbana, neta do sol.
Eu sou você e os meus rivais. Sou só.
Mucosa roxa, peito cor de rola
Seu beijo, seu texto, seu cheiro, seu pêlo, cê toda
Menina, deusa urbana, neta do sol.
Eu sou você e os meus rivais. Sou só.
quarta-feira, 8 de agosto de 2007
Chega de fazer fumaça
Cabide - Mart'nália
Se eu fingir e sair por aí na noitada, me acabando de rir
Se eu disser que nçao digo e não ligo e que fico
E que só vou aprontar
É que eu sambo diretinho, assim, bem miudinho, cê não sabe acompanhar
Vou arrancar tua saia e pôr no meu cabide só pra pendurar.
Quero ver se você tem atitude e se vai encarar.
Se eu sumir dos lugares, dos bares, esquinas, e ninguém me encontrar
Se me virem sambando até de madrugada e você for até lá.
É que eu sambo diretinho, assim, bem miudinho, cê não sabe acompanhar
Vou arrancar tua blusa e pôr no meu cabide só pra pendurar.
Quero ver se você tem atitude e se vai encarar.
Chega de fazer fumaça, de contar vantagem, quero ver chegar junto pra me juntar
Me fazer sentir mais viva, me apertar o corpo e a alma, me fazendo suar.
Quero beijos sem tréguas, quero sete mil léguas, sem descansar.
Quero ver se você tem atitude e se vai me encarar.
Se eu fingir e sair por aí na noitada, me acabando de rir
E seu eu disser que não digo, não ligo e que fico
E que só vou aprontar
É que eu mando direitinho, assim, bem miudinho.
Sei que você vai gostar.
Vou arrancar sua blusa e por no meu cabide só pra pendurar.
Quero ver se você tem atitude e se vai encarar.
segunda-feira, 6 de agosto de 2007
Exorcizando velhos fantasmas
Nem tivera tempo de sentir-se aflito, nem ao menos de terminar a leitura da primeira historinha da revista. Logo chegaram todos: vovó, mamãe e o novo amigo.
- Querido, este é o Dr. Paulo - disse-lhe a mãe.
- E aí, rapaz? - disse o médico em tom amistoso.
Mas o menino preferiu calar-se. Não era dado a falar com estranhos. Vivera uma infância muito fechada no berço familiar, não era de muitos colegas. Não era afeito a amizades que se fazem de hora para outra. Talvez (sim, talvez) venha a mudar essa postura após o que estava prestes a viver. Talvez tomasse consciência da necessidade de ligar-se aos outros para evitar a dor da vida.
- Meu filho, o dr. Paulo irá te examinar, certo?
- Vou tirar sua bermuda, ok? - disse o médico, como querendo acalmar o menino.
- Para quê, mamãe?
- Querido, sem perguntas - respondeu ela. Era possível, mesmo para ele, perceber a insegurança e o medo na voz materna.
- Não quero.
Ao som dessas palavras, viu a mãe olhando para a avó. Esta, compreendendo o olhar, dirigiu-se para a parte superior da cama. Mamãe, aproximando-se da cama, debruçara-se sobre o corpo do filho, não sem antes tomar-lhe a revista. Num ímpeto, agarrou-lhe os braços e deu-os à avó, que agora os segurava com força acima da cabeça do garoto com uma mão e, com a outra, levantava a cabeça dele de modo que não pudesse olhar para outro lugar que não para o rosto senil dela. Não lhe era permitido olhar para baixo, não lhe era permitido ver o médico neste momento despindo-lhe dos quadris para baixo.
O que estaria acontecendo?, pensava, ainda tentando manter-se tranquilo, pensamentos vagando na história que lia ainda há pouco. Sentira, então, as mãos geladas da mãe tocando-lhe os pés e prendendo-os firmemente à cama.
- Mâaaaae, não quero! Estou com medo! - gritou em desespero, todos os pensamentos tranquilos esvaindo-lhe como a água de uma banheira sendo sugada para o ralo - Não quero! Vovó! Vovó! O que está acontecendo?
- Calma, meu querido, vovó está aqui - respondera a avó com um sorriso nos lábios. Ele era forçado a ver aquele sorriso, seu rosto sendo puxado em direção àquela visão.
Sentiu as mãos do novo amigo tocando-lhe em sua intimidade. Além do rosto da avó, a única coisa que conseguia ver pelo canto do olho era o vulto alto daquele homem, todo vestido de branco.
- Nãaaaaaao! Nãaaao! - gritava o menino, entre soluços - Nãaaao... Mãe, me ajuda... Vó, me ajuda... Me ajuda...
Sentira então uma grande dor. Dos olhos, as lágrimas rolaram com maior velocidade quando estes se fecharam em resposta ao que sentia. Nem ao menos conseguia dobrar as pernas e defender-se. Não que não tentasse, mas as mãos geladas da mãe eram mais firmes que as pernas dele. Abrira os olhos e o vulto alto do homem na sala tinha agora tons avermelhados onde só havia o banco asséptico.
Já não mais conseguia gritar. Nada lhe era possível. Pensava no pai. O grande herói das revistas que lia. Pensava nele. Porque o abandonara ali, naquele momento? Porque não estava lá para ajudá-lo? Será que sabia?
Uma sensação estranha lhe subia pela garganta. Entre a dor e os gritos havia o ódio. O que havia entre mamãe e aquele homem? Será que ela também chorava como ele? Ou se felicitava com o que estava acontecendo ali?
- Querido, está quase acabando - ouviu, ao longe, a voz da avó.
Sentia-se violado. Sentia-se humilhado naquilo que era seu: ele mesmo. Então não era tão forte como pensava? Nem tão astuto? Nem tão capaz de perceber o que se passava ali antes que tudo se desse?
Sentira que o homem tirara a mão de seu corpo, o mesmo corpo que o menino já não conseguia sentir por inteiro. Alguma coisa lhe havia sido tirada? Uma vez, brincando, cortou-se e sangrara. Sabia que aquele vermelho que percebera de relance era seu sangue. Onde o haviam machucado? Não sabia, criança que era, que não importava o machucado, mas sim os danos invisíveis do espetáculo de horror a que era submetido. Também não o sabiam a avó e a mãe, devo dizer-lhes, para que não dirijam todo seu ódio contra elas. Talvez nem ao menos soubesse o médico que o sangue era o de menos e que a grande ferida era interna.
- Vó, segure os braços com mais força - disse o médico. - Garoto, estamos quase terminando. Agora falta só o remédio. Vou por o remédio agora. Você vai sentir arder.
Já nem tinha forças para se opor. Sentira a ardência queimar-lhe toda a carne. Ainda urrava de dor o pequenito corpo na cama quando tivera as pernas e os braços libertos. Virara o corpinho para o lado, dobrando-se sobre si mesmo ao puxar as pernas para perto de si e ficara assim, na posição em que os bebês ficam quando ainda não precisam sofrer a vida. E nem tempo lhe deram para sofrer a vida. A avó fora logo o empurrando para que se levantasse. Já era hora de ir embora. Não havia porque ficarem ali.
- Vista-se - disse-lhe ela.
E obedeceu. Não seria mais capaz de se opor a nada. Aquilo que era, perdera-se. Restara-lhe apenas a possibilidade de aceitar tudo de todos na vida.
Ao subir a cueca e as calças, vira o que acontecera: um curativo.
- ... caem - ouviu o médico dizer para a mãe ao fundo da sala. Não sabia que se tratava dos pontos e logo imaginou que se tratava da parte de seu corpo a que dava tanta importância, aquilo que o diferenciava das meninas e o fazia parte do mesmo mundo do pai.
Por isso saíra do hospital andando lentamente enquanto as pessoas lhe olhavam com o mesmo sorriso que lhe olharam ao entrar, apenas pela diferença que desta vez perguntavam a mãe:
- Fimose?
- Sim - ela lhes respondia.
- Ah! Ele vai andar assim, com as pernas abertas por mais alguns dias... - diziam, rindo.
Mas não sentia dor alguma. Não sentia nada. Ignorância causualista dos adultos, que acham que para cada causa, um efeito. Sim, andaria com as pernas abertas: era o único cuidado que conseguia pensar para evitar que aquela parte tão querida a si de seu corpo caísse, como vaticinara seu "novo amigo" ao pé do ouvido da mãe.
quinta-feira, 2 de agosto de 2007
O Silêncio
Pior do que a voz que cala,é um silêncio que fala.Simples, rápido!E quanta força!Imediatamente me veio à cabeça situaçõesem que o silêncio me disse verdades terríveis,pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.Silêncios que falam sobre desinteresse,esquecimento, recusas.Quantas coisas são ditas na quietude,depois de uma discussão.O perdão não vem, nem um beijo,nem uma gargalhadapara acabar com o clima de tensão.Só ele permanece imutável,o silêncio, a ante-sala do fim.É mil vezes preferível uma voz que diga coisasque a gente não quer ouvir,pois ao menos as palavras que são ditasindicam uma tentativa de entendimento.Cordas vocais em funcionamentoarticulam argumentos,expõem suas queixas, jogam limpo.Já o silêncio arquiteta planosque não são compartilhados.Quando nada é dito, nada fica combinado.Quantas vezes, numa discussão histérica,ouvimos um dos dois gritar:"Diz alguma coisa, mas não ficaaí parado me olhando!"É o silêncio de um, mandando más notíciaspara o desespero do outro.É claro que há muitas situaçõesem que o silêncio é bem-vindo.Para um cara que trabalhacom uma britadeira na rua,o silêncio é um bálsamo.Para a professora de uma creche,o silêncio é um presente.Para os seguranças de um show de rock,o silêncio é um sonho.Mesmo no amor,quando a relação é sólida e madura,o silêncio a dois não incomoda,pois é o silêncio da paz.O único silêncio que perturba,é aquele que fala.E fala alto.É quando ninguém bate à nossa porta,não há emails na caixa de entradanão há recados na secretária eletrônicae mesmo assim, você entende a mensagem.(A Voz Do Silêncio - Marta Medeiros)
quarta-feira, 1 de agosto de 2007
Do medo e seus empecilhos
Guardou a idéia para si. "Que assim seja!", seguiu o caminho até sua casa pensando. Não é que uma decisão importante tenha sido tomada. Apenas questão de convicções...
Havia tempo que deixava doer em si uma dor. Fora forçado, desde pequeno, a se tornar um indíviduo. Por mais que pedisse à família: "por favor, me engulam", aos 6 anos de idade, no dia do aniversário, ainda assim, pedindo, havia de ser só no mundo. Não, sem antes, tentar desesperadamente agarrar-se ao que lhe viesse ao encontro.
Foi assim, na busca por portos a que pudesse atracar seu barco de indivíduo e torna-se, no mínimo, dois, foi assim que aprendeu a amar. Ou fora assim que nunca aprendera a amar.
Aos 12 anos, conhecera Carla. Carla, adorável, gostava de ver novelas. Passara então, a assistir ao lado dela, todos os capítulos da das sete e das oito, "as melhores", segundo ela.
Aos 13, apaixonara-se por Quintanilha. Não que a menina tivesse esse nome. Família tradicional, Quintanilha. Mesmo amantes, não se sentia à vontade para chamá-la pelo nome, Laurinda, e chamava-a pelo sobrenome da família.
Vivia a família Quintanilha e foi assim que começara a se interessar pelos assuntos da matemática e da economia. Era preciso saber conversar com o Sr. Quintanilha nos jantares de família. Era preciso, desesperadamente, fazer parte daquele mundo que, na verdade, era apenas um mundo: o que importava era fazer parte.
Muitos anos ficou com a menina. 3. Foi quando aos 17 conheceu Paulinha. Quanta amabilidade! Paulinha! Ah! Que saudade daquela época em que corriam que nem loucos de cinema a cinema na cidade em busca dos melhores filmes nos festivais! E do melhor lugar para sentar!
"Paulinha era louca", ele diria! Na verdade era apenas mais velha que ele. Encarava a vida de outro modo. Estudava teatro na federal. Grupo de amigos. Maconha aos finais de semana. E aquele pensamento leve de quem não tem compromissos a não ser consigo mesmo.
Depois, amargou dois anos só. Casa-trabalho, trabalho-casa e muitas sessões de terapia para aprender que não precisava ser o outro para ser gostado pelo outro. E muitas sessões de terapia para aprender que ser indivíduo nem era tão pesado assim.
Como nem tudo, porém, muda, a couraça do indivíduo que ele era permanecera igual em alguns pontos.
E aí foi quando conheceu Daniella num desses sites de relacionamento. Começaram a trocar mensagem esparsas, depois, se falar por um desses programas de conversa... Até que trocaram telefones, endereço... Até que marcaram de se ver... E se viram.
Muito havia em comum! Talvez nunca tanto! Nem era preciso ser outro para ser dela. Ela nem precisaria ser outra para ser dele. Haviam sido feitos um para o outro (?). Os gostos eram iguais. Não surpresa quando, no dia do encontro, por exemplo, a menina exclamara: quando mais nova eu achava que tinha que ser outra para que gostassem de mim e ia mudando de roupagem a cada relacionamento que arrumava. Ou então: desde muito nova eu achava que era pesado ser eu... então, fiz terapia.
No entanto, nem tudo é igual, que seria como lidar com um espelho. Daniella morava próximo ao local deste primeiro encontro. Levou o rapaz até o ponto, sem saber o que ele pensava.
- Como pode? E agora?! Terei que ser eu simplesmente?!!! E como esconder-me de alguém que é tão eu quanto eu mesmo?! Sim... Se gosto? Gosto! Como gosto! Seu cheiro, sua pele, seus olhos! Seus cabelos e seu sorriso! Seu toque... Seu calor... Como gosto! Como dói ter de andar ao lado dela e ouví-la falar sobre as coisas que viveu, sabendo que vamos para o ponto de ônibus e que não mais nos veremos esta noite!... O que fazer, meu Deus?! O que fazer?!... Sim... Que assim seja!
- Que assim seja!, pensou quando entrava no ônibus. Era melhor não dizer uma só palavra. Melhor não abrir espaço para o diálogo.
Acenou um tchau quando ainda passava pela roleta. Daniella sorrira da calçada e acenara de volta. Um beijo? Sim, ela jogara um beijito célere, sem nem ao menos saber que, de hoje em diante, o rapaz decidira: se esconderia dela.
Agosto...
Para abrir o mês... Música. Ok, peço desculpas... ultimamente é tudo o que tenho postado, à exceção de um ou outro texto capenga. É assim: criamos um blog com o propósito de só postar textos novos e acabamos, pela vontade de não deixar de postar (ao menos, ela existe, porque já tive outros blogs que morreram de inanição), colocando letras de música, poemas de outrens e coisas afim.
Bem, mas a música vem sendo presente no momento atual... Acho que cabe postar.
Sonnets - unrealities xi - Bjork
It may not always be so
And I say that if your lips
Which I have loved
Should touch another´s
And your dear strong fingers clutch his heart
As mine in time not far away
If on another´s face your sweet hair lay
In such a silence as I know
Or such great writhing words as, uttering overmuch
Stand helplessly before the spirit at bay
If this should be, I say if this should be
You of my heart, send me a little word
That I may go unto her, and take her hands saying
Accept all happiness from me
Then shall I turn my face
And hear one bird sing terribly afar in the lost lands.
terça-feira, 31 de julho de 2007
Last Goodbye
I hate to feel the love between us die.
But it's over
Just hear this and then I'll go:
You gave me more to live for,
More than you'll ever know.
Well, this is our last embrace,
Must I dream and always see your face?
Why can't we overcome this wall?
Baby, maybe it's just because I didn't know you at all.
Kiss me, please kiss me,
But kiss me out of desire, babe, and not consolation.
Oh, you know it makes me so angry 'cause I know that in time
I'll only make you cry, this is our last goodbye.
Did you say, "No, this can't happen to me"?
And did you rush to the phone to call?
Was there a voice unkind in the back of your mind saying,
"Maybe, you didn't know him at all,you didn't know him at all,oh, you didn't know"?
Well, the bells out in the church tower chime,
Burning clues into this heart of mine.
Thinking so hard on her soft eyes, and the memories
Offer signs that it's over, it's over.
segunda-feira, 30 de julho de 2007
Ah! Tenho que dizer
Cheguei tarde do trabalho hoje. Ouvindo "Cocteaus Twins", "Wax and Wane". Deitei na cama. Soltei o corpo pesado do dia de trabalho e aí veio uma vontade doida de dizer isso que digo agora:
- Lucas e Magrela, amo muito vocês!!!!
Da paixão pela idéia ou Sobre o Opção Deliberada pelo Platonismo
A tensão aumentava a medida que ia dando seus passos em direção ao desconhecido, que era tudo a seu redor. Não estava acostumado com tantas pessoas pela rua. Não estava acostumado a não ser ninguém em meio à concretude dos prédios e carros.
Os ombros, outrora erguidos, iam aos poucos caindo. O rosto, exultante em excitação, perdia as feições de alguém em busca de seu desejo mais profundo. Até mesmo a clareza que tinha quanto aquilo que sentia ia se esvaindo a cada rua, a cada pessoa por que ele passava.
Duas horas depois, um lanche rápido - o que lhe renovara as energias - e um papo rápido com o rapaz sentado ao seu lado na lanchonete, caminhava novamente pela rua e avistara lá adiante... Seria ela? O cabelo era parecido. O modo de andar. Cada um dos movimentos... Não ficara muito tempo com a menina. Apenas todos os dias de um final de semana. O suficiente para acreditar conhecê-la, o suficiente para arriscar e sair de sua cidade em busca do que desejava.
Apressou o passo. Sim, era ela. Havia de ser ela. Muito parecida. E seria, mais uma vez, a coincidência, aquilo que tanto conspirara a favor do primeiro encontro de ambos, que lhes faziam esbarrarem-se numa cidade tão grande como aquela?
Já próximo, quase podendo tocá-la nos ombros, exclamou:
- ---!
Ela virara o rosto espantada. Algum conhecido? Sim, ao menos ouvira seu nome.
Ele lhe acenava. As mãos para cima. Em profundo êxtase, acenava para a menina. Por fim, haviam se encontrado... Mas... Não... Não era ela que vinha ao seu encontro de braços abertos... Não era ela! Vira a menina abrindo os braços e o sorriso, mas não era ela! Vira a menina se aproximando para um abraço. Talvez um beijo... Mas não era ela!
Fechou a cara e, desviando-se do abraço, partira em disparada para o ponto de ônibus mais perto.
- Por favor, o senhor sabe me dizer o número do ônibus para a rodoviária? - perguntara e, recebendo a indicação, entrara rapidamente no ônibus. Ainda pudera ver, lá de dentro, a cara de estupefação daquela menina. Muito parecida com a sua ---, mas não podia ser ela.
E voltou para casa, apaixonado pela idéia que negara-se ser frustrada pela realidade. Voltara para casa, o peito extravasado em dor pela idéia de --- que quase se perdera naquele breve encontro com... ela?
quarta-feira, 25 de julho de 2007
A vida é uma burocracia chata. E adoro preencher seus papéis, assinar. Me falta o carimbo, contudo. A validação. A certeza da aceitação, com protocolo e assinatura do recebedor.
Queria saber da vida grandes coisas. Mas tudo o que sei é que ela é burocracia pura. As etiquetas. As relações. A boa-educação. Pudera mandar tudo isso para o inferno, mas já não teria uma vida, pois fugiria da burocracia que ela, em si mesma, é.
Uma vida desburocratizada é uma vida de compromissos solipsistas e fujo de mim. Prefiro preencher a papelada e requisitar meus documentos a arriscar encarar a mim mesmo e apenas. Prefiro ter a certeza de poder encarar os outros e deles cobrar as respostas certas.
terça-feira, 24 de julho de 2007
O viandante
O que veria?
Imagino que veria um viandante. E que este ia errante pela estrada. Uma estrada longa, um pouco sinuosa, mas que tinha sempre um mesmo caminho, uma mesma direção: adiante. E que nessa estrada, veria o viandante zigue-zagueando, em busca de troncos e coisas seguras na beirada, coisas a que pudesse se prender e tomar como garantias, parando assim de caminhar.
Mas se parasse de caminhar, não seria viandante. E sabia-se viandante. Foi por isso, por saber-se sem saber que sabia-se, que deu-se conta um dia de que não era necessário correr para as margens em busca de algo a que pudesse se prender: bastava caminhar e ir conhecendo estas coisas que lhe passavam pela lateral, relacionar-se com as coisas e deixá-las seguir o rumo próprio ao passo que ele mesmo seguia o seu.
Foi assim que decidiu (e isso, posso ouvir e precisar o momento exato em que ouvi): Vou deixar-me viver.
Viu passarem árvores, troncos, pequenas ramagens, pedregulhos. Aproximou-se deles. Deixou-se ali ficar. E partiu, sem medos, sem arrependimentos.
Foi quando lá na frente, bem lá na frente na estrada, avistou uma grande lagoa.
Apressou o passo para chegar mais rapidamente ao lugar, tão interessante e certo visto assim de longe.
Lá chegando, avistou toda a extensão daquele lago, dando-se conta de que não se tratava de um lago, mas apenas de um grande rio que passava por ali. Aquele amontado de água que vira lá de longe era nada mais que um remanso do rio que, lenta e placidamente, seguia seu rumo em busca da foz onde, um dia, de fato se entregaria e de fato se deixaria ficar.
Nosso viandante, outrora decidido a não aprisionar-se a nada que lhe aparecesse no meio do caminho, decidira deixar por um instante suas bolsas e despojar-se de suas vestes e banhar-se tepidamente nas águas plácidas e limpas do rio.
Aquela água era tão prazenteira. O modo como lhe tocara o corpo num primeiro instante, fazendo os pêlos eriçarem-se e pequenos calafrios subirem pelo dorso. E o modo como ela, a água, tirara dele as sujeiras que lhe embaralhavam as vistas, deixando-o ver a estrada que ele deveria seguir de modo mais claro.
Aquela água, tão prazenteira, fizera o viandante querer prender-se novamente a algum lugar. Mas e sua decisão anterior? De que lhe valeria se se deixasse ficar ali, abandonado às margens do rio?
Decidiu então por um dia entregar-se ao rio. Como seria? E passou toda a extensão de um dia banhando-se naquelas águas.
Ao final desse dia, porém, deu-se conta de que a água que por ele passava, passava e segui seu curso, em busca da tal foz a que se entregaria no fim. Não era o mesmo rio, o filósofo já lhe alertara um dia, não era a mesma água; quiçá aquela ali era a mesma margem, que a brisa leve carregava folhas e um pouco da terra.
Assim, nosso viandante despediu-se do rio, vendo toda aquela água deixar-se ir pelo portão formado pela margem na parte em que se estreitava, cinco metros mais abaixo de onde ele e o rio haviam se encontrado e sido cúmplices.
Vestira sua roupa, pegara suas bagagens. Hoje, tenta andar novamente pela estrada, resistindo de novo e a cada segundo ao desejo de retornar ao remanso regozijante do rio que segue.
A imitação de Machado
.
...
.
?
.
???
!??!
?!
.
...!
?...
...;...;...
E tentava encontrar as definições que lhe eram tão caras. Mas não havia nada que pudesse lhe dar a certeza, que a vida são incertezas que constituem.
segunda-feira, 16 de julho de 2007
Twentysomething
Sabe como é... Enchemos o computador com música e nunca damos muita atenção a tudo o que temos. Gosto da voz dele desde a primeira vez que ouvi. As músicas, bem, uma ou outra é nova, mas ele tem esse jeito de trazer as antigas de um jeito bom (não melhor, mas bom).l
ENtão ele começa a cantar essa música que dá nome ao álbum, "Twentysomething". Não sei, mas acho que o nome pra isso é "identificação", ou "projeção"? Aliás, quando termina a projeção e começa a identificação e vice-versa...?
After years of expensive education,
a car full of books and anticipation,
I’m an expert on Shakespeare and that’s a hell of a lot
but the world don't need scholars as much as I thought.
Maybe I'll go travelling for a year,
finding myself or start a career.
I could work for the poor though I’m hungry for fame
we all seem so different but we're just the same.
Maybe I'll go to the gym, so I don't get fat,
are things more easy with a tight six pack?
Who knows the answers? Who do you trust?
I can't event separate love from lust.
Maybe I’ll move back home and pay off my loans,
working nine to five answering phones.
Don't make me live for my friday nights,
drinking eight pints and getting in fights.
I don't want to get up, just let me lie in,
leave me alone, I'm a twenty something.
Maybe I'll just fall in love that could solve it all,
philosophers say that that’s enough,
there surely must be more.
Ooooh Love ain’t the answer nor is work,
the truth alludes me so much it hurts.
But I’m still having fun and I guess that's the key,
a twenty something and I'll keep being me.
domingo, 15 de julho de 2007
A carta de (des)amor
quarta-feira, 11 de julho de 2007
Sobre pessoas e pessoas
domingo, 8 de julho de 2007
Dos factuais I
É que há a insegurança cotidiana e a possibilidade de que no mundo existam coisas muito melhores que meu próprio corpo. Gostaria de fazer plásticas e modificá-lo. De que nos vale o mundo senão para que possamos interferir nele?
Meu corpo é um fato, mas não é meu fato. É meu incômodo. Quero modificá-lo ou modificar a idéia que tenho dele.
Já tentei de tudo: de dietas a exercícios, de não vê-lo a contemplá-lo diante de um grande espelho. Tento ver através de suas carnes aquilo que sou, mas ele sempre se interpõem, colocando-se exatamente no meio do caminho entre o que sou e como me vêem. Não sou meu corpo, mas pensam que seja e temo que fique só por isso. Vejo a beleza que há por dentro das pessoas e me apaixono por elas, mas não há como garantir que farão o mesmo.
terça-feira, 3 de julho de 2007
Cthulhu
Sabe Cthulhu? Pois é, eu também não sabia. Mas agora sei. Vou retirar do mito apenas a parte do "Messias", de que tipo, Cthulhu era como um messias. E por ter tido uma educação católica, por Messias entederei algo bem como Jesus Cristo, uma parada muito "totalmente" foda! (Ps.: Não, gente, não virei evangélico... é só para vocês entenderem. Imagine que eu seja um daqueles caras que paga dízimo de salários inteiros e acredita em cada coisa que o pastor diz e faz o maior esforço para seguir aquilo porque quero ser como Jesus, entendem?).
Pois é... Não tenho amigos. Tenho Cthulhus.
Estou há mais ou menos uma semana tentando achar uma imagem. Esbocei uma tentativa naquele post por aí abaixo que fala sobre verdade, sobre relacionamentos coesos etc... Mas é que não consegui escrever lá. Acho que hoje achei a tal imagem. Mas não dá pra escrever um conto pq seria cafona. A vontade é de gritar isso da janela bem agora: tenho Cthulhus em minha vida! E como sou feliz por isso!