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segunda-feira, 31 de março de 2008

Clarice 2

Da Continuação de Clarice
ou Da pouca vergonha
ou Como assim num ônibus
ou A moça e a senhora que palitava dentes
ou Do gozo com a idéia
ou Torno público ou resguardo a imagem de minha personagem?
Pois que fodi-me todo, isso é verdade. Mas não é nenhum fardo com o qual tenha que lidar a contragosto. Gosto de olhá-la de longe. O sorriso de Clarice me domina. Já não sei quando sou eu que sorrio ou quando o sorriso é o dela. As verdades sobre Clarice ficam como as moscas que me impedem de dormir. Por mais que eu tome banho, asseie a casa, use veneno, as malditas moscas ficam lá, rodeando minhas pernas e meus braços. Meus ouvidos escutam seu zunido e tenho que admitir: já não é possível dormir, apesar do sono. Assim são as verdades de Clarice em minha cabeça. Clarice não deveria estar em mim, não tivesse eu ousado invadir-lhe a vida e falar de um dia em que chorou por três horas e e quize minutos sem pausas. Não deveria estar em mim caso eu não a tivesse deixado entrar. Demorei-me demais olhando a menina e agora é ela que me olha enquanto tento dormir. Não consigo dormir com seu olhar claudicante sobre mim: “Me escreva”, pede ela com aqueles olhos de casta falsidade. Pudera eu tratá-la como ela trata os mendigos da rua e a enxotaria de minha casa. Clarice não está em minha casa, contudo, e sim dentro de mim. Penso Clarice e a vejo, assim como outrora a moça via Felipe. Sempre soube que se me demorasse demais naquele texto, iria acabar apaixonando-me por ela. É que tenho essa tendência infantil a estabelecer relações amalgamantes com tudo aquilo que me vem ao encontro. Especialmente se nada me vem ao encontro e coisa já está dentro de mim. Desta forma, não preciso de amálgamas, apenas preciso aceitar o fato de que, sim, estou apaixonado por mais uma idéia. Clarice é minha idéia. Clarice é, também, uma moça da vida. Não uma mulher da vida, mas uma moça com existência comum e, a título de prova, ela me garante que caga. Todos os dias, diz-me ela, cago, ao menos uma vez por dia. Tenho uma pontada de inveja dessa regularidade com que ela consegue ser normal. A moça das minhas idéia é mais normal que eu: caga e apaixona-se por pessoas de verdade.
Decerto que nem sempre foi assim. Já foi dada a amar idéias, a mocita. E amou uma idéia tão loucamente em si que, em dado momento, era difícil dizer o que era idéia, o que era Clarice e o que era amor. Agora sou eu que me vejo nesta situação ridícula de amar quem não existe. Já Clarice, tendo abandonado o amor pela idéia que tinha de Felipe e tendo, inclusive, escrito uma carta malcriada para o rapaz, sob a insígnia de “apenas mais um conto de fim de noite” que, como os outros, publicara em seu sitezito, já ela ama um rapaz de verdade. Deitada, minutos antes de cair no sono, Clarice pensa se Alex era um nome que ia bem com o dela. “Clarice e Alex” ou “Alex e Clarice”, qual seria mais sonoro? O som é importante para as palavras, bem como o silêncio. No silêncio é que mora o dito, mas no som é que as palavras se falam a si. Queria gritar de modo que Clarice ouvisse o quanto a amo. Nota mental: tenho que parar de falar de mim, que o texto é sobre Clarice. Suas pálpebras, pesadas pelo sono, fecham-se lentamente agora. Aproximo-me de seu ouvido e susssurro “Autor e Clarice. Clarice e Autor”, mas ela acorda de sobressalto. Despertei-a sem querer. Queria mesmo que ela se acostumasse com a idéia de amar-me, mas não controlo Clarice. Apenas escrevo sobre ela.
Desperta, vejo-a sentar-se em frente ao computador. Este seu amigo, o computador, tem muita importância em sua vida desde que outro amigo dela a indicara um site em que poderia conhecer todo o tipo de gentes. Com um sorriso largo no rosto (acredito tê-la ouvido gargalhar de um prazer de gozo), escreve para Alex: “Querido, queria ver-te. Sei que moras longe, mas poderia ir visitar-te qualquer desses dias... Talvez em seu trabalho”. E depois disso, perdi-me da menina e tudo o que sei é o que ela mesma escreveu em seu site. Alguma coisa sobre uma boate em um país distante onde as pessoas são frias e distantes. Alguma coisa sobre corredores infindos e confusos e um closet misterioso do qual preferiu não dizer nada. Ou melhor, do qual não tinha nada para dizer, pois não foi capaz de recordar-se. Recordava-se apenas e com muita clareza, dos olhos de Alex pousados nos dela. Lembrava-se do calor saboroso dos lábios de Alex pousados em seu pescoço e do sabor calorento que os lábios dela sentiram ao beijar a carne macia logo atrás da orelha do rapaz. Memorável fora o momento em que sentira as mãos fortes de Alex em sua virilha. Sentiu seu corpo liquefazer-se e, úmida, pediu que ele a penetrasse. Recordava-se, acima de tudo, de tê-lo sentido dentro de si algumas vezes aquela noite e do macio das plumas penduradas em um cabideiro próximo à parede em que deixou-se ser possuída por aquele que já a possuía antes mesmo daquele primeiro encontro. E trazia consigo, bem fundo e ecoante, o que o rapaz lhe disse ao fim da noite: “Clarice, me perdoe. Eu devia ter dito antes, mas... É que... Bem, sou gay”. Era gay e nem tudo podia ser perfeito. Apesar do sexo ótimo, era gay o Alex. Há infantes gays? Pois que dizem que um dos Joões, da família real portuguesa, era dado à felação. Não que gostasse de fornicar pelo buraco de trás com jovenzitas do reino. Dizem por aí que era “biba, bibíssima, bibérrima”, contou Alex a Clarice numa outra oportunidade. João dava a bunda pelo reino e comia sua esposa no fim da noite. O que haveria de errado, então, em Alex e Clarice terem tido uma noite estupenda de amor entre as quatro paredes do closet?
A questão seria como trepar novamente com um viado. Clarice nunca foi de ter preconceitos, mas é que gostava de sexo. O sexo era para ela uma possibilidade de libertação de si mesma. Eu me livro de mim por Clarice. Ela é minha ferramente. Para ela, o sexo servia como escape e o momento do gozo era o momento em que não tinha sequer contato consigo mesma. Clarice adorava o gozo e isso não seria novidade, pois todas as gentes também gostam. Era assim que eu pensava, até perceber que as gentes gostam do gozo pela sensação de relaxamento, pelo prazer que ele traz, por aquilo que o gozo, em se tratando de gozo, em si mesmo é. Clarice gostava do gozo para esquecer-se de si. Quando gozava, era um nada. Mesmo no sexo, era nada. Como diria Genet, Clarice queria ser apenas o buraco para que o outro depositasse nela seus líquidos, queria alienar-se de tal modo de si que nada seria. Só o gozo isso lhe permitia. E como garantir o gozo diário com um gay ao seu lado? Se algum dia ele viesse a falar e seu desejo pelo mesmo sexo falasse mais alto? Como seria gostar de um viado?
Clarice está no ônibus. Segue para a casa de seus pais. Têm a sensação de que Alex ainda está dentro de seu corpo. Tudo em que consegue pensar é Alex. Até mesmo suas idéias sobre o lugar que mora passam, invariavelmente, por Alex. O ônibus segue trepidante. O sol lá fora deve estar mais quente que o ar condicionado gelado dentro do coletivo. Clarice queria estar lá fora e sentir o sol em seu rosto. O calor do sol em seu pescoço talvez lhe lembrasse de quando os lábios quentes de Alex a tocaram. Olhando Clarice, tenho vontade de gritar para o mundo que ainda há beleza. A paixão nos cega a todos. As dores nos cega a todos. E se há beleza, as gentes perderam a capacidade de vê-la. O coração exultante de Clarice, porém, abriu-se ao mundo e vê a beleza. Clarice deseja gritar, num ímpeto, estridente e altisoante, um longo e súbito “Ah!”, que ela exulta de felicidade. Todo seu corpo responde em felicidade ao mais leve anseio da moça. Seus lábios, por exemplo, por mais que ela tente refreá-los, seus lábios são só sorrisos e seus pensamentos são só Alexes. Vou parar este ônibus e pedir para que esperem que Clarice grite. Me dá angústia ver tanta felicidade contida. A felicidade, quando existe, deve ser posta para fora. Não para que gaste e termine. Mais mesmo para que seja plenamente vivida. A felicidade deve ser gritada! Este é o compromisso humano com a felicidade. Senão, a felicidade vira amargura e o que fizemos dela? Felicidade que não se grita dá tanto câncer quanto tristeza. Imagino como seria se Clarice se ergue-se de sua poltrona e gritasse dentro do ônibus: “Senhores, estou feliz por que amo! Senhores, fui também amada e, ah!, isso é tudo o que alguém pode querer. Há vários de tipo de amor, mas deste é dos que tem volta. Eu mando, ele retorna. Senhores! Ah!”, e falaria sobre como sentiu a carne de Alex invadindo a sua.
Ainda era capaz de lembrar-se, já bem o sabemos, de como foi o encontro e do que Alex lhe dissera. Já deixara de pensar em como seria namorar com um gay. Se era do desejo de Alex, não haveria problemas. O desejo move o homem e como os milagres para as montanhas, é capaz de tudo mudar. Não importa o que Alex tinha vivido até ali, mas sim o que ele desejava viver de ali para adiante. Sem preocupações, então, e plena de felicidade, Clarice esqueceu-se mesmo que estava em um coletivo e que as pessoas a olhavam. Pudera eu esquecer-me que há um olhar que me olha e também faria o mesmo, sem pudores. Clarice lambeu seus dedos. Fechou os olhos e lambeu os dedos em lascívia. Viu diante de si o infante. Alex a aguardava no balcão da chapelaria da boate. Ela diria: “Vim guardar contigo meus tesouros” e pensaria se estava ou não sendo piegas. Não se trataria, no entato, de ser ou não piegas. Imaginaria uma cena de filme B, atores ruins, roteiro barato e sexo animal, bastante sexo animal e ilógico. Alex lhe respondia com um olhar tão lascivo quanto o modo como Clarice lambia seus dedos: “Então passe para o lado de cá deste balcão”. Clarice via-se travada na soleira do portículo do balcão. As pernas lhe bambeavam e o coração ia acelerado. Alex caminhava em sua direção. Encostava suas mãos no pescoço da menina e, num leve giro, já tocava a nuca de Clarice, bem por baixo dos cabelos da moça. Deixava sua mão correr ao largo das costas da moça paralisada e, descendo, enchia-a na bunda de Clarice, que apertava com força, sentindo bem o buraco que havia entre um lado e outro daquela bunda carnuda. No ônibus, ainda de olhos fechados, Clarice deixou seu dedo úmido pousar sobre seus seios. Seus mamilos estavam eriçados por debaixo da blusa e a senhora da polrtona ao lado, que outrora olhava pela janela enquanto palitava os dentes, costume bastante interiorina, agora já olhava inquisidoramente para nossa garota. Os mamilos rijos de Clarice podiam ser vistos por sobre a blusa de linha que ela vestia. Gostava de usar roupas de linha para visitar os pais. Pensava que ganhava um ar mais sério com elas. Utilizando-se do que Deus havia dado apenas aos homens, Clarice unia o dedo opositor ao indicador e pinçava levemente seu mamilo direito. Em sua mente, ainda estava paralisada no portículo do balcão, a mão direita de Alex ainda apertando-lhe a bunda. Sentia agora as mãos do rapaz entrando-lhe no meio da bunda por cima da saia que vestia e sentiu que sua calcinha molhava. Liquefazia-se e calor vaporoso que saía do meio de suas pernas era o gosto que queria ter agora em sua boca. Avançou tropega para o lado de dentro do balcão. Alex subiu suas mãos até os ombros de Clarice e, não sem antes ter posto a placa de “fechado” por sobre o balcão, disse-lhe : “Venha comigo” e olhou-a fundo nos olhos. Guiou-a habilmente por entre corredores e corredores de prateleiras. Muitos deveriam ser os que deixavam seus pertences guardados naquele lugar e o esqueciam depois de uma boa noitada, seja por não lembrar-se nem sequer como ali chegou, seja por ter melhores motivos para logo sair sem antes pensar em buscar o que trouxera consigo. As prateleiras pareciam não ter fim. Caminhavam Alex e Clarice entre toques e olhares: ele deixava, por vezes, suas mãos descerem dos ombros até os seios da moça e os apertava com força, puxando o corpo de Clarice para si; nessa horas, Clarice deixava-se sentir o pau duro do rapaz tocando-lhe a bunda e pensava em como queria ser penetrada por trás. Clarice conhecia aqueles corredores. Caminhara por eles no dia anterior e dentro do ônibus deixava seu pensamento seguir os passos que fizera até o pequeno closet no final da chapelaria. Alex deveria estar em casa a estas horas e talvez dormindo, talvez arrumando-se para mais um dia de trabalho... Clarice, o sabemos, estava no ônibus e agora desistia de pinçar seus seios e enfiava lentamente os olhos ainda fechados, os dedos novamnete umedecidos por debaixo de sua saia e sentiu seu clitóris quente e úmido. Os pêlos de sua buceta sendo tocados no caminho até seu clitóris geraram uma sensação tal em Clarice que ela deitou a poltrona um pouco mais e com a mão esquerda começou a tocar seus seios com força. A volúpia do momento assustava a senhora da poltrona ao lado, mas esta nada fez a não ser olhar tudo com uma pontada de inveja, lembrando-se do tempo em que ela mesma não aguentava de desejos e entregava-se a eles nos lugares menos oportunos. Preferiu não incomodar a moça e ela mesma, a senhora, começou a sentir sua vagina dando sinais de um antigo funcionamento, há muito abandonado. Clarice continuou friccionando seu clitóris por mais algum tempo, até quando, em seus pensamentos, chegou no closet onde ainda ontem, entregara-se a Alex.
No pensamento de Clarice, Alex abria a porta do closet com um sorriso bastante sadado no rosto. Parecia dizer: “Agora te fodo”. À idéia de um Alex desejoso de fodê-la, no ônibus, Clarice deixou seus dedo médio penetrar sua buceta úmida enquanto o polegar fricicionava o clitóris. A mão esquerda ainda apertava seus seios quando Clarice, não aguentando em êxtase e já tendo completamente se esquecido que havia outras pessoas ao seu redor, soltou um gemido. Em olhar, há quem não veja; em que ouvir, há os que não ouvem, mas todos no coletivo ouviram o gemido da menina. Alguns abafaram o riso, outros murmuraram resmungos e ainda houve aqueles que ficaram a pensar se deveriam ou não juntar-se ao movimento da jovem moça da poltrona 9, pois também ficaram estes excitados. Clarice via Alex sorrindo para ela. Entrou no pequeno closet e antes que tivesse tempo de ver direito onde estava, como na noite anterior Alex lhe disse: “Não repare em nada, que este lugar guardo-o em segredo. Agora, ajoelhe-se aos meus pés”. Trêmula, Clarice obedeceu. Mas antes, fez menção de tirar a calcinha, para o que recebeu um olhar aprovador de Alex. E tendo ajoelhado-se, viu o pau duro de Alex diante de seus olhos e começou a tocá-lo levemente com a língua, e depois com os lábios, e depois com o canto da boca, até que então sentiu-o tocar-lhe bem fundo a garganta. Alex, com suas duas mãos, empurrava a cabeça de Clarice para frente e para trás, entre gemidos e uma respiração arfante. Clarice olhou para cima e viu Alex. Excitou-se tanto com a visão do rapaz excitado pelos seus lábios, que mesmo antes de tocar seu clitória, enfiou três dedos na vagina. No ônibus, fizera o o mesmo e gemeu novamente. Foi então que Clarice ergueu-se do chão, sob um olhar desaprovador de Alex, encostou-se inclinada à parede e disse: “Me fode”. Alex logo sorriu e tirou o olhar desaprovador da cara. Segurou a menina pelos quadris e sentiu seu pau na parede úmida da vagina de Clarice. Enfiava e tirava seu pau agilmente de Clarice, cada vez com mais força. Clarice movia, por vezes, levemente o quadril de um lado para o outro. No ônibus, Clarice tirou os três dedos de dentro da vagina e começou a friccionar seu clitória com bastante velocidade.
Alex tirou seu pau de dentro de Clarice, que o olhou com olhos de pedinte a dizer “Por favor, continue”. Mas Alex tinha tudo planejado. No canto esquerdo do closet ele guardava para estas ocasiões uma dessas cadeiras de abrir e fechar. Buscou logo o assento, abriu-o, sentou-se e disse: “Sente-se em mim.”. Clarice excitou-se tanto com esse pedido que sentiu que seu corpo desfalaceria de tesão. No ônibus, Clarice sentiu-se próxima ao gozo, o momento que tanto prezava.
Tirou logo a saia e a blusa e, de costas para Alex, que segurava com sua mão direita o pau ereto, sentou-se. Sentiu aquela carne quente forçando-lhe o anel do ânus. Sentia dor e parecia que alguma coisa em si rasgava, cortava. Mesmo assim, Clarice não hesitou e de uma só vez colocou o que podia de Alex em si. O rapaz lambeu seus dedos e enfiou-os na buceta de Clarice. Aqueles dedos grossos e rudes... Clarice lembraria-se deles por toda uma vida, se memórias duram tanto. Aqueles dedos grossos e rudes tocavam a parede interna da vagina de Clarice ao mesmo tempo em que ela se movia para cima e para baixo velozmente. Alex estava em êxtase. Clarice subia e descia em seu colo, os peitos da menina subiam e desciam com ela, os dedos dele iam cada vez mais fundo numa buceta cada vez mais úmida, Clarice começoua tocar seu clitóris e pediu que Alex colocasse mais um dedo dentro dela, Alex sentiu seu pau latejar dentro de Clarice, Clarice sentiu que ia gozar, Alex sentiu que ia gozar, Clarice gemeu de prazer e Alex gritou de desejo, Alex puxou seus dedos de dentro de Clarice, Clarice tocava mais agilmente seu clitóris, Alex levou as duas mãos para a bunda de Clarice e fazia movimentos para ajudá-la e erguer-se e abaixar-se no colo dele. Clarice gritou de prazer, Alex gozou, Clarice gozou. No ônibus, Clarice abriu seus olhos, o peito arfante, a respiração ofegante, os sentidos sendo recobrados e o pensamento na cena que acabara de fazê-la gozar. Ainda imaginava seu cu cheio dos líquidos de Alex e imaginava Alex suado na cadeira de abrir e fechar. Imaginava-se levantando-se, ficando de frente para o rapaz e sentando-se nele e envolvendo-o em um abraço carinhoso enquanto o beijava a testa e o rosto. Os passageiros do ônius preferiram fingir não ter visto e ouvido nada. Clarice virou seu rosto para a jaela e começou a olhar a paisagem. Estava indo para a casa de seus pais e pensava em Alex. Sim, pensava em Alex.

quinta-feira, 27 de março de 2008

O Amor e a Idéia ou O retorno de Clarice ou Da raiva que veio depois ou Amou sem ser correspondida ou Do sorriso no final ou Dos medos de ser autor

Queridos todos,
Só queria dizer, antes do texto (que é também algo que tenho para dizer) que não sumi.
Sam,
Não me esqueço de você, dear.
Sei que você visita o blog e aproveito para deixar pública (sim, algumas pessoas visitam o blog rs) a saudade que sinto de você. Não me esqueci da promessa de te visitar nos próximos dias. Creio que possa ir até o final de abril ou bem no começo de maio, quando recebo, por fim e por graças (rs) o meu primeiro e suado salário rs.
Te ligo num dia mais tranquilo, quando eu sair tarde da noite, para podermos nos falar direitinho.
Beijão!
Ro
O Amor e a Idéia
ou O retorno de Clarice
ou Da raiva que veio depois
ou Amou sem ser correspondida
ou Do sorriso no final
ou Dos medos de ser autor
ou Do amor que vem no fim
ou Sobre como terminar um parágrafo e um texto
ou Sobre viver como o mar
ou De uma existência infantil
ou Ai, meu Deus, que fazer deste texto?!


Clarice, quando deu-se por si que era possível amar sem que fosse amada, chorou compulsiva e renitentemente por 3 horas seguidas. Bom mesmo seria se sempre houvesse um retorno, pensou ela, mas aí seria como nas lojas: produto, valor, pagamento, recebimento... E acresceu ao choro mais quinze minutos de lágrimas. As relações não podiam ser tão mercantis. Haveria um amor puro? Tal coisa como um amor puro lhe fora vendida desde menina pela mãe. Ela dizia: minha filha, não existe o príncipe encantado, mas para cada pé sujo há um chinelo gasto, o que Clarice entendia como a promessa esperançosa de que no mundo havia alguém para ela, somente para ela, a espera do encontro que, por sorte ou acaso, poderia acontecer ao longo dessa vida ainda. E se não acontecesse, perguntava-se a menina; Se não acontecer será assim bem triste, respondia-se ela, e fechava os olhos tentando imaginar como seria ele, o infante.
Talvez estivesse do outro lado do mundo. E talvez não estivesse nesse mundo e aí seria triste. Clarice não é menina mais e fico pensando porque não consigo escrever sobre Clarice como se não se tratasse de uma criança. Clarice não é criança. Nem eu sou mais criança. Mas é bom pensar que as pessoas ainda sejam crianças, e que falam como crianças, e que agem como crianças. Há pureza nisso. Pureza e um certo deslocamento que torna tudo leve e fácil. Clarice traz muitos pesos consigo. Poderia falar dos pesos e ser pesado. Como é bom poder falar da leveza de Clarice, que chora e diz que pensar que não há amor puro seria "assim bem triste", como diz uma criança que não entende que o "tem" é separado do "que" e diz "você temque ou não temque?". Clarice tem vinte e dois anos e trabalha para se sustentar. Clarice mora só e é sozinha, apesar dos amigos. De fato, Clarice não pensa nisso o tempo todo e apenas segue sua vida pensando que se não houvesse a esperançosa promessa de que há alguém apenas para ela no mundo tudo seria assim bem triste, sem dar-se por conta de que muitas coisas já o são.
O infante de Clarice poderia viver na esquina, na casa ao lado, ou mesmo ser um dos mendigos de rua que ela destratava quando realmente não tinha dinheiro para dá-los. Ela não gostava de dar dinheiro, trabalhara tanto por ele... Quando chegava em casa, sozinha e com o peso da mochila nas costas, pensava que tanto trabalho seria de mais valia se pudesse ter a quem contar: “Querido, - pensava ela em poder dizer e dizia em voz alta às vezes para as paredes de seu apartamento – hoje o dia foi cansativo. Quero um abraço”, e então ela deitava-se, ligava a tevê e esquecia-se de si e do dia que tivera. Por vezes, recebia uma ligação de seu melhor amigos, Lucas, que não lhe falava nada ou lhe contava tudo. Lucas era assim bem engraçado, pensava Clarice. Conheceram-se por conta de uma autora que Clarice gosta e que carregara por toda sua vida o mesmo nome que ela: Clarice. Lucas não era o infante de nossa Clarice. E mesmo que o tal infante morasse na esquina, na casa ao lado ou fosse um dos mendigos de rua, Clarice não o veria. A solidão a cegara.
Todas as noites, antes de dormir, ela ligava seu computador e digitava algumas palavras. Por fim, chamando o que escrevia de “conto”- na verdade relatos do que ela vivia mas de um modo bem escamoteado para que nem ela soubesse que se tratava apenas dela todos aqueles personagens e todas aqueles dores de que ela tanto gostava escrever – ela os publicava num sitezito que havia criado para si por sugestão de Lucas. E lia. Lia um bocado antes de dormir todas as noites.
Uma vez, outro amigo lhe dissera: “Clarice, porque não busca alguém pela internet?”. A idéia lhe parecera, de primeira, um bocado disparatada. Pessoas não são textos, assim como seus textos não eram ela. Como já tinha ouvido falar que as pessoas mentiam nestes sites! Seria impossível – sim, impossível! – conhecer seu galante infante em qualquer lugar que não fosse as ruas da cidade, por onde andava cega de solidão.
A resistência da moça durara tanto quanto as espumas salinas de um mar bravio. Tendo tomado coragem, Clarice criou um perfil para si e entrou para um dos sites de relacionamento que seu amigos lhe havia indicado.
Pela primeira vez em seus vinte e um anos (porque isso se sucedera num tempo diferente desse em que escrevo, um ano antes do choro copioso de Clarice), escrevera sobre si: “Sou uma menina bonita, atraente e sexy”. Isso era tudo. Ela não era sexy e nem se achava bonita e atraente. Questões de boniteza e atratividade, contudo, não se devem aos olhos do escritor, mas aos olhos de quem vê, pensou ela e por isso decidiu deixar o texto medíocre no ar e clicou sobre o botão “enviar” no canto inferior direito da tela. Ela certamente podia ter escrito coisa melhor, mas por vezes tem preguiça. Eu também tenho preguiça e penso em como me pareço com Clarice. Agora mesmo tenho certeza de que deveria falar mais sobre o que Clarice pensa do que sobre o que Clarice fez. Ah! A realidade... Tão maçante escrever sobre ela, que por horas me sinto um jornalista em seu trabalho. Este texto sobre a realidade da vida de Clarice, sobre cada um de seus atos desde o dia em que decidiu aceitar o apelo de seu amigo para que navegasse pela internet em busca de um amor, me parece um erro. Clarice é um erro. Mas nisso não sou Clarice, apenas escrevo sobre ela. Seus atos fogem de mim e tudo o que de interferência tenho neles é o modo como os conto. Sei que poderia fazer melhor, assim como Clarice poderia ter escrito melhor sobre si. Não sei para quem escrevo, entretanto, e deixo o texto como ele me saiu, sem correções, sem adendos. Se algum outro detalhe me vier em mente, dilacero a história de Clarice e saio insertando-os no texto. Não tenho nenhum compromisso com ela, com a moça de quem falo. Meu compromisso é apenas comigo, quero escrever sobre ela do modo como a história dela me vem. Ai! Que Clarice não fuja de mim! Não saberia o que fazer se ela fugisse. É tão ruim quando um personagem nos escapa. Vários já me escaparam e os perdi de vista, mas Clarice ainda está diante de meus olhos e a vejo tensa em frente ao computador aguardando uma resposta ao seu “Sou uma menina bonita, atraente e sexy”.
Seu texto medíocre lhe rendera sua primeira paixão.
Amara o rapaz tão fulminantemente que nem se dera conta de que era possível amar sem ser amada. E continuou amando-o em si, mesmo quando o corpo dele já não estava dentro do dela. E continuou amando-o em si mesmo quando os olhos dele não olhavam o dela e sim o de outra mulher. Clarice fantasiava que o via antes de dormir. Deixara de ler e deixara de escrever seus contos. Perdera o rumo que seguia em sua vida de tanto amor que sentia. Algumas vezes exclamava para si: “Que boba você é! Bobinha!” e ria olhando-se no espelho antes de tomar um banho quente. Amara o rapaz mesmo depois que ele sumira de sua vida e acreditou nunca mais ser capaz de amar outra pessoa. A solidão, que outrora a cegava, fora substituída então pela fantasia da companhia. Clarice vivia com a presença etérea de Felipe, o rapaz, ao seu lado. Conversava com ele longamente sobre a vida e o encaixava em todos os seus sonhos e planos. Felipe era a certeza de que precisava para seguir a vida. Chegara mesmo a deletar seu perfil medíocre do site, já que de nada mais precisava quando já cria ter tudo o que lhe era necessário. Tudo que lhe era necessário era nada. O rapaz existia apenas para si. Nunca para Clarice. Sem perceber, Clarice amaa uma idéia.
Amar uma idéia é diferente de amar uma coisa real. Tenho medo de me apaixonar por Clarice, que é uma idéia. Se me apaixono por ela, como me distanciar se nenhuma relação real se estabelece? Se em minha idéia só vejo e crio perfeição? Felipe era perfeito na idéia de Clarice. Como ter raiva de uma relação perfeita? Como afastar-se daquilo que, de tão nosso, apesar de crermos estar fora da gente, acaba sendo nós mesmos? Quero terminar a história de Clarice por puro medo de amá-la e cegar-me como ela cegou-se. Clarice não é minha companhia. Clarice é meu expurgo.
Quando escrevemos, escrevemos sobre o quê? Escrevo sobre Clarice. Ela sou eu. Eu sou Clarice. E a vejo em frente ao seu computador após ter chorado compulsivamente por três horas e quinze minutos. Ela sorri. Há tempos não a via sorrir daquele modo.
Um ano se passou. A paixão pela idéia de Felipe perseguia Clarice como as ondas do mar. A imagem suave de Felipe ia e vinha em sua mente. Sentia saudade, não sentia saudade, sentia saudade, não sentia saudade, sentia saudade... Clarice era, ela mesma, um grande mar cheio de ondas. Foi ver-se a si na praia. Sentou-se nas pedras do Arpoador, onde estivera com Felipe um dia. Olhava o horizonte e se via. Compreendeu ali que ela era um mar, assim com eu acabei de dizer. O mar era de água. A água não era o mar, pensou ela. O mar é o mar. A água é a água. Não há mar sem água assim como há água sem mar. Eu escrevo e não existe minha escrita sem que exista Clarice, mas existe Clarice sem mim e meu amor por ela seria amar uma idéia, seria nunca ser correspondido, por isso corro e em mais dois parágrafos termino a história de Clarice, a moça que, olhando num final de tarde o mar deu-se conta de que amara Felipe sem ter sido amada por ele. Felipe, seu primeiro amor, nunca lhe amara. Não era, então, amor de verdade e os olhos de Clarice continuaram sem ver. Mas não mais pela fantasia da companhia é que ela era cega e sim novamente pela solidão obscura.
Foi neste dia que chegou em casa e chorou compulsiva e renitentemente por três horas e mais quinze minutos, quando pensou que as relações eram como um mercado. Conseguiu então, distanciando-se da idéia perfeita que fizera de Felipe e com que se relacionara por todo este tempo, ter rava do rapaz. Não do que imaginara e criara apenas para si, mas do de verdade, aquele que a abandonara e que estava, provavelmente, nos braços de outra. Sentou-se em frente ao computador e esboçou um novo perfil de si: “Sou Clarice e não existe amor”. Enviou seu perfil para o site e logo recebeu uma resposta.
Era Alex. Conversaria com ele por toda aquela noite. E por outras que ainda não viveu, mas que eu já sei que irá viver. Clarice, desde esse dia, voltou a sorrir. Um sorriso de canto de boca, um sorriso de lado a lado de face. Um sorriso de dentro. Não mudou o texto que a definia, mas se o fizesse, certamente agora escreveria algo como “Sou Clarice. Já desacreditei do amor. Agora, amo.”, mas ela não faria isso porque já não precisava do site. Do outro lado da tela do computador, falava com o seu infante, aquele que sua mãe lhe falava quando nossa moça ainda era criança e pensava que uma vida sem amor ia ser assim bem triste. E termino o último parágrafo e apago Clarice de mim para que não me cegue com a esperança da companhia dessa moça por mais algum tempo.

sábado, 15 de março de 2008

Da breve continuação do encontro no horário de almoço

Gabriel escrevera então para Guilhermina uma mensagem lhe chamando para ir ao cinema na noite daquele mesmo dia.





Aguardou por uma resposta







que não vinha.



Quando já estava no cinema, a resposta que teimava em não chegar, fora recebida com uma vibração silente de seu celular.
Mesmo na sala escura, em meio à projeção, Gabriel lera a mensagem... Responderia? Talvez... Mas nenhuma mensagem pequena seria capaz de falar do que ele percebia que tinha feito: mais uma vez, por medo diante do que procurava (pois que Guilhermina era o que ele procurava e encontrar o que procuramos, às vezes, nos dá medo), Gabriel agiu imbecilmente e usou a defesa mais comum a si: o humor deslavado e barato.
Mas talvez respondesse educadamente. Talvez fosse no mínimo educado pedir desculpas pelas brincadeiras que fizera com a distância em que a menina morava... Mas queria mesmo era que ela o desculpasse por como agira e que o desse, ao menos outra vez, a possibilidade de sua presença do outro lado da mesa.

Sobre um encontro no horário de almoço

"Está guardado comigo o seu nome"
Ferreira Gullar
O frio se adensava entre ambos como uma multidão e os separava, e os dividia, e os reduzia cada um ao seu único, desfazendo o encontro. Mas eles teimavam - sobretudo Gabriel -, eles insistiam, eles retomavam o encontro de onde este haviaparado, seé que encontro é matérias de "retomar-se". Nem mesmo a chegada de duas amigas de Gabriel impedira que ambos teimassem, insistissem e retomassem a conversa interrompida e dificultada pelo frio e pelos outros. Sairiam do café, uma hora e meia após haverem se sentado naquelas cadeiras vermelhas cheias de um estilinho metido a besta, sem nada terem combinado, sem terem trocado impressões sobre o momento que acabara de findar-se, sem promessas de futuro. Apenas o vazio do fim do encontro os acompanharia até Deus sabe quando, que é quando o vazio do encontro poderá ser substituído por algum outro vazio ou por um falso preenchimento qualquer ou coisa que o valha.
Ela se chamava Guilhermina. Procurava alguma coisa. Por não saber bem o que procurava, perguntava aos outros pelo quê procuravam. Ele se chamava Gabriel. Ele achava procurar algo que sabia bem o que era, mas quando encontrava o que pensava buscar, percebia que havia se enganado e partia em nova busca daquilo que acreditava saber que queria e, por crer saber, não perguntava a ninguém o que eles procuravam.
Guilhermina e Gabriel descobriram-se ao mesmo tempo. Ela, em sua busca cega; ele, em sua busca burra, esbarraram-sena rua,apressados que iam: ele para a empresa, ela para a academia, e trocaram telefones.
Guilhermina não era ansiosa como Gabriel,mas ainda assim ligou para o rapaz dias depois perguntando se não almoçariam juntos aquele dia. Gabriel estava doente. Apenas doente, mas logo, doente E arrependido, pois não aceitara as diversas ofertas da menina preocupada de lhe fazer companhia enquanto esta lhe fosse necessária em virtude da doença. No entanto, Gabriel preferiu deixar o arrependimento de lado e agarrou-se à esperança de ligar para Guilhermina tão logo se recuperasse. Seria então que marcaria um primeiro encontro em que pudessem sentar em algum café da cidade e conversar sobre a vida.
Foi então que, recuperado, Gabriel ligou para Guilhermina e o encontro que sabemos ocorreu e findou-se. Gabriel, agora, podia dizer ter, de fato, a certeza do que procurava; Guilhermina, para mim, contudo, continua uma incógnita após os momentos que os dois passaram juntos naquele café, já que Gabriel sou eu, que os escrevo e que procuro Guilhermina e ela não sou eu.

segunda-feira, 10 de março de 2008

Parabéns para mim

O chapeleiro pediu atenção. Iria fazer um discurso para o aniversariante que, ágil, posicionara-se atrás do bolo, meticulosamente arrumado no centro da grande mesa comunal. Eram muitos os convidados que ouviriam o discurso, por isso o chapeleiro escrevera tudo em longo pedaço de papel. O papel era tão, mas tão longo que foram precisos três anões para desenrolá-lo e cuidar para que não se rompesse è medida que fosse sendo puxado pelo chapeleiro ao longo de sua leitura.
O silêncio, aos poucos, começou a reinar. As princesas e príncipes, todos presentes, as fadas, os reis e seus serventes, os bobos de três cortes diferentes, alguns súdito mais diletos, todos estavam ali e foram calando-se com o calor do abafante desejo de falar do chapeleiro.
O chapeleiro retirou o chapéu e trouxe-o, então, para junto do peito. O silêncio pesou sobre todos como uma entidade. Foi então que o discursante respirou e deu início e fim ao seu discurso:
- Querido, querido... Ai, ai... Parabéns!
O silêncio expectante continuou pesando sobre todos até que o aniversariante deu uma boa gargalhada e aplaudiu a iniciativa do amigo fazedor de chapéus: "Meu caro, meu caro, assim nem completo os 22 anos, que você me matará de rir antes de completar a hora do meu nascimento!". Todos gargalharam em conjunto e aplaudiram um chapeleiro encantado com a recepção que tivera seu pobre discurso.
Foi então que as três fadas levantaram vôo e sobrevoaram o salão velozmente. Pararam sobre a cabeça do aniversariante e a que estava vestida de verde disse:
- Querido, ah!, querido! Como é bom estar aqui ao seu lado! Por essa dádiva que me permites, te dou uma eterna coleção de amigos, que seguiram contigo por toda a vida.
A segunda, vestida de rosa, então falou:
- Querido, ah!, querido! Como é bom comer ao seu lado! Por essa dádiva que me permites, te dou um eterno suprimento de tudo o que é mais necessário ao corpo do homem: carinho, atenção e amor na medida certa.
Eis que a terceira, vestida de azul, proferiu as palavras finais:
- Querido, ah!, querido! Como é bom te ver feliz! Por essa dádiva que me permites, te dou de tudo o que precisares e que não tenhas ganhado das minhas colegas. De tudo para tua felicidade!
Todos aplaudiram esses gestos efusivamente e lembraram-se que as velas por sobre o bolo já estavam consumindo-se. Tinham que cantar parabéns!
A agitação tomou conta de todos. Os olhares furtivos eram trocados, como que em um sinal combinado para o começo da canção comemorativa.
O aniversariante, então, puxou o canto. Abriu os olhos fechados, encarou a sala vazia de seu apartamento, o bolo de chocolate posto sobre a cadeira do computador jazia a sua frente, os personagens de sua imaginação foram deixados para trás e ele cantarolou baixinho e sozinho em sua casa:
- Parabéns para mim... Parabéns para mim...

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Saudade de você que nem existe

Ei, querida, queria te dizer que sinto sua falta, mas de que adiantaria? E de que adiantaria não dizer, também? Sinto sua falta e isso é tudo. Mas não sei se sinto falta de você. Não é de teu corpo que sinto falta. Há muitos corpos em volta de mim. Para onde olho, um novo corpo. Não é do teu corpo que sinto falta e nem de você. Sei que é complicado, mas me acompanhe que você será capaz de entender. Talvez não hoje. Hoje, nem sempre, é a hora.
O que o outro é para alguém senão uma fantasia? Uma fantasia concreta. A concretude da fantasia-outro não anula a fantasia. A fantasia-outro é um infindo carretel de possibilidades. Somos nós que escolhemos os fios com que iremos tecer o outro-fantasia.
Você-fantasia. É disso que sinto falta. Sinto falta em você de tudo aquilo que você nunca foi e nem nunca poderia ser, a não ser para mim. A não ser em minhas idéias. Ainda assim, gosto de você, mesmo com a certeza de nunca receber o desejado. A reciprocidade é o sentimento que temos de estarmos sendo correspondidos por nós mesmos na fantasia-outro que criamos para o outro. O que tivemos foi recíproco, pois dei ao você-fantasia de você tudo o que eu queria. Recebi tudo em troca naquele tempo em que estivemos juntos.
Você... A pessoa com que sonhei desde pequeno, quando imaginava as luzes vermelhas de uma cidade grande esfumacenta, e suja, e cheia de ruídos e de dinheiro. Me imaginava em uma casa grande, um apartamento cosmopolita de uma cidade cosmopolita e minha esposa cosmopolita. Você-fantasia era essa esposa e dei a você-fantasia tudo o que eu precisava em você e recebi tudo em troca, mesmo sem você ter, de verdade, me dado qualquer coisa. Somos nós que nos damos o que queremos. Isso é tudo. Errados são os que esperam que o mundo e o outro entreguem aquilo que desejam. Errados são aqueles? Talvez eu mesmo é que esteja errado, mas como foi bom acreditar que você me dava tudo, você que não era você-concreto, agora sei. Me relacionei com o você-fantasia de você e é dele que sinto falta.
Qual a vantagem em se relacionar dessa forma? Se nada é concreto... Se mesmo distantes eu ainda pudesse dar ao você-fantasia de você tudo aquilo que eu desejo. O problema é que a fantasia de você, que é sobre o que falo, é criada a partir de você. Necessito de sua corporeidade. Não preciso de nenhum ato seu, de nenhuma entrega. Quero apenas você ao meu lado, mero objeto que eu possa mirar e dotar daquilo que necessito e crer que recebo de volta o que na verdade sou eu quem me dou.
Mas, queride, esqueça toda essa profusão sem fim de palavras. A verdade... A verdade... A verdade é que sinto saudades de você, que nem existe.

Nós

Como nascem os nós? Tem um nó em mim. Tenho nós em mim, eu que sou um só. E não fui eu quem o atou. Para que servem nós? E para que os atamos? Tem um nó em mim e não sei o que fazer dele sem que ele me escape. Os nós são rápidos e fogem de meus dedos. A cada toque, sinto-os mais apertados, como nosso ser que quanto mais o procuramos, menos encontramos e mais nos afundamos neles. A interioridade é complicada. Viver para dentro é nunca saber onde se chega, porque depois do fim há um recomeço. E o recomeço, apesar de "re-", nunca é o mesmo começo. É um começo novo, de outro ponto. Dentro de mim há um ponto que não entendo. Ele está na minha garganta e é um nó. Tenho um nó na garganta. Para que serve o meu nó?
A cada toque, penso: ele não irá atender. A cada toque, meu nó se ata mais. Se me volto para mim, são dois toques: o do telefone - e o nó aperta a cada tom na linha sem resposta do outro lado - e o meu toque, este de quando olho para dentro - e o nó aperta em mim a cada nova tentativa de desatá-lo. E se os toques parassem? Para que servem os nós atados pelos toques? E se os dois toques são ruins, para que os deixo tocarem?
Desligo o telefone. Deito em minha cama. Desisto.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2008

O Camelô

Senhores, boa noite!
Antes de tudo, eu gostaria de pedir-lhes desculpas por atrapalhar a calmaria de suas viagens, o silêncio deste ônibus... Mas eu poderia estar matando, roubando, assaltando ou qualquer coisa que o valha... Não, senhores! Nunca! Em vez disso, estou aqui e, mais uma vez, humildemente peço-lhes desculpa pelo incômodo.
É que o amigo traz aqui, hoje, para os senhores, uma novidade. Antes de tudo, já vou logo para a parte final: é que estas coisinhas que lhes trago não são vendidas em loja. Quer dizer, em qualquer padaria, mercado, loja de doces, em lugar algum os senhores encontrariam o que o amigo traz aqui hoje.
Por isso, senhores, elas não têm preço. Sim, não tem preço. E isso, então, os senhores já devem ter percebido, não se trata de comércio, que eu tenho meus meios de ganhar a vida honestamente sem precisar incomodá-los.
A bem da verdade, senhores, essas pequenitas bençãos vendem por aí sim. Mas quem as vende, não as têm de fato e tudo não passará, portanto, de malogro nas mãos de outrem que não eu.
Afianço-lhes que o que digo é verdade e os senhores irão concordar comigo ao final, espero. Quem as vende, não as têm e, eu mesmo, por alguns instantes cheguei a crer não tê-las mais. Sim, quase saí pondo-lhes um preço: o preço da atenção que precisava sentir a mim sendo dispendida pelos outros.
Estes outros, todos, me cobraram. Preço alto. Mas as dores passaram - ou passam, ainda.
Pois, senhores, o que lhes trago hoje são apenas coisitas diminutas e muito fora de uso. Peço, contudo, que não se envergonhem em usá-las e em pedí-las, por mais que lhes soe estranho e que os outros passem a olhar para vocês como se vocês fossem parte de um passado muito distante e sombrio, quando estas coisas que lhes trago ainda eram de uso corrente.
O que lhes trago, senhores, são coisas simples e diminutas, sim, e não têm valor algum, por isso é errado vendê-las, afixar nelas preços altos e dores que escondem-se na parte de "efeitos colaterais" da bula que - pasmem! - nunca nos entregam quando compramos tais produtos. Pois é... Temos que descobrir o texto da bula experimentando. E posso dizer-lhes, com a sapiência de quem pagou para ver e viveu: os efeitos são lancinantes.
Pois que o que lhes trago hoje, senhores, esta noite são coisas bobas, tolas e piegas: carinho, atenção, amor e disposição.
Agora, o amigo vai passar pelo corredor e quem quiser...

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2008

Necessidade do Grito

Tudo o que quero é ver-me livre. Livre de tudo e que em tudo esteja, também, eu. Ah! Sinto-me como um bicho perseguido por dezenas de caçadores: cercado, acossado: sou um bicho perseguido. E tudo o que eu queria era ver-me livre de todo o peso, Senhor! Ah Deus meu, para que lado corro? Queria achar-me e perder-me de mim, tudo ao mesmo tempo: isso é a verdadeira liberdade. Ser e não ser eu: eis o meu desejo, que é mais mesmo uma necessidade. Sou bicho de bueiro perseguido por outros bichos de bueiro, raposa perseguida pelos caçadores. Mas tenho carne ruim e, valha-me Deus!, que eles desistam.
Tento bravamente fugir, mas não sou bravo. O que me falta é coragem. Há faltas que são como dores e há aquelas que causam dores. Não tenho coragem e dói-me. Sinto doer por dentro: a dor da culpa e da solidão são as que mais doem. Doem tanto que, por vezes, penso que sucumbo. Mas volto e recomeço a sentí-las sempre e de novo e volto à fuga incessante, infinda, injusta e insana: fujo de todos e de mim. Queria olhar-me e não ver.
Tenho a sensação de que, como bicho, sou visto a cada momento. Tenho olhos pesando sobre mim e trago comigo um peso. Já são dois os pesos que carrego, que trago por sobre mim olhos e expectativas. Muito se espera de um bicho em fuga. Primeiro, espera-se coisa boa e por isso se quer capturá-lo (ou capturar-me, que é o que se dá). Depois, há o que há de ruim e que, para os outros, se confirma com a fuga: se foge, é que tem culpa, pensam eles.
Não tenho culpa. O que tenho nem sei. O que tenho? Talvez o que tenha seja essa necessidade de nada ter. E que no nada inclua-se tudo. Não quero ter que ter tudo. Ah! Como as obrigações são maçantes! Como é chato ter que ser presente quando tudo o que se precisa é de ausência. Retiro-me do mundo e o mundo me caça. Nas distantes cavernas em que eu me escondo de mim, o telefone me acha e toca logo cedo, de manhã, eu ainda na cama, o corpo mole e a cara inchada. Toca e eu atendo: alô, eu digo, não estou nem para mim mas estou para a voz do outro lado da linha, que responde, que responde, que responde, que sempre responde e liga novamente, e desliga e religa e me liga sempre!, sempre me querendo à disposição minha atenção meu olhar minha voz meu alento eu atento mas não estava agora mesmo nem para mim e digo alô pois não do que precisa e dou minha voz amiga e dou minha compreensão mas é sempre pouco: tudo é sempre pouco quando o que querem é você todo, quando o que querem são eles mesmo, eles que não se acham e pensam que vão se achar em outro. Pior é quando o outro é você e hoje, o outro de que precisam sou eu: bicho acossado, bicho foragido, bicho.
Então, tenho de acordar todos os dias e, além da roupa e da vida, tenho de vestir o peso da vida dos outros, tomar-lhes as escolhas como se fossem minhas. Tenho mesmo?, penso eu, e toca o telefone e digo alô pois não do que precisa e dou minha compreensão e ouço o choro soluçante e a cobrança nas entrelinhas "quando você vem vem em casa" perguntam e eu respondo que em breve e "breve é quando" perguntam e eu não tenho o direito de ficar com raiva pois se dizem isso é de saudade e saudade deve ser premiada e não punida que saudade é sentimento bonito. Mas não me censuro, não me controlo e, bicho que sou, respondo que não sei, que pode levar dias, semanas ou meses. É difícil de saber dessas coisas da vida. Eles, contudo, sempre tão indecisos, têm apenas uma certeza: a de que a vida deles é a minha, a de que somos uma amálgama, uma coisa estranha. Por vezes sinto que devo dizer que não sou eles, que eu sou eu, mas quero me ver livre inclusive deste eu que tenho de afirmar diante deles. Por vezes sinto-me sujo pelo incesto não cometido, sujo pelo incesto cometido, pelo não cometido que cometi e deixei de cometer. Sinto-me sujo, bicho de bueiro, bicho acossado e perseguido e sujo.
Ah! Valha-me Deus que me esvaio de mim num grito. Minha voz me liberta, mas menos de mim, que minha voz ainda sou eu. Valha-me Deus que me atiro do alto deste prédio que sou eu mesmo, valha-me que atento contra mim, que tento ser eu e viver sozinho, ah! valha-me senhor que agora corro o arriscado risco de existir.
Sabe? Tem momentos em que a dor muda e vira dor mesmo. Sim, a dor da falta de coragem de que já falei antes, ela vira dor de verdade e agora me aperta o peito. Ai! que sinto dores no peito e penso na morte. Será a morte o caminho?, Decerto, um caminho, mas ainda não me enveredo por ele e me enveredo por ele todos os dias. Desse caminho, sei, não tenho escolha: percorro-o sempre, e que chegue sem demora, que chegue sem demora essa solução. Eu preciso de uma vida. Eles precisam de outra, mas não percebem que vivem a minha como se deles fosse. Quero viver por mim, somente, por mim e quando decido isso toca o telefone mais uma vez e digo alô pois não posso lhe ajudar e sempre solicito ouço do outro lado a voz que me cobra que me ajuiza que me aconselha em tom paternal e me diz para nao gastar com comida para gastar com comida e não gastar com comida para não ir a restaurantes caros e nao ter a vida que tenho que a vida é a que eles tem humilde frugal modesta isso sim é vida e não os restaurantes caros a que os levo sempre que posso. Para os diabos! Sou bicho acossado mas sou bicho do capeta e mando todos para o inferno. Que a vida e minha e deixem-ma viver.

domingo, 10 de fevereiro de 2008

Do Pequeno Príncipe

Coincidências há que não se compreende. Certos acontecimentos devem permanecer calados no canto da parede de tempo em que aconteceram para que, de onde estamos agora, possamos olhá-los em busca de compreensão. Por mais que se olhe, contudo, as percepções sempre mudam e assume-se tarefa impossível essa de dar conta de todo o surpreendente acontecido:
Pois que foi em uma noite suja que se falaram pela primeira vez e na primeira noite suja em que não se falaram vez alguma, metade deles (que é o mesmo que dizer "um inteiro") sentiu falta da palavra do outro, que não vinha, que não vinha.
Lembrou-se então, súbito, da raposa e do príncipe: "venha sempre todos os dias no mesmo horário", ela disse, "pois assim cria-se a expectativa", ela disse, "e com o tempo, virá... a saudade".

segunda-feira, 4 de fevereiro de 2008

Compreensão (Resposta à Amira)

Quanto mais gostava de alguém, menos era ele mesmo.
Quanto menos gostava, mais se revelava.
Os primeiros, por isso, o abandonavam.
Os segundos, por isso, se encantavam.
Pelos primeiros, morreria.
Dos segundos, sempre fugira.
E agora, você pode encontrá-lo numa esquina ou dentro de seu quarto lamentando todos os amores que amara e deram errado e todos os não-amores que o amaram e que ele rejeitara sumariamente.
Na percepção de que, sendo si mesmo, algum amor lhe é devotado, sente-se bem. Mas sente-se mal pelo medo que tem de ser ele mesmo quando mais lhe é necessário, diante de quem ele gosta. E pensa: "Se sei que sendo eu, conquisto... Se sei que não sendo eu, gero repulsa... Percebo que meu projeto de não ser sozinho no mundo, em verdade, é apenas a máscara do meu projeto de ser fracassado no amor, porque mesmo sabendo o caminho (que é ser eu mesmo diante de quem gosto), insisto em não seguí-lo e há aí, então, uma escolha deliberada pela solidão e pelo sofrimento amoroso".

A Imagem Morta

Tendo metido desperançadamente seu pau na buceta úmida da mulher, pegara a espingarda no velho armário embutido no alto da parede suja do corredor, escurecido pelas sombras de um final de tarde, trancara-se no banheiro e disparara a arma enfurrajada pelo tempo.
Aquela espingarda havia pertencido ao bisavô, conhecido caçador de lebres no interior, de onde a família toda viera. Depois passara para o pai de seu pai, e para seu pai: sem serventia, restou à arma ficar guardada e escondida, como uma lembrança vergonhosa, nos armários das casas porque passara. Agora pertencia a Ernesto e soltava fumaça pela ponta do cano duplo, quente e cheirando a pólvora.
As paredes do corredor, que iam dar no banheiro, ficaram alvoroçadas com o barulho: o que havia acontecido ali ainda não sabiam e nem lhes seria permitido saber.
A moça no quarto ainda dormir e não fora, surpreendentemente, acordada pelo barulho no cômodo ao lado. Havia muito que não se entragava a um homem e o labor fastidioso lhe exaurira. Dormir lhe acenava após sexo infindo como uma possibilidade melhor do que a de conversar com Ernesto.
A companhia do homem lhe era bastante agradável e ainda há uma hora, teria preferido continuar no restaurante a ir para a cama, mas algumas opções não nos são apresentadas quando mais precisamos delas e teve de levantar-se quando Ernesto retornou do caixa com um sorriso leve nos lábios.
- Quer alguma coisa antes de voltarmos para casa? - ele perguntou.
- Não. - respondeu secamente. Teria preferido ficar no restaurante, mas agora já era tarde.
Ernesto, ao chegar em casa, abriu as cortinas da sala para deixar a luz alaranjada do fim de tarde iluminar os cômodos e encaminhou-se para o quarto. Helena seguiu-o, um pouco ansiosa, um pouco sem vontade. Sabia o fim que aqueles passos teriam.
Não passara muito tempo até que sentisse as mãos áridas dele tocando-lhe a bunda e o vão entre as pernas. Ernesto nunca tivera muito jeito para o sexo. Era-lhe difícil respeitar a feminilidade de uma mulher e, por isso, dificilmente conseguia fazer com que suas parceiras gozassem.
Sua sorte é que nascera brasileiro: esse lugar de mulheres sexuadas, mas dissimuladas no jeito. Nunca tivera dificuldade em conseguir levá-las para cama, entretando nunca conseguira delas o que lhe seria útil: uma verdade.
Sentindo a mão pesada de Ernesto em sua buceta, Helena só conseguiu tirar de si um gemido, menos de prazer que de dor. E logo que olhou para baixo, viu que Ernesto se sentava na beirada da cama de casal, seu pau rígido debaixo das calças; aquele pau conhecido de Helena, que mesmo ruim no sexo ela acabava cedendo aos encantos e necessidades do antigo parceiro de bar e ideologia política.
Quando ligara para Helena aquela manhã, Ernesto tinha uma idéia em mente. Ainda jovem prometera a si que, caso não tivesse constituído família até os 47 anos de idade, e constatando então sua inutilidade para o mundo, não apenas pela falta da paternidade ou conjugalidade, mas também por qualquer outro motivo que lhe viesse à lume nesta idade, riscaria-se da vida sumariamente.
No entanto, tinha seus orgulhos. Aos 47, muito eles haviam crescido e, fiel à sua promessa, viu-se, como dizem, entre a cruz e a espada, ou entre o fracasso e a possibilidade de reparação. Muito difícil era para ele extinguir-se do mundo sem haver, mais uma vez, tentado.
Entre as frases trocadas com Helena pelo telefone, perguntas feitas e respondidas, deu-se o convite para o restaurante. Helena entrevira na fala o sexo ao final da tarde. Com Ernesto, ela sabia, as coisas eram mesmo assim: os desejos ficavam subtraçados no discurso; tinha-se que adivinhá-los caso não se quisesse correr o risco de surpresas. Ainda assim, com a promessa pouco convidativa de uma trepada até o começo da noite, aceitou o convite e foi almoçar com o antigo amigo.
Tão logo pode, Ernesto pediu a conta ao garçom. Queria logo terminar com tudo aquilo. Queria logo a consciência de que, ao menos antes do fim, tentara verdadeiramente mais uma vez, ao menso, procriar.
Em casa, já no quarto, foi logo esfregando a mão rude na bunda de Helena e, deixando-a correr pelos quadris largos da mulher, apalpou aquela buceta já conhecida, mesmo por cima da calça, esperando que já estivesse molhada. Não gostava de enrolações. O sexo era algo a ser consumado rapidamente, talvez por culpa cristã, talvez por uma necessidade gritante. Ernesto confiava boa parte de seus atrativos sexuais ao poder de sua mão de homem.
Helena abriu o fecho de sua calça e deixou-se cair na cama. Ernesto despira-a rapidamente. De pé, despiu-se de súbito e deixou seu corpo cair sobre o da mulher. Sentiu seu pau roçando a carne levemente úmida de Helena. Ela, com os olhos fechados, pensava em Fernando, sua paixão de adolescência, quando sentiu a carne abrutalhada dele aferroando-lhe fundo o ventre, e agarrou-se à imagem de Fernando como um moribundo à vida, ao passo que Ernesto, o verdadeiro moribundo, percebeu o ridículo de seu esforçoe decidiu puxar seu pau para fora do corpo de Helena, ao que disse:
- Ah! Helenita, me desculpe... Não posso... - e deixou sua cabeça cair no colo da mulher.
Sem saber o que fazer, Helena agarrou-lhe os cabelos e começou a acaricíá-lo, em parte satisfeita pelo fim, em parte temerosa dos motivos que impediam Ernesto de ter um orgasmo: seria ela? Poderia continuar uma conversa, mas talvez fosse melhor não dizer nada.
Pouco tempo seria necessário para que Helena adormecesse e não acordasse com o barulho alto no banheiro ao lado do quarto, nem como o barulho sussurrante das paredes do corredor, curiosas por saber o que estava acontecendo.
Havendo pegado a espingarda no armário do corredor, Ernesto trancara-se no banheiro. Cinco segundos fora o tempo necessário para que percebesse duas qualidades que não sabia ter: era um grande covarde e um esperançoso, se é que esperança e covardia não são frutos de uma mesma temerosidade.
Levantou os olhos, as mãos trêmulas de medo, a morte sentada na banheira a espiá-lo de longe, mas já entediada e certa de que perdia tempo como quase sempre com os suicidas. Ernesto pode ver, então, sua imagem refletida no espelho por sobre a pia e, segurando firmemente a arma de herança, disparou um tiro contra a imagem de um Ernesto antigo, que acabara de morrer ali, mas sem que a morte pudesse tirar proveito.
Já não havia espelhos para que ele pudesse ver a imagem de um novo Ernesto. Mas havia ouvidos e lábios e ainda um filete de voz, trêmula e fraca por tudo o que ele acabara de viver naquele pequeno cômodo. Com este ouvido e esta voz fraquejante, Ernesto abrira a porta do banheiro, voltara cambaleante para o quarto e, sacudindo Helena para que ela acordasse, disse-lhe:
- Helena, me ensine a amar.
Ela puxou-o para si e começou a acariciá-lo novamente e morrera 15 anos depois sem saber que fora ela quem dera aquele que ainda veio a ser seu marido, Ernesto, uma chance de viver novamente.

quinta-feira, 31 de janeiro de 2008

A Descoberta de Ricardo

Saber o que se quer lhe era tão necessário quanto inútil. De nunca lhe adiantaria saber o que queria caso continuasse a lhe faltar a quantidade exata de amor-próprio para levar o desejo adiante, pois mesmo quando descobria suas reais vontades, calava-se e aceitava sujeitar-se ao desejo do outro.

Fora um encontro casual. Algumas linhas trocadas, alguns telefonemas, o almoço cancelado numa tarde de domingo e, então, o encontro em frente ao cinema de um dos shoppings da cidade.

Pela foto as pessoas são sempre diferentes, pensou ele. Não que estivesse desapontado, mas, sim, pelas fotos as pessoas eram mesmo diferentes. O outro, por exemplo, parecia mais alto, maior, pele lisa e perfeita. No entanto, não era tão alto, nem tão grande e tinha uma cicatriz do lado esquerdo do rosto, na parte mais baixa da bochecha.

Isso não o incomodara. Incomodara, contudo, a frase "Pois bem, agora já nos conhecemos. Fique à vontade para fazer o que quiser" dita pelo outro logo no começo da conversa. Então era só isso?, ele pensava, então todas as linhas trocadas, todos os telefonemas e o almoço cancelado transmutaram-se em um breve olhar, alguns passos pelo shopping e uma despedida? Não tinha bem claro o que queria, talvez pelo outro não ser uma foto, talvez pelo foto não ser o outro.

Em verdade, as fotos e as pessoas são sempre a mesma coisa. O que as diferencia é a história que criamos para as fotos, ao passo que as pessoas têm suas próprias histórias. Não tenho acabado ali o encontro, já juntos e conversado por algumas horas, Ricardo, nosso rapaz, já não via no outro a foto e nem buscava vê-la. Via no outro o outro. E o outro passou a ser não uma foto dessemelhante a ele mesmo, mas todo um álbum, todo um livro, toda uma vida que se abria diante dos olhos de Ricardo e entrava por seus ouvidos... Se a vida de alguém fosse matéria gastronômica, diria mesmo que queria comer a vida do rapaz. Se fosse um souvenir, gostaria de trancá-la em um baú para poder olhar sempre que quisesse.

Não podendo comer nem trancafiar a vida diante de si, beijou-a e amou-a de tal modo que saiu do encontro com uma parte dela em si, mas nem se deu conta.

Falaram-se todos os dias até o próximo encontro. E o mesmo até o próximo, em que dormiram juntos. Foi esta a primeira - e única - vez em que Ricardo pode sentir o outro dentro de si. A alienação que a carne do outro em seu corpo lhe causava, apenas contribuía para que Ricardo se perdesse de si, esquecendo-se e distanciando-se de suas reais intenções.

Mas intenções, desejos, vontades, essas coisas do muito querer retornam e sempre com mais e maior intensidade. Se se falavam todos os dias, após o sexo, o outro não mais ligou. Nessas ocasiões, Ricardo passava por estágios bem simples no modo - já que sempre ele parecia triste - e complexos no conteúdo - que era sempre remoído internamente e nunca externalizado em sua completude na conversa com os mais próximos.

Primeiro, era a fase da compreensão - ele deve estar cansado, ele deve estar dormindo, ele não deve ter recebido meu recado. Depois, vinha a fase do sentir-se rejeitado - ele não quer responder, ele não quis ligar, ele não gostou do que houve e não quer fazer contato. Por fim, a fase da raiva, disfarçada em desistência - se ele não quer, não importa, pois não vejo porque agarrar-me a uma possibilidade enquanto outras várias fazem tocar meu telefone.

Até que quem fez tocar o telefone foi o outro: "Está em casa?", ele perguntou. "Sim", Ricardo respondeu imediatamente, o coração exultante, a raiva esvaída em felicidade.

Mais uma vez, dormiram juntos. Nesta ocasião, porém, o inesperado se deu. Das outras vezes em que estivera na casa do outro, houve muita conversa antes do contato, sempre estabelecido por Ricardo: um pequeno beijo, um toque leve nas costas, um abraço tímido na chegada. Desta vez, contudo, Ricardo decidiu não mover-se e esperou que nada acontecesse até que o outro o chamasse para o quarto. Durante a conversa, em geral, cada um sentava-se em uma poltrona e falavam, falavam, falavam, até que o convite para a cama era feito, como uma cerimônia religiosa, cheia de dogmas e passos previstos. Nesse dia, contudo, Ricardo sentou-se no sofá maior e, para sua surpresa, o outro deitou-se no mesmo sofá e pôs os pés em cima do colo de nosso rapaz, que, sem nada entender, começou a acariciar aquela companhia quente, agradável e inesperada.

Pela primeira vez, o convite para a cama não fora feito, mas aconteceu naturalmente, os dois levantando-se e concordo silenciosamente que era hora de deitarem-se um ao lado do outro.

O acaso tem suas artimanhas... E no dia seguinte, mais estranhezas se fizeram presentes, pois que o outro parecia incrivelmente mais próximo, falando coisas suaves. Nada demais, se pensado friamente, mas muitas coisa se compreendido a partir do desejo real e desconhecido que Ricardo alimentava.

Nos dias que se seguiram, pela primeira vez Ricardo ouviu o outro dizer: "Também tenho saudades de você", e sentiu tamanha felicidade que foi incapaz, por dias, de fazer o que mais gostava: escrever. É que para escrever, Ricardo necessitava de um estado tal de espírito que se assemelhava à melancolia, mas esta não lhe fez visita.

Não lhe fez visita até que a ausência do outro novamente o visitou. Nada fazia tocar o telefone de nosso rapaz, nem mesmo as mensagens que ele, em vão, enviava. Nenhuma era respondida. E nenhum contato fora feito.

E outra vez, os três estágios: a compreensão, o sentir-se rejeitado e a raiva disfarçada em desistência, até que o telefone tocou alto e fundo em Ricardo.

O rapaz dormia e acordou de sobressalto. Quem liga a esta hora de uma manhã de final de semana?, perguntou-se. E foi como se cada gota de chuva que caia do céu naquele dia parasse aos poucos de cair e preguiçosamente retornasse para a nuvem de qual se desprendera. E como se cada nuvem decidisse, malandramente retirar-se para que viesse o sol. E como se o sol, espertamente, acordasse os pássaros. E como se os passáros, celeremente, acordassem é saíssem pelo céu azul e cálido em canto belo, ágil e feliz.

- Alô? - disse Ricardo.
- E aí? - respondeu o outro do outro lado, como de costume.
- Oi! Nossa, que bom te ouvir. Que bom ouvir de você. Fico feliz que tenha feito contato!
- Mas eu sempre faço contato...
- Não foi isso que eu quis dizer...

Nessa hora, Ricardo esqueceu-se do que mais gostava: os subtextos, as entrelinhas. De fato, o outro sempre fazia contato: sempre que queria e, por isso, tinha a sensação de que era sempre. E Ricardo contentou-se com o "sempre" do outro, sem pensar no que era "sempre" para ele.

Aquela noite, dormiram abraçados mais uma vez. Não sem antes o outro dizer a Ricardo o que queria de fato.

- Estou em um momento muito tranquilo, ele disse. Busquei muito alguém ano passado, ele disse. Tem sido legal, ele disse - contou Ricardo para si mesmo algumas vezes no dia seguinte, e no seguinte e no outro, quando, sem aguentar a ausência do outro, ligou para dizer: "Aceito o seu tempo, aceito sua tranquilidade e compreendo seus medos. Também tem sido legal para mim."

Todavia, ao falar, Ricardo não ouvira a voz que gritava dentro dele. "Aceita?", ela gritava. "Compreende?", ela dizia insistentemente.

Nos dias que se seguiram, Ricardo tentara contato outras vezes, sem obter êxito. Quem obtivera o êxito esperado fora a tal voz insistente, que fez com que Ricardo entrasse em contato com aquilo que realmente queria e constatasse o quanto aceitara, nas últimas vezes em que conhecera alguém, os limites do outro, sem nunca impor os seus limites e suas vontades.

Não queria deixar de ver o outro, mas também não queria continuar oscilando entre a tristeza e a euforia, entre a solidão solitária e a solidão acompanhada. Não queria solidão. Queria mesmo era companhia. Além do mais, era mais só ficar só acompanhado do que só sozinho.

Até agora, Ricardo não sabe o que fazer. Pensa que talvez o ideal seja falar. Ligar para o outro, marcar um encontro, ter uma conversa sincera. No fundo, deseja que tudo se ajeite entre eles, mas agora sabe o que quer e sabe que o que mais deseja é que tudo se ajeite da melhor maneira para si mesmo.

quarta-feira, 30 de janeiro de 2008

Na farmácia

- Boa tarde!
- Boa tarde - respondeu o atendente. Posso ajudar?
- Sim... É que eu tô com dor....
O atendente já estava acostumado com estas coisas: trabalhar numa farmácia era quase como ser médico. Havia um tipo bem específico de clientes que chegava apenas falando seus sintomas a espera da indicação de um remédio milagroso para seus problemas.
- Você tem alguma receita médica?
- Não... Não fui ao médico ainda... Queria ver se o senhor pode me ajudar...
- Hum, fica difícil assim... Existem vários remédios para dor e...
- E cada remédio é para um tipo de dor específica?
- Você conhece de remédios?
- Não, mas o senhor deve conhecer, sempre trabalha com eles... De mais a mais, é mais velho...
- Quantos anos você tem, menino?
- 10. Mas faço 11 em pouco mais de um mês.
- Sim... E que dor sente?
- Ah, é uma dor assim: às vezes eu tô em casa com minha família toda. Fico na sala vendo tevê de manhã. Minha aula é só na parte da tarde. Aì sai minha mãe para o trabalho, sai meu pai para a empresa, sai vovó para a caminhada com as amigas, saem meus dois irmãos, porque a faculdade é cedo... Aí fico eu... E aí chega a dor.
- E onde é que você sente a dor?
- Hum, não tem bem lugar não. Eu falei com mamãe uma vez e ela disse que era uma dor "onipresente" e riu...
- Entendo. Sua mãe, eu acho, quis dizer que sua dor está em você todo...
- É, foi isso que eu disse pra ela. Que não tem lugar, que é uma dor assim bem completa. Parece que está no meu corpo todo e, se tento chegar nela com o meu pensamento, se tento me concentrar nela e descobrir onde ela está, ela some de onde está.
- Sei. Menino, isso é frescura, não é dor, não.
- O senhor sabe? O senhor sente também?
- Não, mas isso é bobeira. Agora deixa eu atender as outras pessoas... A senhora... Posso lhe ajudar? - disse o atendente olhando para uma senhora que acabara de entrar e olhava o stand de shampoos em promoção.
O menino, não satisfeito, seguiu o atendente com o olhar e, com um breve aceno de mão, chamou a atenção dele novamente.
- Ei! O senhor me desculpa... Mas o senhor ainda não me ajudou.
- Menino, tenho mais o que fazer. Sua dor é frescura. Violta pra casa que ela passa.
- O senhor já sentiu minha dor?
- Talvez já. Quando eu era criança eu tinha muita frescura também. Mas com a vida aprendi que não posso me dar a esses luxos.
- E doía?
- E frescura dói?
- Então a minha dor não é frescura... Porque se não doesse, eu não ia dizer que tenho dor, não é?
- Hum... Sim. Mas então, onde dói?
O menino ergueu os dois braços:
- Dói aqui - pousando a mão na cabeça -, mas dói mais aqui - e a outra mão foi para o peito.
- E pára, essa dor?
- Pára. Quando vou pra escola, passa. E à noite, em casa, também não sinto nada. Só dói de manhã...
- Menino, você tem amigos?
- Amigos?! Claro! Tem o Pedro, a gente joga futebol na rua de casa. Tem o Jonnatan, a gente brinca de carrinho no recreio. Tem a Clara... E o Carlos, e a Ana...
- Ok, ok... Você tem amigos. Mas, então, não entendo...
- O que o senhor não entende?
- É que eu pensei que você sofresse de uma coisa, mas já não sei...
- O senhor acha que sabe da dor que sinto?
- Já se sentiu sozinho?
- Hum, sozinho... Acho que já... Mas se sentir sozinho dói?
- Dói... Veja bem, se tem gente em casa, você não sente nada... Se não tem, você sente. E a dor é bem assim, pelo corpo todo, mas sem ser em lugar nenhum...
- Sim.
- E você tem amigos... E quando está com eles, dói?
- Não, não dói.
- Viu?
- Então, moço, o senhor me dá dois comprimidos para a solidão?

terça-feira, 22 de janeiro de 2008

I heard love is blind (Amy Winehouse)

I couldn't resist him
His eyes were like yours
His hair was exactly the shade of brown
He's just not as tall, but I couldn't tell
It was dark and I was lying down

You are everything - he means nothing to me
I can't even remember his name
Why're you so upset?
Baby, you weren't there and I was thinking of you when I came

What do you expect?
You left me here alone;
I drank so much and needed to touch
Don't overreact - I pretended he was you
You wouldn't want me to be lonely

How can I put it so you understand?
I didn't let him hold my hand
But he looked like you;
I guess he looked like you
No he wasn't you

But you can still trust me, this ain't infidelity
It's not cheating; you were on my mind
Yes he looked like you
But I heard love is blind...
(Amy Winehouse - I heard love is blind)

domingo, 20 de janeiro de 2008

Da Velhinha que se foi

Ela já ganhou placa de homenagem da Prefeitura da cidade.
Ela andava devargarzinho por conta da idade.
Estava em todos os almoços que minha avó fazia em comemoração de qualquer coisa. E nessas ocasiões eu sempre desconfiava que, apesar do carinho que ela me devotava, ela não sabia meu nome.
As filhas se revezavam para dormir na casa dela, que velhinha precisa de companhia.
Os filhos já brigaram com ela por conta de herança.
AH! Ela já morou na roça, numa época em que banheiro e luz eram luxos a que ela não podia se permitir.
Ia a todos os comícios da cidade e era toda politizada.
Amava o prefeito atual.
Tinha um rostinho velhinho e enrugado, bem enrugado, e aquela pele que parece papel. E cabelo grisalho e os olhinhos caídos.
Quando meu bisavô morreu, ela se mudou de casa. Nessa época, me lembro, eu era pequeno ainda e minha avó me abraçou chorando e dizia no meu ouvido: "Meu filho, eu não tenho mais pai".
Não estou triste, mas tenho medo de que amanhã minha avó me abrace e diga de novo no meu ouvido: "Meu filho, eu não tenho mais mãe".

quinta-feira, 17 de janeiro de 2008

O Eterno Filme

Tem horas que dá vontade de cortar.
- Não, Cláudio, não vi a porra do filme!
Acho que ele não ia entender, a princípio. Talvez fique chateado. Detesto causar chateação. Mas, sabe? Odeio essas pessoas que a gente conversa uma vez na vida e a pessoa passa o resto dos dias retomando aquele mesmo velho assunto para puxar uma conversa diferente! Erro a gente comete, né? Então...
Uma vez falei para Lídia: "Amiga, tem gente que é melhor nem começar...".
Era papo de café, sabe? Papo de corredor do trabalho. Estavam ele e mais duas pessoas. E eu adoro cinema. Não resisto a um papo sobre filme. E entrei na conversa...
E agora fica ele com esse ar de cachorro pidão sempre perguntando: "E aí, já assistiu?".
Não assisti e nem vou assistir! Imagina! E ter papo com ele?
Fico pensando... Se eu assistisse, como seria?
- Ah sim, vi...
- E aí?
- Uma bosta!
Será que o papo ia acabar? Eu acho mesmo que ele ia passar a perguntar: "Mas então você não gostou mesmo do filme?" e eu ia sempre responder com um sorriso e um aceno negativo com a cabeça.
Meu pai dizia sempre: "Filha, não fale com gente do trabalho nada além de coisas sobre trabalho", mas é difícil a gente entender o que dizem os mais velhos até que a gente vive o que eles dizem.
O pior é que até parece gente boa o Cláudio, sabe? Eu até que gostaria de me aproximar. Acho que foi por isso que tentei aquele dia, mas agora não dá. Entre nós tem o tal filme nunca assistido e sempre comentado. É como uma grande barreira o filme.
Foi o mesmo com o Ernesto. Se bem que com ele ainda rolaram outros papos e uma saídas no final de semana. Ah! Valeu a pena, sim... Por sorte ele foi transferido de setor.
Além do Cláudio tem outros também, né? Empresa grande é mesmo um problema. Tem a tal da Márcia, que fica passando sempre e sorrindo falso e fazendo comentários elogiosos sobre minha roupa. Mas isso eu já aprendi com a Lídia: apenas sorrio de volta com o mesmo sorriso falso e deixo ela falar. Por vezes, respondo aqui e ali algum elogio com outro, mais falso ainda.
Queria saber por um basta nessas coisas... Um dia eu digo:
- Porra, Cláudio! Mas que caralho! Não reparou que eu não quero ver a porra do tal filme?!

O encontro de Rebeca - parte 2

Queridos, o conto "O encontro de Rebeca" é um só... enfim, só estou postando em partes porque está ficando grande e demorado... Ela resiste em morrer... rs
Ah sim. Esta não é a versão final... A parte 1 já sofreu alguns acréscimos. Acho que nenhum corte... Mas acréscimos que ajudam a compreender os fatos. Ao final do conto, posto de uma vez só ele todo.

O Encontro de Rebeca (continuação)

Por mais dois anos, as portas e as janelas da residência dos Palhares permaneceriam fechadas, até o dia em que seriam abertas para que Rebeca encontrasse a morte e a coroação como Santa. O corpo de Rebeca, enclausurado, embranquecia dia após dias e ganhava um tom mais solitário ainda do que tinha quando mais moça: era azulado pelas veias aparentes. Sorte tinha ela, contudo, pois que muito havia para que tivesse enlouquecido, contudo a ausência de contato com a brisa marítima lhe evitava tal mal. Além do mais, não podemos dizer se loucura seria um mal que Rebeca pudesse pegar. Desde que Dr. Parmênides lhe anunciara a doença mortal que nunca mais adoecera de outros males. Quando viva, sua mãe costumava mesmo brincar: "Minha filha, minha vida, que doenã estranha essa: não gosta de dia e nem de companhia! Que doença é coisa ruim: quando vem, vem sempre em conjunto!", e esse não era o caso.

Se pudessem escolher, dentre tudo o que há no vilarejo, aquilo que mais pesa sobre suas vidas, certamente os habitantes escolheriam o mar. O mar ruidoso. O mar gelado. O mar bravio. O mar robusto. Ele era a vida daquele lugar e o único faixo de luz na mente escurecida de todos os moradores. Falar no mar era falar do que lhes mantinha vivos e por isso sentiam-se iluminados neste momento. Clarões de lucidez podiam ser vistos emanando de cada pessoa ao falar daquela entidade tão querida, o Sr. Mar. Tão querida e tão temida, como tudo o que é verdadeiramente amado. O amor, coisa tão mais complexa que o mar, traz sempre consigo pesos vários que, a princípio não lhe competem. Quanto mais amavam o mar, mais o temiam e mais o respeitavam: raras eram as vezes em que se via algum corpo mergulhando entre as ondas e a espuma salina, raros eram os pescadores que aventuravam-se com seus barcos nas águas revoltas, raras eram as pessoas que, como Florinda Palhares, se arremessavam contra as rochas, pois que era desreipeito ao mar fazê-lo um assassino.

Havia um acordo tácito entre habitantes e o grande rei: ele lhes fornecia tudo quanto precisassem, contanto mantivessem o respeito. Ninguém sofria: nem o mar, nem eles. Os peixes eram ofertados em abundância, assim como as danças à beira do praia todas as quintas-feiras dos meses de agosto, quando o mar dali fazia bodas. As conchas eram poucas na praia, mas todas as que haviam eram tão belas que permaneciam ali, intocadas, incapazes que eram os homens de recolhê-las diante de tão estonteante beleza. Ostras, camarões, lagostas, pérolas, corais, estrelas-do-mar, cavalos-marinhos: tudo isso o mar lhes oferecia em troca do respeito observado.

Nunca houve, como acreditavam os homens, nada no oceano além de peixes, e plantas e vidas marinhas comuns e conhecidas. Talvez uma ou outra espécie de peixe desconhecida, um novo tipo de alga, mas nunca coisas como monstros, sereias, lulas e polvos gigantes, deuses das fossas abissais. Além do comum e esperado, só havia no mar água. E era tão do mar a água como o eram as outras coisas, quiça mesmo mais, que não haveria mar sem ela. A água e o mar eram dois amigos tão próximos, que os habitantes da vila os confundiam em casamento dizendo: "Trouxe um pouco de água do mar". Mas a água não era de ninguém. Era apenas água e, se muito, poderiamos emendar: amiga do mar. Portanto não lhe cabia de modo algum um respeito cego ao acordo dos homens com o mar. Nada ela ofertava aos homens, apenas exigia deles o mesmo respeito que devotavam ao amigo, como se esta fosse uma obrigação de todos para com ela, que lhes permitia - e disso os homens sabiam - viver.

Para mim, é um labor imenso compreender tal amizade. Pois qual das gentes seria amiga de uma pessoa que só lhe faz empurrar contra os rochedos? O mar não hesitava em lançar a água contra os rochedos, fazendo-a voar pelos ares em forma de pequenas gotículas e retornar para sí e para a onda seguinte, e a seguinte, e a seguinte... E nesse vai e vem, parte da água se ia, subia, talvez, como já dito, por vontade própria das gotículas ou por força da evoparação - que é o que preferem crer os homens do vilarejo, tão fechados à magia da vida por terem mentes obtusas e escurecidas – virava a umidade incômoda que tomava as ruas do vilarejo todas as noites e que era barrada à porta das casas.

Labor imenso também é compreender porque os homens da vila tanto evitavam a mágica da vida e preferiam interpretações simples dos fatos cotidianos. A evaporação é um processo tão mais cor pastel do que a crença na cor da vida das gotículas e na vontade própria delas. E é difícil de compreender esta opção pois à vida, é a mágica que dá cor. A mágica e os sentimentos e se esta história se deu é justamente porque houve um dia uma noite com a cor da solidão: o azul pálido, a mesma cor de Rebeca e das gotas reunidas no grande mar, e das estrelas brilhando no negro céu, e da lua em certas noites de frio quando os homens cruzam as ruas e cortam o vento cortante. Se há esta história, é porque um dia houve mágica apesar das mentes obscuras não terem querido vê-la. Mas depois de toda a cor e do ruído que houve aquela noite, as mentes se abriram e viram e Rebeca, como sabemos, virou Santa.

Talvez pela mente estreita dos homens, com o tempo a água do mar começou a sentir-se desacredita deles. Não era agradável vê-los falando dela sempre em relação ao mar. Além do mais, não haveria mar sem ela! Pensou em isolar-se da humanidade, mas isso significaria muitas perdas. Foi quando decidiu, num ímpeto, a adentrar as ruas da cidade todas as noites misturada ao vento frio, fazendo-se notar pelos transeuntes.

No começo, obteve o êxito esperado. Todos aqueles que saíam as ruas à noite falavam dela. Dela tão unicamente. Não misturada ao mar, vinha nas conversas: “Mas que neblina enjoada”, ouvir uma vez um jovem rapaz falando. Era Pedro Villasboas. E tanto fez persegui-lo que o rapaz, tão logo pode, mudou-se para o interior, onde a brisa enregelante não o pode perseguir. Sem saber, a água estragou os sonhos de uma jovem menina de doze anos, bastante adoentada, que era apaixonada pelo rapaz mesmo sem nunca ter sido notada por ele. Menos ainda sabia a água que esta menina seria, no futuro, o seu destino.

terça-feira, 15 de janeiro de 2008

O encontro de Rebeca - parte 1

Amigos,
Ontem comecei um novo conto. Ele parece ser demorado. Quando tento continuá-lo, acabo tendo mais idéias e a história se prolonga. Mas não quero correr o risco de pará-la, ainda mais porque tem me sido muito cara. É a história de Rebeca e seu encontro. Assim, para ajudarem-me com idéias e opiniões e para que eu me comprometa a terminar o conto, posto aqui o que já tenho escrito.
Espero que gostem.
O Encontro de Rebeca
A solidão dele fez companhia à solidão dela e quando as duas solidões se encontraram foi tão engrandecedor que mesmo a noite ganhou nova cor e novo cheiro. É que duas solidões, quando se encontram, reconhecem-se uma na outra e o que daí pode nascer é incognoscível, mas sempre belo. Seja a amargura ou o carinho, é sempre belo quando dois corações solitários se esbarram numa noite bolorenta e decidem ficar juntos, um ao lado do outro, até que o dia amanheça e a solidão de cada um possa novamente ser travestida em tons mais alegres que o pálido azul. Pois que a solidão é azul, disso não tenho dúvidas.
A rua estava escura naquele momento. Poucos eram os que se atreviam a desafiar o vento frio e cortante. Cortar o vento cortante: eis o verdadeiro heroísmo desta noite. A umidade do inverno na vila era bastante típica. O mar, sempre ruidoso, lançava suas águas pelo ar ao jogar-se robusto contra as rochas e, quer seja por vontade própria das gotas (que é no que creio) ou por motivos menos líricos e mais sérios como a evaporação, este mar transformado umedecia cada ruela, cada beco escuro, cada parede de cada casa.
A luz, dependurada naquele poste bossal e esguio, já estava cansada do esforço. Por mais que tentasse, seria impossível iluminar aquelas mentes oblíquas e enegrecidas. E lutar contra o frio era tarefa árdua inclusive para ela. Em breve, desistiria do labor e arrebentaria-se num lindo clarão avermelhado e a escuridão seria, então, total, até que os homens da administração pública fossem avisados por algum transeunte e colocassem nova lâmpada no lugar, para o mesmo trabalho ingrato.
Ser luz era esforçar-se por iluminar as mentes obscuras dos transeuntes heróicos, dos ousados cortadores do vento enregelante. Apenas mentes oblíquas como estas ousariam sair de casa, onde poderiam esconder-se da umidade do mar. As casas da vila eram bem preparadas para fazer com que a umidade parasse na porta de entrada e na parede da frente. Por mais que batesse, por mais que insistisse,a umidade quedava-se do lado de fora e o interior de cada casa era sempre quente e seco, o ar agradável ao barulho crepitante da lenha na lareira e do borbulhar da sopa na caldeira dependurada. A sopa requentada de ontem, e anteontem, e do dia anterior a todos os dias.
Mas nessa vila escura, de heróis obtusos nas ruas e lâmpadas cansadas de iluminar, nesse lugarejo próximo ao mar rumorejante e em que a umidade era barrada em todas as casas, havia uma única casa em que a umidade fora permitida fazer morada em uma única noite azulada. Depois desse dia, o mar parou de chocar-se contra as rochas, as luzes iluminaram mesmo o dia e as mentes, todas elas, tornaram-se capazes de enxergar e enxergaram. Foi assim o dia em que as solidões se acharam e dormiram abraçadas.
Curvada sobre o próprio corpo, D. Argêntea remexia o caldo groso da sopa na lareira quando ouviu o ruído pela primeira vez. Era um som estranho, como nunca nenhum som havia sido na vila. Era apenas um ruído, mas invadiu-lhe os poros, e o sangue, e as células, e tomou-a de tal modo que deixou cair no chão seu corpo velho e cansado e gargalhou até o amanhecer. Mesmo velho e cansado, o corpo da D. Argêntea, caído no chão não sentiu dores, não fraturou-se. A bem da verdade, remoçou um quarto de século em virtude do tombo que sacudiu-lhe as poeiras.
Sr. Crisântemo já estava dormindo na cama de viúvo. Sonhava novamente com a falecida esposa, D. Perpétua, tão querida. Não foi capaz de ouvir nenhum dos ruídos, mas acordou no dia seguinte sem compreender como o sonho triste, fúnebre e recorrente, através do qual revia todas as noites os últimos momentos ao lado do corpo gelado e endurecido de Perpétua, tornou-se um sonho dionisíaco em que ambos partiam para Galápagos para uma nova lua de mel. Mais espantoso ainda foi notar que seu corpo, já há muito descansado, voltara a dar sinais da antiga virilidade e acordara com a genitália intumescida pelo sonho envolvente e molhado.
Foi entre a casa de Sr. Crisântemo e D. Argêntea que a solidão de Rebeca e do homem se encontraram e dormiram abraçadas e fizeram um ruído que mudou o pequeno mundo da vila. Ao acordar, cada habitante, criança ou idoso, tinha sua história de uma noite inesquecível para contar. Era tão inesquecível a noite que o corpo de Rebeca, desfalecido no chão, só seria encontrado três meses depois, ainda intacto e sem qualquer sinais de putrefação, tendo sido levado para a igrejinha local e velado por sete dias e sete noites, quando foi enterrado com toda a pompa que uma santa merece. Mesmo sem saber o que havia acontecido ao certo, mesmo havendo olvidado o corpo da jovem Rebeca por tanto tempo, as mentes oblíquas dos habitantes agora enxergavam e eles sabiam que tudo o que se sucedera devia-se a algo que aquela jovem havia feito numa noite fria e bolorenta, há três meses atrás.
O corpo do homem nunca fora encontrado. Não que tenha sido também ignorado por meses e sim porque não se tratava de homem. Se bem que, qualquer que o visse diria tratar-se de um rapaz bastante bem apessoado e muito distinto. Rebeca, se viva, diria exatamente estas palavras: "Era ele tudo por que sempre esperei", sem saber que ele nunca esperara por ela e que, se se encontraram aquela noite, não foi por nada mais que o acaso.
A umidade do mar nunca havia se dado a esses luxos de buscar entreter-se com os homens. Mas isso num tempo em que os homens preocupavam-se em agasalhar-se devidamente temerosos de que ela, a umidade, pudesse fazer-lhes algum mal. Assim, era notada, sentia-se presente. No seu contato com os homens, tinha o seu ser de umidade reafirmado a cada novo encontro. Até o dia em que o sol amareleceu e as mentes se enegreceram e os homens da vila começaram a fazer-se heróis da noite e ousavam sair à rua já bem tarde, cortando o vento. A partir desse dia, a umidade começou a não passar de parte de todo aquele cenário, acostumados que estavam os homens a ela.
Rebeca era moça frágil. No dia em que lhe descera pela primeira vez o sangue, sua mãe lhe dissera que não deveria sequer pensar em engravidar de homem. E se quiser ter filhos, pensou Rebeca. Se tiver que engravidar, que seja do espírito santo, respondeu a mãe antes mesmo que a jovem fosse capaz de lhe fazer a pergunta. O corpo esguio, a pele alva. As veias podiam ser notadas em cada canto do corpo. Seu corpo, de onde eu sempre o via, me parecia a solidão, um azul pálido. Este azul conheceu todos os males de pele que a vila já travara conhecimento: acne, angiomas, brotoeja, sarampo, rubéola, catapora, dermatite e até mesmo um pequeno carcinoma que, como todas as outras doenças, desaparecera sem deixar rastro.
Do mesmo modo, sofrera de males do coração, do fígado, pulmão, pâncreas, rins, pernas, braços, cabeça, estômago e de qualquer outra parte do corpo a que um mal possa acometer. Curou-se sempre com a ajuda das ervas de D. Neguinha, a benzedeira da vila, e com as orações de sua mãe, falecida quatro anos antes deste dia memorável em que o mundo da vila mudou.
A constituição frágil de Rebeca fora também a culpada pela paixão fulminante por que se vira tomada quando viu Pedro Villasboas pela primeira vez, sem saber que nunca, nem sequer um só dia de sua vida, seria notada pelo rapaz. Nem por ele, nem por qualquer outro, a despeito de seus contornos suaves, seus seios já em crescimento, dos olhos verde-água, dos cabelos castanhos escorrendo-lhe pelos ombros e pelas costas como água de cachoeira. Sobre Rebeca, pendia a solidão como sina única. Não fora notada pelo jovem Villasboas nem quando, menos por descuido do que por vontade própria, deixou-o ver aquilo que tinha de mais precioso, sua mãe lhe dissera: as coxas bem arrematadas de mulher.
Passou por toda a adolescência à espera de seu príncipe encantado, que poderia bem ser Pedro ou qualquer outro. O príncipe esperado lhe chegou às avessas em seu aniversário de quinze anos: num cavalo negro, vestindo branco e trazendo-lhe uma má notícia. Era Dr. Parmênides, o médico da vila. Viera visitá-la, como de costume, em virtude da já sabida fragilidade da moça, e por fim disse-lhe: "Pequenita, me perdoe! Não sou dado a esconder os males dos bons. Conheces bem alguns males. Já os tivera bastante. Mas este de que vou te falar é novo para ti e requer cuidado...". E foi assim que soube que teria que passar o resto dos dias trancada em casa, com todas as janelas e portas bem fechadas, podendo expor-se apenas ao sol do meio dia e por não mais que meia hora, três vezes por semana. A desobediência da regra tinha uma punição bem certeira, clara e súbita: a morte.
Dr. Parmênides nunca mais retornaria àquela casa. A dor da notícia que tivera que dar a uma jovem tão bela e tão encantadora fizera-o definhar com o passar dos dias. Quinze dias depois, Rebeca ouviria da mãe as circunstâncias da morte do doutor e sair de casa vestida de preto para o velório. Nem sequer pensara neste momento que, por ser o médico o único morador do vilarejo que as visitava, não receberia nunca mais visita alguma, até o dia da noite azulada e úmida.
Desde o dia em que fora noticiada a doença de Rebeca, nenhum habitante da vila pode encantar-se com a beleza da menina e a nenhum rapazote fora dada a benção de poder apaixonar-se por ela. Trancada em sua casa, ela passava os dias a ouvir as história lá de fora trazidas pela mãe todos os dias após sua ida ao mercado de peixes e a arrumar casta e lentamente cada canto da casa, esfregando-o, polindo-o, perfumando-o, ainda com esperanças de que, um dia, seu salvador chegaria, bateria à porta da frente e a levaria de súbito, do mesmo modo como à morte ela estava prometida.
O tempo passou e Rebeca fez-se mulher. Aos vinte e cinco anos, ainda saía ao meio-dia, três vezes por semana pela porta da frente, o coração acelerado ao cruzar a soleira, com a expectativa de vislumbrar alguém, quem quer que fosse - homem, mulher ou criança. Mas o que Sr. Parmênides esquecera de falar a menina - ela mesma esquecera de lembrar-se dos costumes locais quando recebeu o peso de diagnóstico - foi que ao meio-dia não havia viv’alma na rua. As mentes obtusas dos habitantes da vila lembravam-nos todos que pontualmente às onze e trinta da manhã, quando o sol não estava a pino mas as sombras já eram minguantes, deveriam entrar para suas casas para refestelarem-se com o banquete que lhes era oferecido: o arroz, a alface e os peixes. E, tendo fartado-se, suas mentes lembravam-lhes ainda que era necessário dormir por alguns instantes, de tal modo que só às duas e quinze da tarde começava a haver novo movimento pelas vielas. Portanto, as idas ansiosas de Rebeca ao sol do meio-dia lhe eram nada mais que uma ânsia de felicidade, frustrada a cada nova tentativa.
Não demorou para que a mãe falecesse. A loucura era muito comum na vila. O mar em sua robustez contra as rochas, acreditava-se, era capaz de endoidecer qualquer ser vivente. Ao completar sessenta e cinco anos, Florinda Palhares quis sentir a robustez do mar em seu corpo e lançou-se do penhasco da região nordeste do vilarejo, aquele de onde podia-se avistar o farol. Imaginava que a luz intermitente do farol iluminaria sua queda gloriosa e a elevaria aos céus tão logo seu corpo senil sentisse a onda batendo contra si ao invés de contra as rochas. O farol não foi, porém, mais do que testemunha da loucura de Florinda, cujo corpo nunca fora encontrado.
Imagina-se a dor de Rebeca ao não conseguir controlar a mãe, que não era de sair à noite. Por mais que tivesse tentado, Florinda insistiu que queria apenas sentir a brisa úmida do mar para sentir-se renovando as energias para mais um ano de idas ao mercado e de notícias contadas à filha. E partiu para não mais voltar, deixando a filha numa espera sem fim.
Os habitantes do vilarejo notaram a ausência de Florinda, mas nunca passaram para perguntar o que havia. Os Palhares nunca foram de muitas amizades. Ao menos, por ser matéria desconhecida de Rebeca, não poderei dizer que a moça se arrependia de não ter amigos. Apesar da ânsia de ver gente, não sabia o que era a amizade.
Mais algum tempo se passou e suas noites e seus dias, e suas saídas breves à rua três vezes por semana, tornaram-se em uma dupla espera frustrada: a de ver quem quer que fosse e a de ver o corpo pequeno e fraco da mãe apontando em algum lugar que os olhos fossem capazes de alcançar.
Foi num dia de sol forte que Rebeca tomara uma decisão que mudaria sua vida medíocre. O esperado meio-dia chegara e, ao abrir a porta, sua vista embaçou-se com tanta claridade. Nenhuma nuvem havia no céu, nenhum pássaro também. O vapor subia das pedras que calçavam a ruela em que ficava o casebre da família Palhares, outrora uma das casas mais visadas do povoado por suas linhas arrojadas e pelas janelas cor de abóbora, desde já uma cor chamativa. Mal sabiam tais janelas que quedariam-se fechadas por bastantes anos, sendo abertas quatorze anos depois de terem sido cerradas em virtude do velório de Santa Rebeca. A partir desse dia, era-se possível ouvir o lamurio das dobradiças por terem que suportar o peso das abas de madeira colorida de laranja: as janelas nunca mais foram fechadas naquela casa findo o velório e iniciado um novo ciclo de glórias para a antiga residência dos Palhares, rebatizada pelos moradores transformados pelo acontecimento da noite azulada de “O Santuário da Solidão”.
Nesse dia de sol forte, Rebeca deixou seu coração extasiar-se com o que via. A claridade era tanta que invadiu-lhe o corpo e a cabeça e adentrou-lhe o ser de supetão. Sentiu-se viva! Viva como há muito não se sentia! Pela primeira vez em doze anos, pois agora ela já contava seus vinte e sete, sentiu a vida pulsar em seu pulso e quase esqueceu-se do que Dr. Parmênides lhe dissera há tempos: queria sair pelas ruas, queria falar com as gentes escondidas nas casas para a ciesta, queria correr pelos campos ao sul e ver o mar ao norte. O grande mar! Há tanto tempo não o via! Queria mergulhar o corpo jovem e enclausurado naquelas águas salgadas e geladas que, sabia ela, enregelavam as ruas da cidade com sua umidade sumarenta todas as noites. E queria poder sentir as noites, ver as noites, ela cuja vida era já uma noite só.
Súbito, ergueu a barra da saia com as duas mãos, uma de cada lado da cintura, recuou alguns passos e deixou o coração selvagem cruzar a soleira da porta. Nesse exato instante, o céu se fechou em nuvens e grossas gotas começaram a cair por sobre os cabelos de Rebeca. Não compreendendo o que se passara, ela olhava para o céu com ar inquisidor. De onde vieram as nuvens? De onde veio a chuva? Era o céu que se fechava para ela. Era o sol que, como todos, não queria vê-la. Foi neste dia de sol e chuva repetina, de um frustrada ânsia por felicidade abandonada e rapidamente readquirida, que tomou uma decisão: mesmo podendo sair a cada três dias por meia hora, mesmo sendo permitido a ela ver o sol e o mundo por alguns instantes, ficaria em casa para sempre. Foi neste dia em que Rebeca encontrou e aceitou - de uma só vez - a solidão como seu único destino.