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segunda-feira, 20 de agosto de 2007

A Mensagem - Clarice Lispector

A princípio, quando a moça disse que sentia angústia, o rapaz se surpreendeu tanto que corou e mudou rapidamente de assunto para disfarçar o aceleramento do coração.
Mas há muito tempo - desde que era jovem – ele passara afoitamente do simplismo infantil de falar dos acontecimentos em termo de "coincidência" . Ou melhor - evoluindo muito e não acreditando nunca mais - ele considerava a expressão "coincidência" um novo truque de palavras e um renovado ludíbrio.
Assim, engolida emocionadamente a alegria involuntária que a verdadeiramente espantosa coincidência dela também sentir angústia lhe provocara - ele se viu falando com ela na sua própria angústia, e logo com uma moça! Ele que de coração de mulher só recebera o beijo de mãe.
Viu-se conversando com ela, escondendo com secura o maravilhamento de enfim falar sobre coisas que realmente importavam; e logo com uma moça! Conversavam também sobre livros, mal podiam esconder a urgência que tinham de pôr em dia tudo em que nunca antes haviam falado. Mesmo assim, jamais certas palavras eram pronunciadas entre ambos. Dessa vez não porque a expressão fosse mais uma armadilha de que os outros dispõem para enganar os moços. Mas por vergonha. Porque nem tudo ele teria coragem de dizer, mesmo que ela, por sentir angústia, fosse pessoa de confiança. Nem em missão ele falaria jamais, embora essa expressão tão perfeita, que ele por assim dizer criara, lhe ardesse na boca, ansiosa por ser dita.
Naturalmente, o fato dela também sofrer simplificara o modo de se tratar uma moça, conferindo-lhe um caráter masculino. Ele passou a tratá-la como camarada.
Ela mesma também passou a ostentar com modéstia aureolada a própria angústia, como um novo sexo. Híbridos - ainda sem terem escolhido um modo pessoal de andar, e sem terem ainda uma caligrafia definitiva, cada dia a copiarem os pontos de aula com letra diferente - híbridos eles se procuravam, mal disfarçava a gravidade. Uma vez ou outra, ele ainda sentia aquela incrédula aceitação da coincidência: ele, tão original, ter encontrado alguém que falava a sua língua! Aos poucos compactuaram. Bastava ela dizer, como numa senha, "passei ontem uma tarde ruim", e ele sabia com austeridade que ela sofria como ele sofria. Havia tristeza, orgulho e audácia entre ambos.
Até que também a palavra angústia foi secando, mostrando como a linguagem falada mentia. (Eles queriam um dia escrever. )A palavra angústia passou a tomar aquele tom que os outros usavam, e passou a ser um motivo de leve hostilidade entre ambos. Quando ele sofria, achava uma gafe ela falar de angústia. "Eu já superei esta palavra", ele sempre superava tudo antes dela, só depois que a moça o alcançava.
E aos poucos ela se cansou de ser aos olhos dele a única mulher angustiada. Apesar disso lhe conferir um caráter intelectual, ela também era alerta a essa espécie de equívocos. Pois ambos queriam, acima de tudo, ser autênticos. Ela, por exemplo, não queria erros nem mesmo ao seu favor, queria a verdade, por pior que fosse. Aliás, às vezes tanto melhor se fosse "por pior que fosse". Sobretudo a moça já começara a não sentir prazer condecorada com o título de homem ao menor sinal que apresentava de ... de ser uma pessoa. Ao mesmo tempo que isso a lisonjeava, ofendia um pouco: era como se ele se surpreendesse de ela ser capaz, exatamente por não julgá-la capaz. Embora, se ambos não tomassem cuidado, o fato dela ser mulher poderia de súbito vir a tona. Eles tomavam cuidado.
Mas, naturalmente, havia a confusão, falta de possibilidade de explicação, e isso significava tempo que ia passando. Meses mesmo.
E apesar da honestidade entre ambos se tornar gradativamente mais intensa, como mãos que estão perto e não se dão, eles não podiam se impedir de se procurar. E isso porque - se na boca dos outros chama-los de "jovens" lhes era uma injúria - entre ambos "ser jovem" era o mútuo segredo, e a mesma desgraça irremediável. Eles não podiam deixar de se procurar porque, embora hostis - com o repúdio que seres de sexo diferente têm quando não se desejam -, embora hostis, eles acreditavam na sinceridade que cada um tinha, versus a grande mentira alheia. O coração ofendido de ambos não perdoava a maneira alheia. Eles eram sinceros. E, por não serem mesquinhos, passavam por cima do fato de ter muita facilidade para mentir - como se o que realmente importasse fosse apenas a sinceridade da imaginação. Assim continuaram a se procurar, vagamente orgulhosos de serem diferentes dos outros, tão diferentes a ponto de nem se amarem. Aqueles outros que nada faziam senão viver. Vagamente conscientes que havia algo de falso em suas relações. Como se fossem homossexuais de sexo oposto, e impossibilitados de unir, em uma só, a desgraça de cada um. Eles apenas concordavam no único ponto que os unia: o erro que havia no mundo e a tácita certeza de que se eles não se salvassem seriam traidores. Quanto a amor, eles não se amavam era claro. Ela até já lhe falava de uma paixão que tivera recentemente com um professor. Ele chegara a lhe dizer - já que ela era como um homem para ele -, chegara mesmo a lhe dizer, com uma frieza que inesperadamente se quebrara em horrível bater de coração, que um rapaz é obrigado a resolver "certos problemas", se quiser ter a cabeça livre para pensar. Ele tinha dezesseis anos, e ela, dezessete. Que ele, com severidade, resolvia de vez em quando certos problemas, nem seu pai sabia.
O fato é que, tendo uma vez se encontrado na parte secreta deles mesmo, resultara na tentação e na esperança de um dia chegar ao máximo. Que máximo?
Que é, afinal, que eles queriam? Eles não sabiam, e usavam-se como quem se agarra em rochas menores até poder sozinho galgar a maior, a difícil e a impossível; usavam-se para se exercitarem na iniciação; usavam-se impacientes, ensaiando um com o outro o modo de bater asas para enfim - cada um sozinho e liberto - pudesse dar o grande vôo solitário que também significaria o adeus um do outro. Era isso? Eles se precisavam temporariamente, irritados pelo outro ser desastrado, um culpando o outro por não ter experiência. Falhavam em cada encontro, como se numa cama se desiludissem. O que é, afinal, que queriam? Queriam aprender. Aprender o quê? Eram uns desastrados. Oh, eles não poderiam dizer que eram infelizes sem ter vergonha, por que sabiam que havia os que passam fome; eles comiam com fome e vergonha. Infelizes? Como? Se na verdade tocavam, sem nenhum motivo, num tal ponto extremo de felicidade como se o mundo fosse sacudido e dessa árvore imensa caíssem mil frutos. Infelizes? se eram corpos com sangue como uma flor ao sol. Como? se estavam para sempre sobre as próprias pernas fracas, conturbados, livres, milagrosamente de pé, as pernas dela depiladas, as dele indecisas mas a terminarem em sapatos de número 44. Como poderiam jamais ser infelizes seres assim?
Eles eram muito infelizes. Procuravam-se cansados, expectantes, forçando uma continuação da compreensão inicial e casual que nunca se repetira - e sem ao menos se amarem. O ideal os sufocava, o tempo passava inútil, a urgência os chamava - eles não sabiam para o que caminhavam, e o caminho os chamava. Um pedia muito do outro, mas é que ambos tinham a mesmo carência, e jamais procurariam um par mais velho que lhes ensinasse, por que não eram doidos de se entregarem sem mais nem menos ao mundo feio.
Um modo possível de ainda se salvarem seria o que eles nunca chamariam de poesia. Na verdade, o que seria poesia, essa palavra constrangedora? Seria encontrarem-se quando, coincidência, caísse uma chuva repentina sobre a cidade? Ou talvez, enquanto tomavam um refresco, olharem ao mesmo tempo a cara de uma mulher passando na rua? Ou mesmo encontrarem-se por coincidência na velha noite de lua e vento? Mas ambos haviam nascido com a palavra poesia já publicada com o maior despudor nos suplementos de Domingo dos jornais. Poesia era palavra dos mais velhos. E a desconfiança de ambos era enorme, como de bichos. Em quem o instinto avisa: que um dia serão caçados. Eles já tinham sido por demais enganados para poderem agora acreditar. E, para caça-los, teria sido preciso uma enorme cautela, muito faro e muita lábia, e um carinho ainda mais cauteloso - um carinho que não os ofendesse - para, pegando-os desprevenidos, poder capturá-los na rede. E, com mais cautela ainda para não despertá-los, levá-los, astuciosamente para os mundo dos viciados, para o mundo já criado; pois esse era o papel dos adultos e dos espiões. De tão longamente ludibriados, vaidosos da própria amargura, tinham repugnância por palavras, sobretudo quando uma palavra - como poesia - era tão esperta que quase exprimia, e aí então é que mostrava mesmo como exprimia pouco. Ambos tinham, na verdade, repugnância pela maioria das palavras, o que estava longe de facilitar-lhes uma comunicação, já que eles ainda não tinham inventado palavras melhores: eles se desentendiam constantemente, obstinados rivais. Poesia? Oh, como eles a detestavam. Como se fosse sexo. Eles também achavam que os outros queriam caça-los não para o sexo, mas para a normalidade. Eles eram medrosos, científicos, exaustos de experiência. Na palavra experiência, sim, eles falavam sem pudor e sem explicá-las: a expressão ia mesmo variando sempre de significado. Experiência às vezes também se confundia com mensagem. Eles usavam ambas as palavras sem aprofundar-lhes muito o sentido.
Aliás, não aprofundava nada, como se não houvesse tempo, como se existissem coisas demais sobre as quais trocar idéias. Não percebendo que não trocavam nenhuma idéia.
Bem, não era apenas isso, e nem com essa simplicidade. Não era apenas isso: nesse ínterim o tempo ia passando, confuso, vasto, entrecortado, e o coração do tempo era o sobressalto e havia aquele ódio contra o mundo que ninguém lhes diria que era amor desesperado e era piedade, e havia neles a cética sabedoria de velhos chineses, sabedoria que de repente podia quebrar denunciando duas caras que se consternavam por que eles não sabiam como se sentar com naturalidade numa sorveteria: tudo então se quebrava, denunciando de repente dois impostores. O tempo ia passando, nenhuma idéia se trocava, e nunca, nunca eles se compreendiam com perfeição como na primeira vez em que ela dissera que sentia angústia e, por milagre, também ele dissera que sentia , e formara-se o pacto horrível. E nunca, nunca acontecia alguma coisa que enfim arrematasse a cegueira com que estendiam as mãos e que os tornasse prontos para o destino que impaciente os esperava, e os fizesse enfim dizer para sempre adeus.
Talvez estivessem tão prontos para se soltarem um do outro como uma gota de água quase a cair, e apenas esperassem algo que simbolizasse a plenitude da angústia para poderem se separar. Talvez, maduros como uma gota de água, tivessem provocado o acontecimento de que falarei.
O vago acontecimento em torno da casa velha só existiu porque eles estavam prontos para isso. Tratava-se apenas de uma casa velha e vazia. Mas eles tinham uma vida pobre e ansiosa como se nunca fossem envelhecer, como se nada jamais fosse suceder - e então a casa tornou-se um acontecimento. Haviam voltado da última aula do período escolar. Tinham tomado o ônibus, saltado, e iam andando. Como sempre, andavam entre depressa e soltos, e de repente devagar, sem jamais acertar o passo, inquietos quanto à presença de outro. Era um dia ruim para ambos, véspera de férias. A última aula os deixava sem futuro e sem amarras, cada um se desprezando o que na casa mútua de ambos a família asseguravam como futuro amor e incompreensão. Sem um dia seguinte e sem amarras, eles estavam pior que nunca, mudos, de olhos abertos.
Nessa tarde a moça estava de dentes cerrados, olhando tudo com rancor ou ardor, como se procurasse no vento, na poeira e na própria extrema pobreza de alma mais uma provocação para a cólera.
E o rapaz, naquela rua da qual ela nem sabiam o nome, o rapaz pouco tinha do homem da criação. O dia estava pálido ainda, involuntariamente moço, ao vento, obrigado a viver. Estava porém suave e indeciso, como se qualquer dor só o tornasse ainda mais moço, ao contrário dela, que estava agressiva. Informes como eram, tudo lhes era possível, inclusive às vezes permutavam as qualidades: ela se tornava como um homem, e ele como uma doçura quase ignóbil de mulher. Varias vezes ele quase se despedira, mas, vago e vazio como estava , não sabia o que fazer quando voltasse para casa, como se o fim das aulas tivessem cortado o último elo. Continuara, pois, mudo atrás dela, seguindo-a com a docilidade do desamparo. Apenas um sétimo sentido de mínima escuta ao mundo o mantinha, ligando-o em obscura promessa ao dia seguinte. Não, os dois não eram propriamente neuróticos e - apesar do que eles pensavam um do outro vingativamente nos momento de mal contida hostilidade - parece que a psicanálise não os resolveria totalmente. Ou talvez resolvesse.
Era uma das ruas que desembocam diante do cemitério João Batista, com poeira seca, pedras soltas e pretos parados à porta dos botequins.
Os dois andavam na calçada esburacada que mal os continha de tão estreita. Ela fez um movimento - ele pensou que ela ia atravessar a rua e deu passo para seguí-la - ela se voltou sem saber de que lado ele estava - ele recuou procurando-a. Naquele mínimo instante em que se buscavam inquietos, viraram-se ao mesmo tempo de costa para os ônibus - e ficaram de pé diante da casa, tendo ainda a procura no rosto .
Talvez tudo tivesse vindo de eles estarem com a procura no rosto. Ou talvez do fato da casa estar diretamente encostada à calçada e ficar tão "perto". Eles mal tinham espaço para olhá-la, imprensados como estavam na calçada estreita, entre o motivo ameaçador dos ônibus e a imobilidade absolutamente serena da casa. Não, não era por bombardeio: mas era uma casa quebrada, como diria uma criança. Era grande, larga e alta como as casas ensobradas do Rio antigo. Uma grande casa enraizada. Com uma indagação muito maior do que a pergunta que tinham no rosto, eles se haviam voltado incautelosamente ao mesmo tempo, e a casa estava tão perto como, se saindo do nada, lhes fosse jogada aos olhos uma súbita parede. Atrás deles os ônibus, à frente a casa - não havia como não estar ali. Se recuassem seriam atingidos pelo ônibus, se avançassem esbarrariam na monstruosa casa. Tinham sido capturados.
A casa era alta, e perto, eles não podiam olhá-la sem ter que levantar infantilmente a cabeça, o que os tornou de súbito muito pequenos e transformou a casa em mansão. Era como se jamais alguma coisa estivesse estado tão perto deles. A casa devia ter tido uma cor. E qualquer que fosse a cor primitiva das janelas, estas eram agora apenas velhas e sólidas. Apequenados, eles abriram os olhos espantados: a casa era angustiada.
A casa era angustiada e calma. Como palavra nenhuma o fora. Era uma construção que pesava no peito dos dois meninos. Um sobrado como quem leva a mão à garganta. Quem? Quem a construíra, levantando aquela feiúra pedra por pedra, aquela catedral do medo solidificado?! Ou fora o tempo que se colara paredes simples e lhes dera aquele ar de estrangulamento, aquele silêncio de enforcado tranqüilo? A casa era forte como um boxeur sem pescoço. E ter a cabeça diretamente ligada a ambos era a angústia. Eles olhavam a casa como uma criança diante de uma escadaria.
Enfim ambos haviam inesperadamente alcançado a meta e estavam diante da esfinge. Boquiabertos, na extrema união do medo e do respeito e da palidez, diante daquela verdade. A nua angústia dera um pulo e colocara-se diante deles - nem ao menos familiar como a palavra que eles tinham se habituado a usar. Apenas uma casa grossa, tosca, sem pescoço, só aquela potência antiga.
Eu sou enfim a própria coisa que vocês procuravam, disse a casa grande.
E o mais engraçado é que não tenho segredo nenhum, disse também a casa grande.
A moça olhava adormecida. Quanto o rapaz, seu sétimo sentido enganchara-se na parte mais interior da construção e ele sentia na ponta do fio um mínimo estremecimento de resposta. Mal se movia, com medo de espantar a própria atenção. A moça encorara-se no espanto, com medo de sair deste para o terror de uma descoberta. Mal falassem, e a casa desabaria. O silêncio de ambos deixava o sobrado intacto. Mas, se antes tinham sido forçados a olhá-lo, agora mesmo que lhes avisassem que o caminho estava livre para fugirem, ali ficavam, presos pelo fascínio e pelo horror. Fixando aquela coisa erguida tão antes deles nascerem, aquela coisa secular e já esvaziada de sentido, aquela coisa vinda do passado. Mas e o futuro?! Oh Deus, dai-nos o nosso futuro! A casa sem olhos, com uma potência de um cego. E se tinha olhos, eram redondos olhos vazios de estatua. Oh Deus, não os deixeis ser filho desse passado vazio, entregai-nos ao futuro. Eles queriam ser filhos. Mas não dessa endurecida carcaça fatal, eles não compreendiam o passado: oh livrai-nos do passado, deixai-nos cumprir nosso duro dever. Pois não era a liberdade o que duas crianças queriam, elas bem queriam ser convencidas e subjulgadas e conduzidas - mas teria que ser por alguma coisa mais poderosa que o grande poder que lhes batia no peito.
A moça desviou subitamente o rosto, tão infeliz que sou, tão infeliz que sempre fui, as aulas acabaram, tudo acabou! - porque na sua avidez ela era ingrata com uma infância que fora provavelmente alegre. A moça subitamente desviou o rosto numa espécie de grunhido.
Quanto o rapaz, ele rapidamente perdia o pé na vaguidão como se fosse ficando sem um pensamento. Isso também era resultado da luz da tarde: era uma luz lívida e sem hora. O rosto do rapaz estava esverdeado e calmo, e ele não tinha nenhuma ajuda das palavras dos outros: exatamente como temerariamente aspirara um dia conseguir. Só que não contara com a miséria que havia em não poder exprimir.
Verdes e nauseados, eles não sabiam exprimir. A casa simbolizava alguma coisa que eles jamais poderiam alcançar, mesmo com toda a vida de procura de expressão. Procurar a expansão, por uma vida inteira que fosse, seria em si um divertimento, amargo e perplexo, mas divertimento, e seria uma divergência que pouco a pouco os afastaria da perigosa verdade - e os salvaria. Logo eles que, na desesperada esperteza de sobreviver, já tinham inventado para eles mesmo um futuro: ambos iam ser escritores, e com uma determinação tão obstinada como se exprimir a alma a suprimisse enfim. E se não suprimisse, seria um modo de só saber que se mente na solidão do próprio coração.
Ao passo que com a casa do passado eles não poderiam brincar. Agora, tão menores que ela, parecia-lhes que tinham apenas brincado de ser moço e doloroso de dar a mensagem.
Agora, espantados, tinham finalmente o que haviam perigosa e imprudentemente pedido: eram dois jovens realmente perdidos. Como diriam as pessoas mais velhas, "eles estavam tendo o que bem mereciam" . E eram tão culpados como crianças culpadas, tão culpados como são inocentes os criminosos. Ah, se ainda pudessem apaziguar o mundo por eles exacerbados, assegurando-lhes: " estávamos apenas brincando! Somos dois impostores!" Mas era tarde. "rende-te sem condição e faze de ti uma parte de mim que sou o passado" - dizia-lhes a vida futura. E, por Deus, em nome de que poderia alguém que tivesse esperança de que o futuro seria deles? quem?! Mas quem se interessava em esclarecer–lhes o mistério, e sem mentir? Havia por acaso alguém trabalhando nesse sentido? Dessa vez, emudecidos como estavam, nem lhes ocorreria acusar a sociedade.
A moça havia subitamente voltado o rosto com um grunhido, uma espécie de soluço ou tosse.
"Meio que chorar dessa hora é bem de mulher", pensou ele do fundo da sua perdição, sem saber o que queria dizer com "essa hora". Mas essa foi a primeira solidez que ele encontrou para si mesmo. Agarrando-se a essa primeira tábua, pôde voltar cambaleando à tona, e como sempre antes da moça. Voltou antes dela, e viu uma casa de pé com um cartaz de "aluga-se". Ouviu o ônibus às suas costas, viu uma casa vazia, e ao seu lado a moça com um rosto doentio, procurando escondê-lo do homem já acordado: ela procurava por algum motivo ocultar a cara.
Ainda vacilante, ele esperou com palidez que ela se recompusesse. Esperou vacilante, sim, mas homem. Magro e irremediavelmente moço, sim, mas homem. Um corpo de homem era a solidez que o recuperava sempre. Volta e meia, quando precisava muito, ele se tornava um homem. Então, com mão incerta, acendeu sem naturalidade um cigarro, como se ele fosse os outros, socorrendo-se do gesto que a maçonaria dos homens lhe dava como apoio e caminho. E ela?
Mas a moça saiu de tudo isso pintando com batom, com ruge meio manchado, e enfeitado por um colar azul. Plumas que um momento antes haviam feito parte de uma situação e de um futuro, mas agora era como se ela não tivesse levado o rosto antes de dormir e acordasse com as marcas impudicas de uma urgia anterior. Pois ela, volta e meia, era uma mulher.
Com um cinismo reconfortante, o rapaz olhou-a curioso. E viu que ela não passava de uma moça.
- Ficou por aqui mesmo, disse–lhe então despedindo-se com altivez, ele que nem sequer tinha mais hora certa para voltar para casa e sentia no bolso a chave da porta.
Despediram-se eles, que nunca se apertavam as mãos, pois ela, na falta de jeito de em tão má hora ter seios e colar, ela estendera desastradamente a sua. O contato das duas mãos úmidas se apalpando sem amor constrangeu o rapaz como uma operação vergonhosa, ele corou. E ela, com batom e ruge, procurou disfarçar a própria nudez enfeitada. Ela não era nada, e afastou-se como se mil olhos a seguissem, esquiva na sua humildade de ter uma condição.
Vendo-a afastar-se, ele a examinou incrédulo, com um interesse divertido: " será possível que mulher possa saber realmente o que é angustia ? " E a dúvida fez com que ele se sentisse muito forte." Não, mulher servia mesmo era para outra coisa, isso não se podia negar." E era de amigo que precisava. Sim, de um amigo leal. Sentiu-se então limpo e fraco , sem nada a esconder, leal como um homem. De qualquer tremor de terra, ele saía com um movimento livre para frente, com a mesma orgulhosa inconseqüência que faz o cavalo relinchar. Enquanto ela saiu costeando a parede como uma intrusa, já quase mãe dos filhos que teria, o corpo pressentido a submissão, corpo sagrado e impuro a carregar. O rapaz olhou-a, espantado de Ter sido ludibriado pela moça tanto tempo, e quase sorriu, quase sacudia as asas que acabavam de crescer. Sou homem, disse-lhe o sexo em obscura vitória. De cada luta ou repouso, ele saía mais homem, ser homem se alimentava mesmo daquele vento que agora arrastava poeira pelas ruas do cemitério São João Batista. O mesmo vento de poeira que fazia com que o outro ser, o fêmeo, se encolhesse ferido, como se nenhum agasalho fosse jamais proteger a sua nudez, esse vento das ruas.
O rapaz viu-a afastar-se, acompanhando-a com os olhos pornográfico e curioso que não pouparam nenhum detalhe humilde da moça. A moca que de súbito pôs-se a correr desesperadamente para não perder o ônibus...
Num sobressalto, fascinado, o rapaz viu-a correr como doida para não perder o ônibus, intrigado viu-a subir no ônibus como um macaco de saia curta. O falso cigarro caiu-lhe da mão...
Alguma coisa incômoda o desequilibrara. O que era? Um momento de grande desconfiança o tomava. Mas o que era?! Ele vira a correr toda ágil mesmo que o coração da moça, ele bem adivinhava, estivesse pálido. E vira-a, toda cheia de impotente amor pela humanidade, subir como um macaco no ônibus - e viu-a depois sentar-se quieta e comportada, recompondo a blusa enquanto esperava que o ônibus andasse... Seria isso? Mas o que poderia haver nisso que o enchia de desconfiada atenção? Talvez do fato dela Ter corrido à toa, pois o ônibus ainda não ia partir, havia pois tempo...Ela nem precisava ter corrido... Mas que havia nisso tudo que fazia com que ele erguesse as orelhas em escutar angustia, numa surdez de quem jamais ouvirá a explicação?
Ele tinha acabado de nascer um homem. Mas, mal assumira o seu nascimento, e estava também assumindo aquele peso no peito; mal assumira a sua glória, e uma experiência insondável dava-lhe a primeira futura ruga. Ignorante, inquieto, mal assumira a masculinidade, e uma nova fome ávida nascia, uma coisa dolorosa como um homem que nunca chora. Estaria ele tendo o primeiro medo de que alguma coisa fosse impossível? A moça era um zero naquele ônibus parado, e no entanto, homem que agora ele era, o rapaz de súbito precisava se inclinar para aquele nada, para aquela moça. E nem ao menos inclinar-se de igual para igual, nem ao menos inclinar-se para conceder... Mas, atolado no seu reino de homem, ele precisava dela. Para quê? Para lembrar-se de uma cláusula? Para que ela ou outra qualquer não o deixasse ir longe demais e se perder? Para que ele sentisse em sobressalto, como estava sentindo, que havia a possibilidade de erro? Ele precisava dela com fome para não esquecer que eram feitos da mesma carne, essa carne pobre da qual, ao subir no ônibus como um macaco, ela parecia ter feito um caminho fatal. Que é! Mas afinal que é que está me acontecendo? Assustou-se ele.
Nada. Nada, e que não se exagere, fora apenas um instante de fraqueza e vacilação, nada mais que isso, não havia perigo.
Apenas um instante de fraqueza e vacilação. Mas dentro desse sistema de duro juízo final, que não permite nem um segundo de incredulidade senão o ideal desaba, ele olhou estonteado a longa rua – e tudo agora estava estragado e seco como se tivesse a boca cheia de poeira. Agora e enfim sozinho, estava sem defesa à mercê da mentira pressurosa com que os outros tentavam ensiná-lo a ser um homem. Mas e a mensagem?! A mensagem esfarelada na poeira do vento arrastava para as grades do esgoto. Mamãe, disse ele.
(in Legião Estrangeira, Clarice Lispector, Editora Rocco)

sexta-feira, 17 de agosto de 2007

O medo e seus artifícios

"Amar eu posso até a hora de morrer.
Amar não acaba. É como se o mundo
estivesse à minha espera. E eu vou
ao encontro do que me espera"

(Clarice Lispector)





O medo lhes denunciava. Poderia ser sentido à quilômetros de distância, o que é exatamente a distância que há entre um e outro neste exato momento.




Acordou. Estava cansado. Havia dormido pouco, que a noite fora de longas conversas. Hoje seria o dia. Pensava em Clarice dizendo "E eu vou ao encontro do que me espera".




Foram tão parcos dias, tão miúdos. Ainda assim tão cheios de coisas, de pequenitos detalhes, que a mesma quantidade de dias não seria suficiente para que descrevesse o que falaram, o que sentira, o que achava que o outro sentira... E hoje era o dia.




Tudo estava certo. A mala por sobre a cama. A passagem no bolso do paletó, os documentos, enfim, tudo que lhe era necessário. Apenas a calma lhe faltava, que a ânsia de encontrar com o que nos espera é uma das piores quando é o acaso que une as pessoas.




Assim sendo, viajou. Cada quilômetro de distância fora percorrido, o coração na mão, mesmo que, ao mesmo tempo, cheio de felicidade. Felicidade é essa coisa estranha que nos abre o peito e faz dele vazar tudo que de ruim há, deixando apenas aquilo que de bem nos serve.




Assim sendo, chegou à cidade e foi para o local combinado para o encontro. Estava com amigos e entre uma bebida e outra, falavam sobre a casualidade da vida, ao que ele disse:




- Como é o acaso! Penso agora sobre o acaso e é este o assunto que vocês iniciam na mesa!




E as horas passavam.




Acontecia que do outro lado da cidade, o outro hesitava. É que tinha compromissos. Talvez fosse melhor cumprí-los (ou seria, honrá-los?), ele pensava, tentando encontrar a resposta correta para a pergunta. Não se tratava de compromissos consigo mesmo, mas com outrem, um terceiro.




Se soubesse que o outro hesitava, nosso viajante diria: E que compromisso é maior senão o compromisso que temos com aquilo que sentimos?, mas não teria esta oportunidade. Falar não lhe seria permitido hoje caso o rapaz não aparecesse.




Sem saber que respostas certas para a questão que se fazia não existia, o rapaz do compromisso refletia cada vez mais e pensava em todas as possibilidades de final para esta história.




Foi assim que o medo lhes denunciava. Poderia ser sentido à quilômetros de distância, o que é exatamente a distância que há entre um e outro neste exato momento. De lá, um hesitava por conta de outro, de cá o outro temia porque a hora já ia avançada e nem sinal do rapaz. E de cá eu me despeço, que o desfecho para esta história, ninguém ainda sabe. Tudo o que sabemos é que o medo tem dessas nuances: é um grande artífice... Faz-nos crer que não desejamos nosso desejo, que desanimamos de nossos propósitos, que queremos cuidar do outro mais do que de nós mesmos.

quinta-feira, 16 de agosto de 2007

Da compreensão

Engraçado como nunca havia sido capaz de compreender a letra dessa música da Bjork. Achava tola, vazia de sentido. Como sentir falta daquilo que não se conhece?

À medida que vivemos, os sentidos saltam aos olhos. E posto a música:

I miss you (Bjork)

I miss you
But i haven't met you yet
So special
But it hasn't happened yet
You are gorgeous
But i haven't met you yet
I remember
But it hasn't happened yet

Do encontro

Olhava insistentemente para o relógio. Chegaram a brincar com ele "está chato assim aqui conosco? Quer ir embora!", ao que respondeu "Não se trata disso". De fato, não se tratava disso. O ambiente era agradável. Boa música, espaço intimista, boa comida e bebida, amigos agradáveis a mesa, conversas interessantes...
- Por favor, mais uma rodada - pediu a amiga sentada ao seu lado.
- Não, pra mim não, por favor! - disse ele.
- Oras! Estou dizendo, você está estranho! Já vai parar de beber... - retrucou ela.
- Não é que eu vá parar. Não sei se dá tempo.
- Tempo? Para quê? Espera algo?
- Sim.
- O que?
- Não sei.

De fato, não sabia o que esperava. Um ligação, talvez. Um presença desconhecida. Sentia uma sensação acalentadora no peito quando pensava naquilo que lhe fazia estar ansioso àquela hora. O celular por sobre a mesa do bar era mantido sob seus olhos. O primeiro toque e sim, seria a hora.
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Estava na festa. Amigos. Bebiam e falavam sobre o que homens falam: mulheres. Vez por outra, trabalho, carro, esportes. A música de festa de São João ao fundo. Mas não estava presente nas conversas. Tudo hoje era ausência. O mundo torna-se esvazia-se de sentidos quando há diante de nós o desconhecido.
Pensava: tenho um encontro hoje e tenho ainda medo. Há tantas esperanças, tantas expectativas. Melhor seria ter permanecido nos degraus mais baixos da escada. Quanto mais se sobe, maior o tombo, minha avó sempre diz. E não quero cair. AO mesmo tempo que temo, sinto que não há porque.
- Queridos, vou partir. Nos vemos amanhã no trabalho!
- Oras! Vai cedo! Todos teremos que estar lá também! Fique mais um pouco!
- Estou cansado.
Caminhava as passos rápidos para o estacionamento.
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Em pé, em frente ao bar, esperava. O celular já tocara, já havia confirmado que aquilo por que espera, aquilo que desconhece e que, mesmo assim, é o que ansiosamente aguarda, já está a caminho.
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Ligara uma música no carro. Bjork canta:
"I miss you. But I haven't met you yet"
A mão suada no volante deslizava facilmente a cada esquina virada. O peito, extravasado em angústia, arfava em ritmo acelerado, seguindo o descompasso do coração e da respiração ofegante.
Como seria o encontro?!
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Ele entrou no carro. Olharam-se. Em meio ao silêncio, o diálogo era visível nos olhos:
- ...
- ...
- !
- ...
- ...?
- .
- !?
- ?!
- ...! ...?
- !
- .
Os olhos postos sobre o olhar um do outro. Os corpos, retesados, lembravam a tensão. Falariam sobre tudo quanto fosse natural. Seguiriam a noite conversando. Mas como será? O que irá acontecer?
-------------------------
Agora tive que sair do carro. Há coisas que, mesmo narrador, não podemos ouvir ou ver.
Nos últimos momentos que vi, ainda conversavam. Pareciam bem com toda a situação. Os corpos aproximados. Os olhares em riste. Da última vez que olhei para trás, vi uma mão levantar-se, esboçando gestos de carinho no ar...

quarta-feira, 15 de agosto de 2007

All is full of love - Bjork

And listening to a bjorkian song, he thinks: "Somehow, I trust it, I do trust it", for he knew that there could be some troubled waters underneath the surface, but there was something more, something bigger than that. Something else.

You'll be given love
You'll be taken care of
You'll be given love
You have to trust it
Maybe not from the sources
You have poured yours
Maybe not from the directions
You are staring at
Twist your head around
It's all around you
All is full of love
All around you
All is full of love
You just aint receiving
All is full of love
Your phone is off the hook
All is full of love
Your doors are all shut
All is full of love!
And be the lil'angel

** Icelandic part **

All is full of love, all is full of love
All is full of love, all is full of love

terça-feira, 14 de agosto de 2007

Do diálogo ou Sobre como escrever o que se sente

Quando mais as coisas são necessárias é que elas nos faltam, como o ânimo que se esvai em uma semana de trabalho intenso ou como quando o amor mostra-se fraquejante diante de uma crise conjugal. Vejo-o ali, sentado à mesa, e é na ausência que penso. Sua presença me lembra a ausência, a privação, a negação do presentificar-se: tenta, rabisca, traceja letras, chega a desenhá-las, passando e repassando o lápis por sobre as poucas palavras que conseguira escrever, mas a criatividade, aquela tão necessária nesse momento, decidiu não dar as caras no dia de hoje.

É frustrante. Sinto daqui que há tanto para exprimir, há tanto para pôr no papel... Mas ele não encontra meios.

Sim, acabou de passar-lhe pela cabeça comprar uma idéia. Como se estivesse em uma feira livre, perguntaria um a um de seus amigos: "Você! É capaz de me vender uma idéia? Preciso de algo como um mote para uma história, uma pequena frase, uma imagem simples, que de sentimentos estou cheio. O que me falta é história para que estes entrem no papel. É isso: preciso de uma história em que caiba o que sinto. Alguém tem desse produto para vender?".

Logo desistiu da idéia. De nada lhe valeriam história compradas. Ele cá tinha a sua. Aliás, fora por isso que se propusera a escrever. Contudo, não encontrava o melhor modo de escrever. O problema, como disse, era simplesmente de criatividade... Pois como falar daquilo que de há muito se fala sem que se repita? Como não cair ou recorrer a clichês? E será melhor cair nos clichês, como que por acaso, ou aceitá-los e lançar mão deles deliberadamente? Se decidisse por aceitá-los poderia começar o texto com um: "Era uma vez numa sala de bate-papo...", pois reinos distantes não existem e estamos na modernidade. E no caso de querer evitá-los poderia começar com algo como... Como... Pronto, achamos o cerne do problema! É por querer fugir dos clichês que nada consegue escrever.

Talvez um café ajude. Acho que vou sugerí-lo isso:

- Ei! Você...
- Sim? Quem fala?
- Eu, o narrador.
- AH! Oi... Estou ocupado. Seria bom não interromper. Combinamos que você só ia ficar me olhando, sem me atrapalhar.
- É, eu sei, mas é que não consigo... Você aí, sem conseguir escrever palavra e, ao mesmo tempo, com tanto para dizer! Só queria dar uma sugestão. Porque não pára um pouco e toma um café? Vai lhe aliviar a tensão.
- Não estou tenso! - respondeu-me rispidamente.
- Sim, percebo pelo tom de sua voz que anda bem tranquilo - retruquei em tom de ironia.
- É... Desculpe-me... Tem razão. Estou nervoso. É que isso nunca me aconteceu antes. Ou bem não queria escrever e não escrevia ou bem queria escrever e as palavras me saiam facilmente da ponta do lápis. Isso que hoje se dá nunca aconteceu!
- Talvez seja um dia em que não queira escrever, de fato. Um dia em que pensa que quer, mas se engana.
- Não há enganos. Quero escrever. Preciso pôr os sentimentos em ordem. Iam bem, os coitados. Agora perdem-se como um cavalo estourado em campina: vagam por todos os pensamentos que me habitam e voltam, velozes, ao mais recorrente de todos. É sobre este último pensamento que preciso escrever.
- E do que se trata?
- Pois se eu te disser, promete nada contar?
- Isso não posso te garantir. Estou aqui para escrever sobre você. Aliás, cada palavra que dizes, as letras correspondentes a ela se formam na tela do computador em que eu escrevo. Sou o narrador, esqueceu-se e você é minha história.
- Verdade... Bem, assim sendo, se te conto minha história, a terei escrito de alguma maneira, mesmo que seja com suas palavras!...
- Sim! Melhor ainda: com tuas próprias palavras! Sou fiel aos diálogos. Acho que sempre são enriquecedores... Sem contar que pode-se lê-los mais rápido do que se lê um parágrafo denso de prosa.
- Pois bem. Conto-lhe. É que conheci uma pessoa...
- Sim, uma pessoa...?
- É, pois é... Por enquanto isso é tudo. Acho que devo deixar rolar para que tenha mais o que dizer.
- E o que há de difícil em escrever sobre uma pessoa que se conhece? O que há de tão complicado se a cada dia conhecemos várias?!
- Não há não nada no mundo que se conheça que seja igual aquilo que já se conheceu um dia.
- A velha história de que cada um é cada um ou então o velho clichê das ondas do mar, que nunca são iguais... Mas todos são pessoas. É tudo uma mesma humanidade.
- Para cada humano, um sentimento diferente, narrador! Oras! Não esperava tanta falta de sentimento de sua parte! Pensei que se tratasse de alguém com um pouco de "amorosidade".
- Não sou dado a sentimentalismos.
- E histórias de gostar são sentimentalismos?
- Depende da história.
- Bem, esta é mais ou menos assim: conheci essa pessoa que te falei pela internet, sabe? Uma dessas salas de conversa. E conversamos um par de vezes e...
- E...?
- E hoje é a segunda vez que acordo e penso nela. Não sei... É estranho. Não nos conhecemos. Mal nos vimos. Poucas fotos e parcos segundos de vídeo. O senhor deve saber como são essas coisas de internet. Nem ao menos as vozes foram ouvidas. E é o segundo dia que acordo pensando nesta pessoa. Sinto-me bem como há algum tempo não me sinto e, ao mesmo tempo, tenho medo.
- Como digo: tudo uma mesma humanidade! Pois qual é o homem que não teme diante daquilo que deseja?
- E quem falou em desejo?
- Oras! Poder até ser afeito à volteamentos da lógica, a uma boa retórica, mas o senhor não me engana. É impossível escapar aos olhos de quem vê aquilo que salta na cena vista, aquilo que nela grita. Há o desejo.
- Somos apenas amigos... Apenas amigos.
- Admiro-me o senhor, o senhor, aquele que defendeu que cada pessoa é uma, querendo dizer que toda amizade é a mesma! Nesta amizade, nesta entre você e a pessoa em que pensa, há o desejo. É isso que a faz diferente de todas as outras. É isso que diferencia o amor fraterno dos outros - após alguns momentos de silêncio, em que o vi refletir sobre o que acabara de ouvir, emendei - Se não for invasão demais, o senhor pode me dizer o que mais te atrai nessa pessoa?
- Ah, claro! É "amorável".

Assim prosseguiu a conversa, por horas. Contou-me cada detalhe, cada volteamento das conversas com a pessoa. Falou-me do estranho sentimento que tinha ao longo do dia, misto de ansiedade, medo, vazio, preenchimento e felicidade angustiante. Refletimos juntos acerca do que poderia vir a acontecer. Refletimos sobre o que já havia acontecido também.

Agora acabara de sair do trabalho. Leve. Não mais precisaria prender-se a mesa e tentar escrever e compreender tudo o que sentia. É que ao longo da conversa, lembrou do que lhe disse a pessoa no dia anterior: "DEIXA ESTAR. Foi você que me disse isso" e sentiu em si o peso da leveza da espera por aquilo que se deseja.

domingo, 12 de agosto de 2007

A festa de família

Elisinha cantava e no final dizia "é uma dôooor" (acrescento o acento para dar o tom exato) e, de fato, ERA uma dor.

Hoje não sei se é dor. Não tenho "Snapshots". Agi comportadamente na festa de família (ia dizer: "fresta" de família. Ato falho?). Mas a verdade é que não há como: os amo. A todos. Sim. Todos. Mesmo aqueles com quem não tenho contato.

A festa sempre termina. Sempre começa com aquela sensação de "ai que saco, putaqueopariu, vou ter que sorrir por três horas". Aí vem o espaço para a autencidade. Sorrio. Fico sério. Fico alegre, triste, alegre-triste. Vejo as crianças correndo, o cachorro latindo, as crianças com medo do cachorro latindo, o cachorro com medo das crianças com medo... Vejo a mãe negligente sentada tomando cerveja e o filho, sabedor da negligência, pulando na cama elástica de modo a provocar um tombo. Tombo este com o qual ele nunca se machuca, mas ergue-se com cara de choro e vai pro colo da mãe... Para acabar sendo consolado pela tia que se senta ao lado, que a mãe prefere segurar o copo de cerveja.

Meu pai, que sempre disse não ter tempo para aproveitar uma festa porque tinha o famigerado trabalho. O famigerado trabalho de 23 anos que lhe comia o tempo e a saúde. E agora que já não o tem, usa como desculpa a necessidade de ter tudo em ordem para ir dormir. Não pára. Carrega coisas para lá, para cá, de novo para lá, a mesma coisa, só para tirá-la de lugar e sentir-se ocupado. "Meu filho, senta do lado do pai um bocado", disse-me ele agora, agora quando eu já estava sentado ao lado dele e olhei-o com uma cara de "como assim?! Já estou sentado ao seu lado".

Meu avô... Sempre sentado na ponta da mesa. Sempre pousando de patriarca. O galo. O manda-chuva. O grande mestre que de mestre nada mais tem. Não manda em nada mas é como se mandasse. Age como se comandasse a festa, que nem é dele. Não pagou nem por meia tigela... Mas é como se tivesse pago. E fico feliz em vê-lo ali, assim, cantando de galo, como se tudo e todos o pertencessem. Sinto que há vida nele ainda. Por mais alguns bons anos. Quero vê-lo em minha formatura também.

E as tias. As irmãs do meu pai. Sempre ocupadas, sempre tristes, sempre com problemas a contar (mesmo que sejam os da vizinha, da amiga, ou da prima do parente distante lá de Curicia do Norte, esse lugar que nem sei se existe, esse lugar onde mora esse parente distante de onde nem nunca ouvi falar mas que parece ter um câncer. Aliás, parece ter um câncer... Que é de família... Que todos têm! Meu deus! Será que eu vou ter?!). Elas, com seus netos nas mãos, limpando as golfadas das crianças. A linda priminha de olhos verdes e bochecas gordas e rosada... Sua roupinha rosa. E a avó, baloiçando-a para lá e para cá.

E os primos. Aquela que senta do meu lado e diz: "Não sei o que faço... Gosto dele mas não sinto o mesmo ânimo". E aquela que diz: "Primo, vou te visitar", mas ela sempre diz e nunca visita... Eu também faço o mesmo: sempre digo e nunca visito. Falamos todos também sobre a querida prima-irmã que está longe, muito longe... E todos temos saudades. Quanta saudade! Parece que a vida parou e todos esperamos a volta dela para que os assuntos sejam, de fato, colocados em dia.

A tia que me abraça e comenta que estou alto. Ela sempre comenta que estou alto e há anos que não cresço.

Sinto saudades de todos e uma tristeza nostálgica dos minutos que acabaram de se acabar. E prometo-me, mais uma vez, "durante a semana, ao longo deste ano, vou me reaproximar de cada um deles" e tenho a ligeira sensação de ser capaz de mudar a vida de cada um.

sexta-feira, 10 de agosto de 2007

Carta de Amor*

É que quando desacostumamos a sentir, qualquer sentimento é dor. Vem, rasgante que é, estraçalhando nossos interiores. Há aqueles que são capazes de aguentar, mas eu, eu, que sou fraca, eu, que me envergonharei de mim por isso, não aguento. Por isso escrevo-lhe mais estas linhas, apesar de ter-me prometido e ter-te dito que não mais o faria. É que não consigo não pensar em você quando a tarde cai e a noite vem, trazendo a lua e a solidão para dentro do meu quarto e do meu peito.
Agi de má-fé comigo mesma. Não há como enganar-me e fugir de mim, daquilo que sinto e que agora me dói. Como podemos fazer tanto mal a nós mesmos? Quão ingênua fui ao pensar que poderia me esconder de mim! E agora, novamente, coloco-me a teus pés: é que já não sei o que fazer de mim sem que mo digas.
E agi de má fé contigo. Nem tudo que é teu e que estava aqui lhe devolvi. Vejo agora como fui tola. Talvez a posse de algo seu pudesse me ajudar a manter a raiva que conseguia manter por estar sendo ignorada, eu pensei. Talvez se você percebesse que eu ficara com algo, viesse me procurar, eu pensei. Qual nada! Tudo o que consegui foram lembranças! Tolas lembranças... Como no dia em que você chegou de mansinho, abriu a porta devagar, pisando leve e me surpreendeu na cozinha, me abraçando pelas costas e me deixando com as pernas bambas pelo susto e pelo prazer.
Sim, me afastei. Fiz de tudo o que pude. Sei que tudo o que fiz fora, também, fruto de uma decisão tomada apenas por mim, nunca a propósito de qualquer pedido seu. Julguei o que era melhor e assim o fiz. Com isso, aprendi que nem todos os julgamentos, por mais que sejam bem feitos, são corretos. A justiça é cega e assim o é, do mesmo modo, o amor. Não há como querer exatidão ao unir os dois. Não passei de uma boboca infantil querendo ser adulta e senhora de minha vida, a mesma que pertence a ti - agora bem sei.
Talvez não receba bem estas palavras. Talvez precise rasgar esta carta para que uma outra mulher não a veja ou não a descubra no bolso do casaco, quando o "acaso" acaba servindo ao propósitos ocultos que temos, aqueles que escondemos de nós mesmos. Não há problemas. De cá, tento satisfazer-me simplesmente com o fato de tê-las escrito e de crer que consegui fazê-las chegar a ti.
Queria poder dizer, como Pessoa disse a sua amada: "Quanto a mim, o amor passou", mas seria mentir novamente. Amo-te, querido. Amo-te, mesmo que, por isso, sinta dores. Aliás, estas me são bem quistas, uma vez que são o único motivo que tenho para amar-me a mim: o amor que tenho por ti e que faz doer-me o peito.
Da sua,
Beatriz

* Para os que não leram, há em Julho o post "Carta de (des)Amor", também de autoria da Beatriz, ao qual o presente representa continuação.

quinta-feira, 9 de agosto de 2007

Caetano

Caê, irmão de Taninha. Gente, amo essa família. E aí, ontem me dei conta de que ainda não tinha ouvido o cd novo do Caetano. Daí, ouvi. E é superbo! Músicas despeitadas, a meu ver. Ótimas! Bom ver alguém pondo pra fora tudo aquilo que muitos recalcam.

Aì vai uma letra:

Deusa Urbana

Com você eu tenho medo de apaixonar, eu tenho medo de não me apaixonar
Tenho medo dele, tenho medo dela
Os dois juntos onde eu não podia entrar
Com você eu tenho mesmo que me conformar, eu tenho mesmo que não me conformar
Sexo heterodoxo, lapsos de desejo
Quando vejo, o céu desaba sobre nós.

Mucosa roxa, peito cor de rola
Seu beijo, seu texto, seu queixo, seu pêlo, sua coxa.
Menina, deusa urbana, neta do sol.
Eu sou você e os meus rivais. Sou só.

Mucosa roxa, peito cor de rola
Seu beijo, seu texto, seu cheiro, seu pêlo, cê toda
Menina, deusa urbana, neta do sol.
Eu sou você e os meus rivais. Sou só.

quarta-feira, 8 de agosto de 2007

Chega de fazer fumaça

Sei que sempre disse: samba não é comigo. Aí cresci e comecei a dizer: só se for de raiz. E sabe-se lá deus como, eu confundia a Mart'nália com a Margarete Menezes rs e dizia ~que não gostava. E sempre disse que não gosto de música tema de novela, mas me mandaram esse pelo MSN dia desses e achei ótima. E é da Mart'nália!

Cabide - Mart'nália

Se eu fingir e sair por aí na noitada, me acabando de rir
Se eu disser que nçao digo e não ligo e que fico
E que só vou aprontar
É que eu sambo diretinho, assim, bem miudinho, cê não sabe acompanhar
Vou arrancar tua saia e pôr no meu cabide só pra pendurar.
Quero ver se você tem atitude e se vai encarar.

Se eu sumir dos lugares, dos bares, esquinas, e ninguém me encontrar
Se me virem sambando até de madrugada e você for até lá.
É que eu sambo diretinho, assim, bem miudinho, cê não sabe acompanhar
Vou arrancar tua blusa e pôr no meu cabide só pra pendurar.
Quero ver se você tem atitude e se vai encarar.

Chega de fazer fumaça, de contar vantagem, quero ver chegar junto pra me juntar
Me fazer sentir mais viva, me apertar o corpo e a alma, me fazendo suar.
Quero beijos sem tréguas, quero sete mil léguas, sem descansar.
Quero ver se você tem atitude e se vai me encarar.

Se eu fingir e sair por aí na noitada, me acabando de rir
E seu eu disser que não digo, não ligo e que fico
E que só vou aprontar
É que eu mando direitinho, assim, bem miudinho.
Sei que você vai gostar.
Vou arrancar sua blusa e por no meu cabide só pra pendurar.
Quero ver se você tem atitude e se vai encarar.

segunda-feira, 6 de agosto de 2007

Exorcizando velhos fantasmas

Deus disse a Abrãao: "Tome seu filho, o seu único filho Isaac,
a quem você ama, vá à terra de Moriá e ofereça-o aí
em holocausto, sobre uma montanha que vou lhe mostrar"
Genesis 22, 2

Não estava acostumado a ambientes como aquele. A cor verde dos corredores lhe dava uma aconchegante sensação de frescor, quebrada pela crueza da forte luz branca das lâmpadas fluorescentes. As pessoas, desde a hora que entrara, olhavam-no sorrindo. Havia algo de estranho nelas... Não era o olhar de adultos encantandos com a graça da infância, aquela que perderam há algum tempo.
No quarto, a mesma forte luz branca cortando-lhe a retina. O verde, que a cada passo adentro daquela casa estranha, lhe acalentava, fora-lhe roubado. Tudo o que via eram paredes brancas e altas. Um pequeno quarto.
A cama não era das mais confortáveis, mas sua avó lhe assegurara: voltariam para casa em pouco tempo. E não havia muito o que fazer. Melhor seria não ter tido o voluntarismo de ir à cidade grande. Caso tivesse feito alguma oposição... Bem, caso tivesse feito alguma oposição talvez algum membro da família tivesse desistido, entendendo a falta de vontade como algum sinal divino.
Onde está minha mãe?, pensava. E como se adivinhasse o pensamento do garoto, vovó passara as mãos de leve na cabeça dele ao passo que dizia: "Meu filho querido, mamãe está voltando".
Naquele quarto não havia ninguém mais que não fossem os dois e a presença etérea de uma mãe desejada, que adentraria a qualquer momento aquele quarto. Sim, ela o tiraria dali caso ele quisesse. Não sabia ainda, contudo, se queria sair dali. Apesar da luz cortante e das altas paredes, estava fatigado. No intervalo entre um visita e outra à cidade grande, esquecia-se do que sempre acontecia e era por isso que sempre respondia animadamente: "Quero ir!", quando a mãe lhe perguntava se gostaria de juntar-se a ela e a avó no passeio. Sempre que iam à cidade, sua mãe e sua avó andavam quilômetros, entrando em todas as lojas abertas, procurando coisas que não queriam, comprando coisas que não precisavam e deixando de lado aquilo que, de fato, era o mais profundo desejo das duas. Melhor levar o que não se quer do que correr o risco de nada mais ter para desejar na vida.
Apenas dez minutos se passaram desde que entraram naquela casa estranha, desde que passaram pelos corredores verdes e viram as pessoas olhando para ele daquele modo que, só mais tarde, viria a entender ser pena: "Uma criança, tão nova, aqui neste lugar!", deviam pensar elas ao ver o molequito andando para dentro do hospital.
Dez minutos era muito tempo para uma criança. Certamente havia naquele lugar uma imensidade de possibilidades a serem exploradas. Poderia, talvez, imaginar que era uma grande casa daquelas antigas, de escravos, e que ele era o senhor de todas aquelas terras. Ou então, que se tratava de um forte de guerra e que ele deveria espionar os bandidos que vinham lá longe na estrada, fazendo poeira ao trotar dos cavalos. Na tentativa de descobrir este mundo, disse:
- Vovó, posso ver a janela?
- Não, meu querido. Em breve chegará um amigo para você e é melhor que descanse.
- Um amigo?
- Sim, meu filho. Um amigo - respondeu-lhe a avó em tom de fechamento. Não era possível explicar a ele o que se passava ali, pensava ela. Melhor: preferia não explicar... Talvez ele ficasse com medo e medo é bobagem, luxo a que o garoto não poderia se dar. Já havia muito que ela e a filha planejavam levá-lo ao doutor. Hoje era o dia, este que planejaram. Tudo estava marcado, mas ainda sentia dentro em si um pequenito receio de algo pudesse dar errado, de que o trem, tão bem posto em seus trilhos, pudesse descarrilar por algum motivo. - Tome! Trouxe aqui uma das revistinhas que você gosta. Porque não lê para mim?
E entregou ao menino uma revistinha em quadrinho nova e viu os olhos dele brilharem. Apesar de ter apenas 5 anos, ele sabia ler. Aprendera aos 4 num pequeno passeio à praia. Desde então, não parara, sempre pedindo novas revistas, novos livros... Não saberia ela determinar (nem ao menos a mãe) se a precocidade do garoto na leitura era um ganho ou um problema familiar, pois o dinheiro que tinham não acompanhava a leitura do menino, que ao final do dia em que recebia uma revista, já logo pedia outra.
- Querido, enquanto lê, vovó vai sair rapidinho. Fique deitado, hein? Já já mamãe chega e seu amigo também. É melhor que descanse.
Nem tivera tempo de sentir-se aflito, nem ao menos de terminar a leitura da primeira historinha da revista. Logo chegaram todos: vovó, mamãe e o novo amigo.
- Querido, este é o Dr. Paulo - disse-lhe a mãe.
- E aí, rapaz? - disse o médico em tom amistoso.
Mas o menino preferiu calar-se. Não era dado a falar com estranhos. Vivera uma infância muito fechada no berço familiar, não era de muitos colegas. Não era afeito a amizades que se fazem de hora para outra. Talvez (sim, talvez) venha a mudar essa postura após o que estava prestes a viver. Talvez tomasse consciência da necessidade de ligar-se aos outros para evitar a dor da vida.
- Meu filho, o dr. Paulo irá te examinar, certo?
- Vou tirar sua bermuda, ok? - disse o médico, como querendo acalmar o menino.
- Para quê, mamãe?
- Querido, sem perguntas - respondeu ela. Era possível, mesmo para ele, perceber a insegurança e o medo na voz materna.
- Não quero.
Ao som dessas palavras, viu a mãe olhando para a avó. Esta, compreendendo o olhar, dirigiu-se para a parte superior da cama. Mamãe, aproximando-se da cama, debruçara-se sobre o corpo do filho, não sem antes tomar-lhe a revista. Num ímpeto, agarrou-lhe os braços e deu-os à avó, que agora os segurava com força acima da cabeça do garoto com uma mão e, com a outra, levantava a cabeça dele de modo que não pudesse olhar para outro lugar que não para o rosto senil dela. Não lhe era permitido olhar para baixo, não lhe era permitido ver o médico neste momento despindo-lhe dos quadris para baixo.
O que estaria acontecendo?, pensava, ainda tentando manter-se tranquilo, pensamentos vagando na história que lia ainda há pouco. Sentira, então, as mãos geladas da mãe tocando-lhe os pés e prendendo-os firmemente à cama.
- Mâaaaae, não quero! Estou com medo! - gritou em desespero, todos os pensamentos tranquilos esvaindo-lhe como a água de uma banheira sendo sugada para o ralo - Não quero! Vovó! Vovó! O que está acontecendo?
- Calma, meu querido, vovó está aqui - respondera a avó com um sorriso nos lábios. Ele era forçado a ver aquele sorriso, seu rosto sendo puxado em direção àquela visão.
Sentiu as mãos do novo amigo tocando-lhe em sua intimidade. Além do rosto da avó, a única coisa que conseguia ver pelo canto do olho era o vulto alto daquele homem, todo vestido de branco.
- Nãaaaaaao! Nãaaao! - gritava o menino, entre soluços - Nãaaao... Mãe, me ajuda... Vó, me ajuda... Me ajuda...
Sentira então uma grande dor. Dos olhos, as lágrimas rolaram com maior velocidade quando estes se fecharam em resposta ao que sentia. Nem ao menos conseguia dobrar as pernas e defender-se. Não que não tentasse, mas as mãos geladas da mãe eram mais firmes que as pernas dele. Abrira os olhos e o vulto alto do homem na sala tinha agora tons avermelhados onde só havia o banco asséptico.
Já não mais conseguia gritar. Nada lhe era possível. Pensava no pai. O grande herói das revistas que lia. Pensava nele. Porque o abandonara ali, naquele momento? Porque não estava lá para ajudá-lo? Será que sabia?
Uma sensação estranha lhe subia pela garganta. Entre a dor e os gritos havia o ódio. O que havia entre mamãe e aquele homem? Será que ela também chorava como ele? Ou se felicitava com o que estava acontecendo ali?
- Querido, está quase acabando - ouviu, ao longe, a voz da avó.
Sentia-se violado. Sentia-se humilhado naquilo que era seu: ele mesmo. Então não era tão forte como pensava? Nem tão astuto? Nem tão capaz de perceber o que se passava ali antes que tudo se desse?
Sentira que o homem tirara a mão de seu corpo, o mesmo corpo que o menino já não conseguia sentir por inteiro. Alguma coisa lhe havia sido tirada? Uma vez, brincando, cortou-se e sangrara. Sabia que aquele vermelho que percebera de relance era seu sangue. Onde o haviam machucado? Não sabia, criança que era, que não importava o machucado, mas sim os danos invisíveis do espetáculo de horror a que era submetido. Também não o sabiam a avó e a mãe, devo dizer-lhes, para que não dirijam todo seu ódio contra elas. Talvez nem ao menos soubesse o médico que o sangue era o de menos e que a grande ferida era interna.
- Vó, segure os braços com mais força - disse o médico. - Garoto, estamos quase terminando. Agora falta só o remédio. Vou por o remédio agora. Você vai sentir arder.
Já nem tinha forças para se opor. Sentira a ardência queimar-lhe toda a carne. Ainda urrava de dor o pequenito corpo na cama quando tivera as pernas e os braços libertos. Virara o corpinho para o lado, dobrando-se sobre si mesmo ao puxar as pernas para perto de si e ficara assim, na posição em que os bebês ficam quando ainda não precisam sofrer a vida. E nem tempo lhe deram para sofrer a vida. A avó fora logo o empurrando para que se levantasse. Já era hora de ir embora. Não havia porque ficarem ali.
- Vista-se - disse-lhe ela.
E obedeceu. Não seria mais capaz de se opor a nada. Aquilo que era, perdera-se. Restara-lhe apenas a possibilidade de aceitar tudo de todos na vida.
Ao subir a cueca e as calças, vira o que acontecera: um curativo.
- ... caem - ouviu o médico dizer para a mãe ao fundo da sala. Não sabia que se tratava dos pontos e logo imaginou que se tratava da parte de seu corpo a que dava tanta importância, aquilo que o diferenciava das meninas e o fazia parte do mesmo mundo do pai.
Por isso saíra do hospital andando lentamente enquanto as pessoas lhe olhavam com o mesmo sorriso que lhe olharam ao entrar, apenas pela diferença que desta vez perguntavam a mãe:
- Fimose?
- Sim - ela lhes respondia.
- Ah! Ele vai andar assim, com as pernas abertas por mais alguns dias... - diziam, rindo.
Mas não sentia dor alguma. Não sentia nada. Ignorância causualista dos adultos, que acham que para cada causa, um efeito. Sim, andaria com as pernas abertas: era o único cuidado que conseguia pensar para evitar que aquela parte tão querida a si de seu corpo caísse, como vaticinara seu "novo amigo" ao pé do ouvido da mãe.
Entrara no carro. Voltaria para casa. Violadamente, voltaria para casa.

quinta-feira, 2 de agosto de 2007

O Silêncio

Pior do que a voz que cala,
é um silêncio que fala.
Simples, rápido!
E quanta força!
Imediatamente me veio à cabeça situaçõe
sem que o silêncio me disse verdades terríveis,
pois você sabe, o silêncio não é dado a amenidades.
Um telefone mudo. Um e-mail que não chega.
Um encontro onde nenhum dos dois abre a boca.
Silêncios que falam sobre desinteresse,
esquecimento, recusas.
Quantas coisas são ditas na quietude,
depois de uma discussão.
O perdão não vem, nem um beijo,
nem uma gargalhada
para acabar com o clima de tensão.
Só ele permanece imutável,
o silêncio, a ante-sala do fim.
É mil vezes preferível uma voz que diga coisas
que a gente não quer ouvir,
pois ao menos as palavras que são ditas
indicam uma tentativa de entendimento.
Cordas vocais em funcionamento
articulam argumentos,
expõem suas queixas, jogam limpo.
Já o silêncio arquiteta planos
que não são compartilhados.
Quando nada é dito, nada fica combinado.
Quantas vezes, numa discussão histérica,
ouvimos um dos dois gritar:
"Diz alguma coisa, mas não fica
aí parado me olhando!"
É o silêncio de um, mandando más notícias
para o desespero do outro.
É claro que há muitas situações
em que o silêncio é bem-vindo.
Para um cara que trabalha
com uma britadeira na rua,
o silêncio é um bálsamo.
Para a professora de uma creche,
o silêncio é um presente.
Para os seguranças de um show de rock,
o silêncio é um sonho.
Mesmo no amor,
quando a relação é sólida e madura,
o silêncio a dois não incomoda,
pois é o silêncio da paz.
O único silêncio que perturba,
é aquele que fala.
E fala alto.
É quando ninguém bate à nossa porta,
não há emails na caixa de entrada
não há recados na secretária eletrônica
e mesmo assim, você entende a mensagem.
(A Voz Do Silêncio - Marta Medeiros)

E há o silêncio. Há o silêncio como esta coisa pesada entre os dois. A distância. O silêncio da distância. Ele, sentado do lado de cá, ela, do lado de lá de uma mesma mesa de bar.
Ao redor, todos falavam humoradamente. Ser homem é estar em disposição para o mundo e relacionar-se com tudo a todo o momento. Sentados, encaravam-se e, no entanto, ignoravam aquilo que os rodeava, inclusive o barulho, assim como ignoravam um ao outro. Mas ignorar o mundo não seria lidar com ele? E o que se não nos apresenta que não seja a incômoda ausência, já que é no vazio entre as paredes que se está em casa? O que, se não a frustração, é que nos coloca em contato com aquilo nos vem ao encontro?
A privação do silêncio, portanto, é que os fez perceber que entre eles havia os rumores do calar-se.
- Mais uma cerveja? - perguntou o garçom, quebrando o silêncio e fazendo com que este fosse imediatamente percebido.
- Ah... Sim? - respondeu ele em tom inquisidor, questionando a mulher com o olhar.
- Sim. Pode ser. - Ela sempre tinha esse modo direto de encerrar os imbróglios.
A linguagem é limitada. De que nos vale algo que não nos serve em todos os casos? De que nos serve algo que precisa de complementos outros que não estão a nosso alcance? Não há em nossa língua uma só palavra que descreva a contento o sentimento que pesa agora sobre a mesa. Talvez, uma imagem, uma metáfora, mas nem estas seriam suficientes para descrever o familiar estranhamento da cena.
Melhor seria dizer coisas óbvias, falar de coisas comuns... Jogar palavras fora, vomitá-las, se assim fosse necessário.
Ele, irriquieto, procurara pelos olhos dela que, inertes, miravam a espuma da cerveja que se agarrara na parede do copo após o gole anterior. Subitamente então, ele fora tomado pelo desejo de dizer o que sentia, de abrir o peito, extravasá-lo. Assim, subitamente, é que fora tomado pelo ímpeto de fazer-se aberto, desnudar-se, correr o risco de dizer que, mesmo homem, sente. Desse modo, é que tivera a vontade infantil de dizer o que lhe vem à mente, sem censuras, e de arriscar ser visto como um menino. Sim, apesar da idade semelhante de ambos, ela lhe dissera numa das raras ocasiões em que o silêncio não os constrangera a ponto de instalar-se como uma visita entre eles: "às vezes, quando nos falamos, sinto-me tão envolvida por você que me esqueço... Me esqueço que você é apenas um menino". Era preciso pesar bem, era preciso determinar exatamente o que colocava a perder mostrando-se dominado pelo ímpeto, como só as crianças se permitem, mostrando-se incapaz de controlar seus impulsos, assim como se espera de um adulto.
Ela, ainda olhando o copo, calada, pensava sobre como o silêncio era bem vindo nessas situações desconfortáveis em que não se tem o que dizer. Ou naquelas em que o que se tem a dizer não é exatamente agradável. Preferia ficar calada.
- Que ele não fale nada! - pensava ela.
- Será que devo dizer o que sinto? - ruminava ele.
- Se ele disser algo, respondo secamente e ele se cala.
- Se eu falar como me sinto, talvez ela se abra para dizer como se sente...
- E se não se calar, eu fecho a cara.
- Mas porque será que ela não disse nada até agora?
- Pensando bem... Talvez se eu dissesse que não tenho mais interesse em me encontrar com ele vez ou outra... Bem, talvez ele parasse de me ligar e insistir para que saiamos.
- Será que ela não gosta mais de minha companhia? Mas é que... Bem...
- Nem é que não goste mais da companhia dele. Sim, da companhia gosto. Mas não quero ter a obrigação do sexo vagabundo que fazemos depois do bar.
- É que... É sempre tão bom quando saímos. Nunca encontrei alguém com que me desse tão bem! Somos tão parecidos... No entanto, eu desejo falar e ela, bem, ela permanece em seu silêncio.
- Acho que é melhor dizer logo.
- Se for para dizer que não quer mais nada... Melhor manter-se como um corpo insepulto a minha frente.
E assim, a noite se findou. O sexo vagabundo se consumou. E cada um foi para sua casa, mais uma vez.

quarta-feira, 1 de agosto de 2007

Do medo e seus empecilhos

- Que assim seja!, pensou quando entrava no ônibus. Era melhor não dizer uma só palavra. Melhor não abrir espaço para o diálogo.

Guardou a idéia para si. "Que assim seja!", seguiu o caminho até sua casa pensando. Não é que uma decisão importante tenha sido tomada. Apenas questão de convicções...

Havia tempo que deixava doer em si uma dor. Fora forçado, desde pequeno, a se tornar um indíviduo. Por mais que pedisse à família: "por favor, me engulam", aos 6 anos de idade, no dia do aniversário, ainda assim, pedindo, havia de ser só no mundo. Não, sem antes, tentar desesperadamente agarrar-se ao que lhe viesse ao encontro.

Foi assim, na busca por portos a que pudesse atracar seu barco de indivíduo e torna-se, no mínimo, dois, foi assim que aprendeu a amar. Ou fora assim que nunca aprendera a amar.

Aos 12 anos, conhecera Carla. Carla, adorável, gostava de ver novelas. Passara então, a assistir ao lado dela, todos os capítulos da das sete e das oito, "as melhores", segundo ela.

Aos 13, apaixonara-se por Quintanilha. Não que a menina tivesse esse nome. Família tradicional, Quintanilha. Mesmo amantes, não se sentia à vontade para chamá-la pelo nome, Laurinda, e chamava-a pelo sobrenome da família.

Vivia a família Quintanilha e foi assim que começara a se interessar pelos assuntos da matemática e da economia. Era preciso saber conversar com o Sr. Quintanilha nos jantares de família. Era preciso, desesperadamente, fazer parte daquele mundo que, na verdade, era apenas um mundo: o que importava era fazer parte.

Muitos anos ficou com a menina. 3. Foi quando aos 17 conheceu Paulinha. Quanta amabilidade! Paulinha! Ah! Que saudade daquela época em que corriam que nem loucos de cinema a cinema na cidade em busca dos melhores filmes nos festivais! E do melhor lugar para sentar!

"Paulinha era louca", ele diria! Na verdade era apenas mais velha que ele. Encarava a vida de outro modo. Estudava teatro na federal. Grupo de amigos. Maconha aos finais de semana. E aquele pensamento leve de quem não tem compromissos a não ser consigo mesmo.

Depois, amargou dois anos só. Casa-trabalho, trabalho-casa e muitas sessões de terapia para aprender que não precisava ser o outro para ser gostado pelo outro. E muitas sessões de terapia para aprender que ser indivíduo nem era tão pesado assim.

Como nem tudo, porém, muda, a couraça do indivíduo que ele era permanecera igual em alguns pontos.

E aí foi quando conheceu Daniella num desses sites de relacionamento. Começaram a trocar mensagem esparsas, depois, se falar por um desses programas de conversa... Até que trocaram telefones, endereço... Até que marcaram de se ver... E se viram.

Muito havia em comum! Talvez nunca tanto! Nem era preciso ser outro para ser dela. Ela nem precisaria ser outra para ser dele. Haviam sido feitos um para o outro (?). Os gostos eram iguais. Não surpresa quando, no dia do encontro, por exemplo, a menina exclamara: quando mais nova eu achava que tinha que ser outra para que gostassem de mim e ia mudando de roupagem a cada relacionamento que arrumava. Ou então: desde muito nova eu achava que era pesado ser eu... então, fiz terapia.

No entanto, nem tudo é igual, que seria como lidar com um espelho. Daniella morava próximo ao local deste primeiro encontro. Levou o rapaz até o ponto, sem saber o que ele pensava.

- Como pode? E agora?! Terei que ser eu simplesmente?!!! E como esconder-me de alguém que é tão eu quanto eu mesmo?! Sim... Se gosto? Gosto! Como gosto! Seu cheiro, sua pele, seus olhos! Seus cabelos e seu sorriso! Seu toque... Seu calor... Como gosto! Como dói ter de andar ao lado dela e ouví-la falar sobre as coisas que viveu, sabendo que vamos para o ponto de ônibus e que não mais nos veremos esta noite!... O que fazer, meu Deus?! O que fazer?!... Sim... Que assim seja!

- Que assim seja!, pensou quando entrava no ônibus. Era melhor não dizer uma só palavra. Melhor não abrir espaço para o diálogo.

Acenou um tchau quando ainda passava pela roleta. Daniella sorrira da calçada e acenara de volta. Um beijo? Sim, ela jogara um beijito célere, sem nem ao menos saber que, de hoje em diante, o rapaz decidira: se esconderia dela.

Agosto...

Agosto. Mês do... Mês da criatividade! Isso é o que me dizem os astros... Veremos. Que o mês passado (aliás, bem recém-passado, porque para mim que ainda não dormi, ainda estou em julho) não foi muito produtivo.

Para abrir o mês... Música. Ok, peço desculpas... ultimamente é tudo o que tenho postado, à exceção de um ou outro texto capenga. É assim: criamos um blog com o propósito de só postar textos novos e acabamos, pela vontade de não deixar de postar (ao menos, ela existe, porque já tive outros blogs que morreram de inanição), colocando letras de música, poemas de outrens e coisas afim.

Bem, mas a música vem sendo presente no momento atual... Acho que cabe postar.


Sonnets - unrealities xi - Bjork

It may not always be so
And I say that if your lips
Which I have loved
Should touch another´s
And your dear strong fingers clutch his heart
As mine in time not far away

If on another´s face your sweet hair lay
In such a silence as I know
Or such great writhing words as, uttering overmuch
Stand helplessly before the spirit at bay

If this should be, I say if this should be
You of my heart, send me a little word
That I may go unto her, and take her hands saying
Accept all happiness from me
Then shall I turn my face
And hear one bird sing terribly afar in the lost lands.

terça-feira, 31 de julho de 2007

Last Goodbye

This is our last goodbye
I hate to feel the love between us die.
But it's over
Just hear this and then I'll go:
You gave me more to live for,
More than you'll ever know.

Well, this is our last embrace,
Must I dream and always see your face?
Why can't we overcome this wall?
Baby, maybe it's just because I didn't know you at all.

Kiss me, please kiss me,
But kiss me out of desire, babe, and not consolation.
Oh, you know it makes me so angry 'cause I know that in time
I'll only make you cry, this is our last goodbye.

Did you say, "No, this can't happen to me"?
And did you rush to the phone to call?
Was there a voice unkind in the back of your mind saying,
"Maybe, you didn't know him at all,you didn't know him at all,oh, you didn't know"?

Well, the bells out in the church tower chime,
Burning clues into this heart of mine.
Thinking so hard on her soft eyes, and the memories
Offer signs that it's over, it's over.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Ah! Tenho que dizer

Gente, sei que isso não é texto que se publique... Mas é que preciso.

Cheguei tarde do trabalho hoje. Ouvindo "Cocteaus Twins", "Wax and Wane". Deitei na cama. Soltei o corpo pesado do dia de trabalho e aí veio uma vontade doida de dizer isso que digo agora:

- Lucas e Magrela, amo muito vocês!!!!

Da paixão pela idéia ou Sobre o Opção Deliberada pelo Platonismo

Os olhos vidrados pela janela. Esquadrinhavam o exterior, a rua, as pessoas. Tudo viam, sem nada ver. Sem ver aquilo que queriam.
Curioso como o mundo se nadifica para que salte aos olhos aquilo que o coração quer ver. Pela janela, o mundo nadificado, o nada sobressaía. Até então não havia encontrado o que procurava.
- Por favor, o senhor poderia dobrar naquela rua? - pediu ao motorista do táxi.
A corrida já se delongava. O dinheiro ainda daria, mas era preciso vigiar o taxímetro que, aos poucos, comia-lhe a esperança de encontrar o que procurava pelas ruas da cidade.
Era um desconhecido ali. E aquele lugar, aquela cidade, aquelas ruas, também eram suas desconhecidas. Tudo era novidade, menos aquilo que trazia dentro em si ao sair de onde morava para aquele lugar estranho.
- Senhor, o senhor procura algum lugar específico? - perguntou o taxista. Talvez possa lhe ajudar... Algum hotel? Alguma loja? Empresa?...
- Não, procuro uma pessoa, mas imagino que o senhor não conheça... - era puro demais de coração e, acostumado ao mundinho pequeno do lugarejo onde conhecera a menina, pensava que em qualquer lugar do mundo todos eram conhecidos uns dos outros, todos confraternizavam-se. Idéia mais absurda era pensar que no mundo, em que toda a gente era igual a toda a gente, as gentes não se conheciam e não se davam atenção!
- É, realmente acho difícil...
- Bem, chama-se ---.
- É que aqui é muito grande, senhor. Há tantas pessoas com esse nome que o senhor seria incapaz de fazer as contas!
- Olha, ela me disse que trabalhava com coisas de televisão...
- O senhor sabe ao menos onde mora esta pessoa?
- Ah! Sim! Sei que mora numa rua com árvores, num desses prédios que as pessoas dividem o espaço e moram apertadinhas.
- Entendo... - respondeu o motorista olhando em estranhamento pelo retrovisor. De onde saíra aquele rapaz? Não importa! Fato é que desconhecia o mundo. - Onde a conheceu?
- Na minha cidade. Ela estava lá... Fora conhecer as coincidências da vida, me disse. Contou que um dia estava lendo um livro desses que se lê na faculdade e que pensava, desde que começara a folhear as primeiras páginas, num nome. "Guarapiúna", ela disse. É o nome de minha cidade. E a tal história do tal livro se passava exatamente lá. Agora veja! Um livro que fala daquele canto de mundo... E começou a ler o livro mais avidamente, então, já que adivinhara o nome do lugar onde se passava a história.
- Vá ver já tinha ouvido falar que o livro se passava na tal cidade. E vai ver é por isso que quando pegou o livro pra ler, a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi o tal nome. Mas é que se esqueceu e daí a sensação de coincidência...
- É... Pode ser. Mas no mesmo dia, me contou que foi pra uma festa com as amigas. E lá chegando, conheceu essa menina no balcão do bar da boate. "Guarapiúna, prazer. E você?", lhe disse a menina. O senhor há de concordar: é muita coincidência...
- Pois é. Coisas da vida, né?
- E aí foi conhecer a cidadezinha. Chegou lá numa tarde de sexta-feira. E passou o final de semana. Chegou com uma mochila pesada nas costas. Livros. É dessas que gostam de ler. E eu estava bem no ponto bem na hora que ela desceu do ônibus. A mochila arrebentou de tanto peso. E ela se abaixou para catar todas aquelas coisas... Roupas e livros. E o primeiro que segurou era "Laços de Família", não sei se o senhor conhece... É o único livro que li em toda minha vida, o senhor não vai acreditar! - os olhos ainda vidrados na rua enquanto ia conversando, ainda a procura da menina. - Não acredito em destino, mas numa situação dessas a gente até se questiona...
- Pois é...
O taxímetro chegava ao valor limite. R$50. Era tudo o que ele tinha para gastar naquela hora. No mais, apenas o dinheiro para se alimentar até o final do dia e para voltar para a rodoviária e pegar o ônibus. A passagem de volta, já comprada, ia no bolso da calça, para que pudesse sempre se certificar de que não a tinha perdido, colocando a mão por sobre o bolso para sentir o papel dobrado ali dentro.
- Senhor, o senhor pode encostar. Vou descer aqui.
- OK.
Parara em frente a uma grande magazine. Tudo naquela cidade era grande. Os prédios. As lojas. As avenidas. Andando pelas ruas lentamente, olhos em riste a procura da menina, começava a desanimar de sua busca. Sim, era melhor admitir: nunca a encontraria...


A tensão aumentava a medida que ia dando seus passos em direção ao desconhecido, que era tudo a seu redor. Não estava acostumado com tantas pessoas pela rua. Não estava acostumado a não ser ninguém em meio à concretude dos prédios e carros.

Os ombros, outrora erguidos, iam aos poucos caindo. O rosto, exultante em excitação, perdia as feições de alguém em busca de seu desejo mais profundo. Até mesmo a clareza que tinha quanto aquilo que sentia ia se esvaindo a cada rua, a cada pessoa por que ele passava.

Duas horas depois, um lanche rápido - o que lhe renovara as energias - e um papo rápido com o rapaz sentado ao seu lado na lanchonete, caminhava novamente pela rua e avistara lá adiante... Seria ela? O cabelo era parecido. O modo de andar. Cada um dos movimentos... Não ficara muito tempo com a menina. Apenas todos os dias de um final de semana. O suficiente para acreditar conhecê-la, o suficiente para arriscar e sair de sua cidade em busca do que desejava.

Apressou o passo. Sim, era ela. Havia de ser ela. Muito parecida. E seria, mais uma vez, a coincidência, aquilo que tanto conspirara a favor do primeiro encontro de ambos, que lhes faziam esbarrarem-se numa cidade tão grande como aquela?

Já próximo, quase podendo tocá-la nos ombros, exclamou:

- ---!

Ela virara o rosto espantada. Algum conhecido? Sim, ao menos ouvira seu nome.

Ele lhe acenava. As mãos para cima. Em profundo êxtase, acenava para a menina. Por fim, haviam se encontrado... Mas... Não... Não era ela que vinha ao seu encontro de braços abertos... Não era ela! Vira a menina abrindo os braços e o sorriso, mas não era ela! Vira a menina se aproximando para um abraço. Talvez um beijo... Mas não era ela!

Fechou a cara e, desviando-se do abraço, partira em disparada para o ponto de ônibus mais perto.

- Por favor, o senhor sabe me dizer o número do ônibus para a rodoviária? - perguntara e, recebendo a indicação, entrara rapidamente no ônibus. Ainda pudera ver, lá de dentro, a cara de estupefação daquela menina. Muito parecida com a sua ---, mas não podia ser ela.

E voltou para casa, apaixonado pela idéia que negara-se ser frustrada pela realidade. Voltara para casa, o peito extravasado em dor pela idéia de --- que quase se perdera naquele breve encontro com... ela?

quarta-feira, 25 de julho de 2007

Kiss me! Please, kiss me! But kiss me out of desire, baby, and not consolation!

(Jeff Buckley - Last Goodbye)



Se vejo na rua um deficiente e seus passos lentos, meu pensamento não deixa de pensar que devagar se chega longe. Sinto-me mal com este pensamento. Descaso com a desgraça alheia? É que há tantas desgraças! e nenhuma, de fato, é alheia.


Tento desviar o pensamento, mas me esqueço que quando caio na deficência do velho em seu caminhar já é desvio. Tudo são desvios.

A vida é uma burocracia chata. E adoro preencher seus papéis, assinar. Me falta o carimbo, contudo. A validação. A certeza da aceitação, com protocolo e assinatura do recebedor.

Queria saber da vida grandes coisas. Mas tudo o que sei é que ela é burocracia pura. As etiquetas. As relações. A boa-educação. Pudera mandar tudo isso para o inferno, mas já não teria uma vida, pois fugiria da burocracia que ela, em si mesma, é.

Uma vida desburocratizada é uma vida de compromissos solipsistas e fujo de mim. Prefiro preencher a papelada e requisitar meus documentos a arriscar encarar a mim mesmo e apenas. Prefiro ter a certeza de poder encarar os outros e deles cobrar as respostas certas.

terça-feira, 24 de julho de 2007

O viandante

Quero perder-me de mim e no perder-se, deixar-me ver a mim mesmo, como que distante.

O que veria?

Imagino que veria um viandante. E que este ia errante pela estrada. Uma estrada longa, um pouco sinuosa, mas que tinha sempre um mesmo caminho, uma mesma direção: adiante. E que nessa estrada, veria o viandante zigue-zagueando, em busca de troncos e coisas seguras na beirada, coisas a que pudesse se prender e tomar como garantias, parando assim de caminhar.

Mas se parasse de caminhar, não seria viandante. E sabia-se viandante. Foi por isso, por saber-se sem saber que sabia-se, que deu-se conta um dia de que não era necessário correr para as margens em busca de algo a que pudesse se prender: bastava caminhar e ir conhecendo estas coisas que lhe passavam pela lateral, relacionar-se com as coisas e deixá-las seguir o rumo próprio ao passo que ele mesmo seguia o seu.

Foi assim que decidiu (e isso, posso ouvir e precisar o momento exato em que ouvi): Vou deixar-me viver.

Viu passarem árvores, troncos, pequenas ramagens, pedregulhos. Aproximou-se deles. Deixou-se ali ficar. E partiu, sem medos, sem arrependimentos.

Foi quando lá na frente, bem lá na frente na estrada, avistou uma grande lagoa.

Apressou o passo para chegar mais rapidamente ao lugar, tão interessante e certo visto assim de longe.

Lá chegando, avistou toda a extensão daquele lago, dando-se conta de que não se tratava de um lago, mas apenas de um grande rio que passava por ali. Aquele amontado de água que vira lá de longe era nada mais que um remanso do rio que, lenta e placidamente, seguia seu rumo em busca da foz onde, um dia, de fato se entregaria e de fato se deixaria ficar.

Nosso viandante, outrora decidido a não aprisionar-se a nada que lhe aparecesse no meio do caminho, decidira deixar por um instante suas bolsas e despojar-se de suas vestes e banhar-se tepidamente nas águas plácidas e limpas do rio.

Aquela água era tão prazenteira. O modo como lhe tocara o corpo num primeiro instante, fazendo os pêlos eriçarem-se e pequenos calafrios subirem pelo dorso. E o modo como ela, a água, tirara dele as sujeiras que lhe embaralhavam as vistas, deixando-o ver a estrada que ele deveria seguir de modo mais claro.

Aquela água, tão prazenteira, fizera o viandante querer prender-se novamente a algum lugar. Mas e sua decisão anterior? De que lhe valeria se se deixasse ficar ali, abandonado às margens do rio?

Decidiu então por um dia entregar-se ao rio. Como seria? E passou toda a extensão de um dia banhando-se naquelas águas.

Ao final desse dia, porém, deu-se conta de que a água que por ele passava, passava e segui seu curso, em busca da tal foz a que se entregaria no fim. Não era o mesmo rio, o filósofo já lhe alertara um dia, não era a mesma água; quiçá aquela ali era a mesma margem, que a brisa leve carregava folhas e um pouco da terra.

Assim, nosso viandante despediu-se do rio, vendo toda aquela água deixar-se ir pelo portão formado pela margem na parte em que se estreitava, cinco metros mais abaixo de onde ele e o rio haviam se encontrado e sido cúmplices.

Vestira sua roupa, pegara suas bagagens. Hoje, tenta andar novamente pela estrada, resistindo de novo e a cada segundo ao desejo de retornar ao remanso regozijante do rio que segue.

A imitação de Machado

Face aos últimos acontecimentos, pensava ensimesmado:

.
...
.
?
.
???
!??!
?!
.
...!
?...
...;...;...

E tentava encontrar as definições que lhe eram tão caras. Mas não havia nada que pudesse lhe dar a certeza, que a vida são incertezas que constituem.

segunda-feira, 16 de julho de 2007

Twentysomething

Ouvindo músicas enquanto conserto erros em planilhas do Excel no trabalho (sim, dizem que é preciso muito conhecimento em Psicologia para isso...), Jamie Cullum, esse jazzista inglês, começa a cantar.

Sabe como é... Enchemos o computador com música e nunca damos muita atenção a tudo o que temos. Gosto da voz dele desde a primeira vez que ouvi. As músicas, bem, uma ou outra é nova, mas ele tem esse jeito de trazer as antigas de um jeito bom (não melhor, mas bom).l

ENtão ele começa a cantar essa música que dá nome ao álbum, "Twentysomething". Não sei, mas acho que o nome pra isso é "identificação", ou "projeção"? Aliás, quando termina a projeção e começa a identificação e vice-versa...?

After years of expensive education,
a car full of books and anticipation,
I’m an expert on Shakespeare and that’s a hell of a lot
but the world don't need scholars as much as I thought.

Maybe I'll go travelling for a year,
finding myself or start a career.
I could work for the poor though I’m hungry for fame
we all seem so different but we're just the same.

Maybe I'll go to the gym, so I don't get fat,
are things more easy with a tight six pack?
Who knows the answers? Who do you trust?
I can't event separate love from lust.

Maybe I’ll move back home and pay off my loans,
working nine to five answering phones.
Don't make me live for my friday nights,
drinking eight pints and getting in fights.

I don't want to get up, just let me lie in,
leave me alone, I'm a twenty something.

Maybe I'll just fall in love that could solve it all,
philosophers say that that’s enough,
there surely must be more.

Ooooh Love ain’t the answer nor is work,
the truth alludes me so much it hurts.
But I’m still having fun and I guess that's the key,
a twenty something and I'll keep being me.

domingo, 15 de julho de 2007

A carta de (des)amor

Cansei desse jogo e de suas palavras. Das regras subentendidas. Já não te ligarei mais ou tentarei qualquer contato. Prometo: esta é a última vez que me dirijo a você, quando a necessidade se faz presente pela objetividade.
O que houve entre mim e ti ficará sempre como uma lembrança. Indelével é a marca daquilo que se vive. Só o que não vivemos é que podemos esquecer, como um desejo recalcado: nunca esquecimento de fato, mas ainda assim um modo de não lembrar.
Já não sou mais quem você disse amar. Já não sou mais quem te amou um dia, naquele dia em que, como uma criança cansada do pique-esconde, decidi sair do esconderijo e fazer-me aberta; quando me coloquei a teus pés, desnudei-me inteira diante de seus olhos e mostrei-te o que tenho de mais íntimo. Meus sentimentos expostos e suas respostas escarradas sobre mim.
E ainda tentei contato algumas vezes. Diga: porque não atendeu sequer uma vez para me dizer que não queria? Isso faz parte desse jogo ridículo de adultos? Nos jogos de adulto jogo como uma criança.
Lembra-se do primeiro dia? Andando pela grama do aterro como se não existisse mais nada além de nós. E o sol, testemunha do momento, nos corando a pele. A brisa do mar. "Sinto frio", eu disse. Era apenas a deixa para o abraço... E para o beijo que veio depois, que viria a ser apenas o ensaio para o amor, aquele amor ridículo do final do dia, mas que me deixava satisfeita como mulher e como sua amante.
Mas escrevo-lhe apenas para dar direções. É que ainda há coisas suas em minha casa. Sabe que careço de espaço por lá. Por favor, passe para buscá-las, deixarei na portaria com o senhor que fica lá pela manhã.
Os CDs ficam comigo. Aquelas bugingangas da feira de antigüidades também. Estive lá outro dia e aquela senhora da barraca de vinis lembrou-se de mim e perguntou por ti.
Quando precisar, pode bater a minha porta. Não negarei atenção, como tem feito. Penso "talvez ele não precise disso", mas tenho necessidade de dizer.
Ana, aliás, encontrou comigo por esses dias na rua e perguntou como tenho estado. Fui sincera. Espero que ela não tenha lhe incomodado com minha vida. Por via das dúvidas, decidi parar de responder a seus amigos. Alguns ainda me mandam e-mail. Não sabem do fim?
Enfim, quando me olho no espelho, não vejo a mesma. Queria olhar-me e ver aquela que sabia amar, mas o amor romântico ficou preso no século XVIII. Sempre acreditei ser capaz de transpor o tempo, mas aprendi (e isso devo a você) que isso não é possível. Perdi, com você, a capacidade de amar. E há quem diga que isso foi, na verdade, a melhor coisa que ganhei com esta relação...
Por fim, desejo-lhe o melhor: que um dia, ao menos um dia em toda a vida, consiga olhar para alguém e dizer realmente o que você sente, sem precisar daquelas piadas de que só você acha graça.
Com afeto,
Beatriz

quarta-feira, 11 de julho de 2007

Sobre pessoas e pessoas

As coisas são várias. É como dizem: há filmes e filmes. Eu assistiria a trilogia do Iñarritu novamente, mas não veria a trilogia das cores do Kieslowski. Mas eu veria "Inferno", legado deste último, que até do mesmo idealizador há filmes e filmes.


Assim como vejo "The Wall", do Alan Parker, a cada vez que me convidem, mas evito ver "Evita" e nem tenho nada contra a Madonna.


Há músicas e músicas. Músicos e músicos. Pintores e pintores. Livros e livros, bem como autores e autores. Sendo assim, certo é que há pessoas e pessoas e todo o texto até aqui parece clichê.





Era uma vez uma terra muito, mas muito distante mesmo, em um lugar em que nem se imaginava possível ainda haver vida. Lá, nesse lugar, havia vida. Havia essa pequena família de agricultores. Conheciam tudo muito bem. As estações do ano; as horas de acordo com a posição do sol; o ciclo de migrações dos pássaros canoros; a data exata da queda das folhas da Gertrudes, a mangueira do jardim; o momento exato em que o filho mais novo da família se apaixonava pela chuva a cada vez que a via cair do céu com aqueles olhos reluzentes e com o nariz fungando o cheiro de terra molhada; a hora em que o avô ia falar à mesa, que era a hora de todos calarem-se; o momento em que o pato assado de domingo estava pronto, que era o mesmo tempo em que a gata Dinorá saltava do alto do galinheiro, onde vigiava atentamente o movimento das galináceas, e ia dar miando debaixo da cadeira do pai. Sabiam quando Dora menstruava, que a menina, muito faceira, trazia sempre nessas datas um olhar trigueiro e culposo no rosto, como se houvesse cometido o crime mais delicioso que fosse possível a uma mulher. E sabiam o que era possível a uma mulher: cozinhar, limpar a casa, lavar a roupa e as louças, enfim, tudo que dissesse respeito ao cuidado familiar, tudo aquilo que fazia-as ter orgulho de serem mulheres e poderem, como que por graça divina, cuidar daqueles que chamavam, ao cair da tarde, de "meu homem".


Sabiam da vida. Como viram os dali partir. Sebastião, a esposa e os cinco filhos; Quinzinho da venda e sua bicicleta Nara; D. Maria das Dores, já idosa, levada para o asilo pela filha mais velha que morava na cidade grande desde bem mocinha; Ângela e suas meninas do "centro de lazer"; Sêo Geraldo, os filhos, netos, bisnetos e noras... Todos idos para a cidade grande. É que lá poderiam ver o mundo. Não só ver, mas experimentar aquilo de que só ouviam falar no rádio.


Os pássaros canoros foram e voltaram e as folhas de Gertrudes, já amareladas, caíam pelo terreiro. Ginho filho, o menino - já moço - que anos passados se emocionava com a chuva, limpava o quintal com o ancinho todo final de tarde.


- Já falei pra painho que um dia me vou embora - resmungava ele, mas sentia-se culpado só de pensar em deixar os pais ali, esquecidos naquela terra.


Nesse tempo, já não se sabia muita coisa por ali. O avô falecera e não havia o silêncio sepulcral na hora das refeições. A gata Dinorá, já velha, nem queria saber de vigiar as galinhas ou de miar debaixo da cadeira do pai que, idoso, urinava pelos cantos da parede por ter desaprendido a utilizar o urinol. O pato assado nem era suculento que a mãe errava no tempero, as vistas cansadas tentando medir o sal e o alho. E a menina... Mãe de dois, casada com Elvécio, ida para a cidade aos 16. Nem ao menos a natureza se conhecia que a Gertrudes já dava mangas fora de época e o sol nem parecia seguir o mesmo ritmo, delongando-se por minutos a mais no horizonte a cada dia. Os pássaros, até mesmo eles, escassearam por ali e agora formavam nada mais que uma pequena revoada.


Ginho filho, anos depois, conseguira nos Correios da cidade vizinha, telegrafar uma carta para Dora, que veio com o marido e as crianças no Fusca buscá-lo para a cidade grande. Iria tentar a vida ali. "Ao menos, experimentá-la", pensava crendo ser o único a ter esta grande idéia. Disse ele:


"Irmã pt Todos partiram pt Estou so na casa pt Papai mandou dizer que te ama antes de partir pt Mamãe também pt Não escrevi antes que o correio é caro pt Enterrei no cemitério atrás da casa junto de vovô pe Quero ao menos experimentar a vida na cidade pt Sds"


Os filhos de Dora já eram crescidos. Joana e Ginho neto. E Ginho filho já se adaptara ao novo ritmo. Cidade grande, muito movimento. Assustava-se às vezes, logo no começo, com tanto corre-corre. Mais susto ainda tomava quando olhava para o céu em noites escuras, noites de "sem-lua", e não via as estrelas, apenas o clarão das luzes avermelhadas refletidas nas esparsas nuvens. Mais ainda, porém, surpreendia-se com como a chuva perdera o sentido: não molhava a terra e o cheiro de poeira, que era o que mais lhe tocava quando novo, tornara-se o cheiro vaporoso do asfalto da rua no final do dia.


Por insistência da irmã, entrara na escola já tardiamente. "Vai ser bom pra você arrumar emprego, Ginho", dizia ela. Em sua sala, conheceu Zefa, com quem criou profundos laços de amizade. Ginho filho e Zefa tornaram-se amigos inseparáveis, o que era incompreensível, posto que já tinham mais idade e poderiam bem casar-se. Mas não era desse amor que sentiam um pelo outro. Ginho filho chegou a dizer à mulher em uma ocasião: "é como se você fosse minha família sem sê-la de fato. Minha família de cidade grande!".


E entrou para a família "não-de-fato" de Zefa, que apresentou-lhe a vida desconhecida por ele. Os bares da cidade. Os recantos. As estações de trem. As escadarias customizadas dos bairros boêmios. As grandes salas de projeção com sons tridimensionais e os filmes antigos com imagens surrealistas que o deixavam maravilhado: "Quando eu era mais novo e via o sol se pôr, eu via essas cenas na minha cabeça tirando um cochilo encostado em Gertrudes no terreiro. Ficava lá até mainha me mandar entrar que o jantar estava posto", dizia ele.


Zefa, já sem saber a que apresentar a Ginho filho, teve a esplêndida idéia de apresentá-lo ao resto da família "não-de-fato" que tinha. Zefa nunca fora afeita à famílias "de-fato".


Nesse dia, combinaram de encontrar-se numa das ruas do Centro, que ela lhe apresentaria outro grande irmão "não-de-fato" e ele estava lá, na hora marcada, a espera do desconhecido. Suas mãos e seu rosto suavam e a cada vez que tentava limpar o suor da testa dava-se conta de que só se lambuzava mais com a água salgada de nervosismo e ansiedade que lhe saía pelos poros.
- Ginho, esse é Tenti, meu amigo - disse ela.
- Sim, Tenti. Prazer - e estendeu a mão que, apesar de já haver tempo que não trabalhava no roçado, ainda era bastante calejada. Onde vamos? Que tal ao "fassfudi"?
- Fast-food - corrigiu o rapaz em inglês impecável.
E partiram os três para a lanchonete mais próxima, onde Ginho pedira um sanduíche duplo com refrigerante grande e batatas pequenas. Já não era novidade para ele aquele tipo de comida, mas por ter passado boa parte de sua vida sem experimentar qualquer daquelas coisas, achava tudo maravilhoso. O tempero incomparável ao sal com alho de sua falecida mãe. Sem falar na agilidade! Sentia-se como que senhor de cada um daqueles atendentes a quem pedia em pensamentos: "Tragam logo meu sanduíche senão reclamo de vocês" ao mesmo tempo em que pedia humildemente: "Boa tarde, senhorita, poderia me dar um sanduíche duplo com refrigerante grande e batatas pequenas, se isso não lhe for muito incômodo?".
Ao ver esse pedido, Tenti riu-se e, percebendo o olhar furioso de Zefa, afastou-se, sentando em uma das mesas para contemplar de lá o show de estranheza que desfilava diante de seus olhos. Como poderia haver no mundo quem fizesse um pedido como aquele rapaz fazia?!
- E de onde se conheceram? Em algum show de peão? - perguntou Tenti ironicamente.
- Não, no supletivo - respondeu Zefa, sem perceber o tom do irmão "não-da-fato".
- É, minha irmã insistiu para que eu estudasse. Dei a sorte de conhecer uma pessoa tão boa quanto Zefa na escola. Quando eu era criança e ouvia no rádio de pilha de meu avô sobre livros e estudos, pensava como eram essas coisas - falou Ginho filho.
- Como assim?! Você não conhecia livros?! Pois deve estar brincando! Todo o mundo conhece livros! De onde você tirou esse cara, Zefa?
- Então, ele vem desse lugar muito, mas muito longe onde hoje acho que nem tem vida, certo? - direcionou ela a pergunta para Ginho.
- Sim... Bem, Gertrudes deve ter morrido já que estava velha e Dinora... Não acho que tenha tido filhotes.
- Gertrudes? É o que? A galinha de estimação da família? - disse Tenti em tom de deboche.
- Não! A árvore! - respondeu Zefa encabulada, já percebendo o tom subjacente nas falas de Tenti.
- Sim - confirmou humildemente Ginho, começando a notar que a conversa não parecia estar seguindo muito bem. Não sentia-se bem com aquele irmão "não-de-fato" que Zefa lhe apresentara. Não mais.
Ginho filho naquele dia compreendera o que seu avô disse uma vez na mesa, quando todos calavam-se: "Meus queridos, na vida há aqueles que conhecem o que é viver e aqueles que só leram sobre".

domingo, 8 de julho de 2007

Dos factuais I

Meu corpo é meu fato. Em sua concretude, me interpela e me fala baixinho, como que sussurrando palavras doces ao meu ouvido: "aceita-me ou te devoro", parodiando a esfinge de Édipo.

É que há a insegurança cotidiana e a possibilidade de que no mundo existam coisas muito melhores que meu próprio corpo. Gostaria de fazer plásticas e modificá-lo. De que nos vale o mundo senão para que possamos interferir nele?

Meu corpo é um fato, mas não é meu fato. É meu incômodo. Quero modificá-lo ou modificar a idéia que tenho dele.

Já tentei de tudo: de dietas a exercícios, de não vê-lo a contemplá-lo diante de um grande espelho. Tento ver através de suas carnes aquilo que sou, mas ele sempre se interpõem, colocando-se exatamente no meio do caminho entre o que sou e como me vêem. Não sou meu corpo, mas pensam que seja e temo que fique só por isso. Vejo a beleza que há por dentro das pessoas e me apaixono por elas, mas não há como garantir que farão o mesmo.

Apenas...

Feliz. Exactement.

terça-feira, 3 de julho de 2007

Cthulhu

Não leiam este post aqueles que procuram um conto, uma história, ou qualquer coisa do gênero. Nem será bem escrito (se é que os outros o são...). Mas é só que tenho essa idéia, essa coisa, e preciso colocar pra fora.

Sabe Cthulhu? Pois é, eu também não sabia. Mas agora sei. Vou retirar do mito apenas a parte do "Messias", de que tipo, Cthulhu era como um messias. E por ter tido uma educação católica, por Messias entederei algo bem como Jesus Cristo, uma parada muito "totalmente" foda! (Ps.: Não, gente, não virei evangélico... é só para vocês entenderem. Imagine que eu seja um daqueles caras que paga dízimo de salários inteiros e acredita em cada coisa que o pastor diz e faz o maior esforço para seguir aquilo porque quero ser como Jesus, entendem?).

Pois é... Não tenho amigos. Tenho Cthulhus.

Estou há mais ou menos uma semana tentando achar uma imagem. Esbocei uma tentativa naquele post por aí abaixo que fala sobre verdade, sobre relacionamentos coesos etc... Mas é que não consegui escrever lá. Acho que hoje achei a tal imagem. Mas não dá pra escrever um conto pq seria cafona. A vontade é de gritar isso da janela bem agora: tenho Cthulhus em minha vida! E como sou feliz por isso!