Google

terça-feira, 4 de setembro de 2007

De:Fernando Sabino Para: Clarice

"Não acredito que você tenha chegado a um ponto de onde não possa mais sair. (...) Não acredito porque ninguém chega a ponto nenhum, Clarice, com uma entrada e uma saída. Você está simplesmente passando, como a Elianinha passou por aqui. Está sofrendo e chorando como a Elianinha, porque tomaram o seu brinquedo. E ninguém te engana com um maço de cigarro, você de repente não é criança mais. É uma fase: e você vai saber o que dizer, quando fizer uma confissão que salve tudo. Nem que seja para você mesma. É horrível mesmo ver você presa num círculo de giz. Sei que é uma fase porque você diz que interrompeu o seu trabalho, achando que é talvez para sempre. Acredito que outras vezes você já deve ter interrompido o seu trabalho achando que era para sempre. Se fosse mesmo, todo mundo perceberia, até no seu jeito de olhar, no jeito de sobrescritar um envelope. Menos você mesma. Você própria não notaria, teria "tranferido", outra coisa teria nascido em você. Mas não vejo jeito de você ter mudado. Na sua carta diz mesmo que não vê começo de uma coisa nascendo. Eu não vejo nada morrendo. O que você deve ter não é um problema, mas muitos problemas, que podem ser horríveis, mas são muitos, portanto não são você, apenas te prendem - e eu gostaria mesmo que você pudesse abrir seu coração e se libertar, Clarice. Creio muito em você, tanto quanto às vezes em mim mesmo. De repente descreio violentamente: tenho medo de nós falharmos. Tenho os meus problemas, e outras vezes é meu livro que me desespera"

Fernando Sabino para Clarice Lispector, em 3 de agosto de 1946.

O Retorno

Não tinha suspirado, não tinha beijado o papel devotamente e nem era a primeira vez que (aqui devo mudar e não mais parafrasear) sentia aquelas sentimentalidades, como diria um Eça há tempos atrás. É que na modernidade, ainda há papel mas este quase não se usa, é melhor não suspirar profundamente que o ar nos grandes centros é sujo e, apesar de não ser a primeira vez que sentia tais sentimentalidades, era a primeira vez que as sentia daquele modo.
Já havia muito que não se falavam propriamente. Já havia muito que ele deixara de lado o medo de perder e substituído pela vontade de desistir. É que o medo tem desses meandros: faz-nos crer que queremos aquilo que menos desejamos, aquilo que é exatamente o oposto do que esperamos. As longas conversas noturnas haviam sido trocadas por breves palavras ao telefone ou pequenitas mensagens ao longo do dia.
O retorno daquele que se gosta, de esperado, passou a ser temido: como seria o reencontro? Depois de tanta distância, como resgatar a proximidade? Seria necessário um grande esforço, pensava ele. A esta altura, já deve estar gostando de outra pessoa, daquele que o acompanha, já deve ter desistido e voltado à sua vidinha, pensava.
Eis que chegara o dia do retorno. E, tremendo pelo encontro, marcara outros compromissos e não foi esperar pela pessoa, como desejaria fazer. Ausentou-se... Melhor ausentar-se do que correr o risco de perceber que, de fato, tudo o que temia era verdade, que realmente havia perdido.
E então chega em casa e encontra por sobre a cama uma pequenita mensagem: "Espero-te. Venha.". Mas não foi. AO invés, deixou outra mensagem: "Não pude, demorei demais na rua com amigos", ao passo que o que queria dizer era: "Perdão, mas tive medo".
Entretanto, nem tudo pode-se evitar. Não sempre. E no dia seguinte, o reencontro se deu.
Como diz Kundera: era como se entre um e outro houvesse uma planícia gigantesca, repleta de gelo, neve. Havia o frio instalado entre ambos. E conversaram sobre ele.
Na vida, as coisas são assim: é quando menos esperamos, quando mais tememos e quando começamos a notar que os caminhos que não queríamos é exatamente aquele que percorremos, é nesse momento que tudo começa a arrumar-se. Pois foi assim: quando começou a pensar que não tinha jeito e que realmente havia perdido no jogo do gostar, começou a recuperar o tempo perdido. Começaram, melhor dizendo.
A neve, o gelo, o frio, rapidamente se desfizeram. O calor novamente. A luz. O acalanto.
Assim foi o retorno. Assim foi o reencontro. Assim é o recomeço.

Explicaçãos aos posts

Queridos leitores,

Segue abaixo uma série de contos antigos. Acho que dá para notar que são antigos pelo estilo: são um pouco mais confusos do que os atuais, menos diretos. Eram tempos de confusão interna maiores que os atuais, tempos de meias-palavras. Enfim. Encontrei-os nesta pasta do computador do trabalho e, por medo de perdê-los por completo um dia, decidi postá-los.

Há um que é novo. Que é de hoje mesmo. Chama-se "Da escatologia" e está ao final de todos os posts desta data, ok??

Enfim, só para constar mesmo rs.

Beijos a todos (que, sei, não são muitos rs)

Bernardo e o Vazio

O sentimento de vazio era ainda grande. Como não sentir-se esvaziado em situações como essa? A dor que sentia devia-se mais, porém, à solidão que ao vazio que sentia. Mas não seria o vazio fruto da solidão? Se sim, podemos dizer que o vazio tinha parte nessa dor.

Júlia era uma mulher bonita. Cabelos compridos até quase os quadris, escorridos e em tom amarronzado desses produzidos por grandes empresas de cosméticos. Mesmo não lhe sendo natural, a cor dos cabelos lhe caia muito bem e parecia ter nascido assim já. Os olhos castanho claros, a depender da incidência solar, mostravam-se verdes. Melhor mesmo era quando eram da cor que eram de fato, pois eram realçados pela cor anti-naturalista dos fios grossos e pesados que desciam pelo seu corpo.

A pele branca e salpicada com algumas sardas na altura dos ombros dava um tom de experiência de vida unida à vontade de viver. Há quem pense que experiências de vida diminuem a vontade de viver justamente pela sensação do já-vivido, mas esse não era o caso de Júlia. Sentia-se a vida, seu cheiro, exalando por cada um dos poros daquela mulher.

Fora isso que o fascinara. Bernardo vendo Júlia pela primeira vez teve certeza de nada ter vivido em sua vida. Ela entrar na livraria e partira direto para a seção de Filosofia. Como uma mulher bonita poderia interessar-se por tais assuntos, questionu-se Bernardo, sem nem parar para pensar como estava sendo paradigmático. Sim, gostaria de aproximar-se, mas não poderia. Era tímido demais para isso. De onde estava, detrás da prateleira de livros de Psicologia, ele poderia olhá-la por mais alguns minutos e isso já seria o suficiente.

Isso poderia ter sido suficiente não fosse a angústia rasgando e queimando seu peito. Alguma coisa naquela mulher o atraía. O olhar decidido de Júlia percorrendo a prateleira o encantava cada vez mais. Viu que ela agora puxava um livro. Estava de frente para ela, bem na direção em que ela estava. Não poderia ver qual era o livro e nem ter certeza se ela, de fato, retirara algum da prateleira, mas pelo que viam seus olhos, imaginava que sim.

Enregelou-se por dentro quando o olhar de Júlia subira dos livros e encontrara os dele. Desceu o olhar e tentou agir como se estivesse olhando para o nada ao invés de como se olhasse para ela.

Júlia não havia notado aquele homem ali na prateleira de Psicologia. Não até que visse que ele a olhava. Não se interessara por ele de primeira, embora mais tarde viesse a dizer que sim: a idéia do amor a primeira vista ainda encanta os humanos que, num mundo de "viver sem fronteiras" em que faz-se "mais que o possível", tudo deve ser vivido como se fosse capa de uma revista de moda. Seria mais "primeiro-capesco" dizer que seu coração palpitara por ele desde que o vira desviando sorrateiramente o olhar.

Júlia, mais madura e experimentada que Bernardo nas coisas do amor, decidira sentar-se no café da Livraria, uma vez que Se ele quiser, virá me encontrar, pensou ela.

Bernardo seguiu-a minutos depois. Tomou o cuidado de sentar-se numa mesa bem em frente àquela em que a mulher se sentara. Trocaram olhares e, dias depois, confidências ao pé do ouvido. Tudo fora muito rápido.

O casamento fora como Bernardo sempre quisera: apenas foram morar juntos. O apartamento de dois quartos enchera-se com a vida de Júlia e com os objetos dela. Dera seu tom à casa. Ajeitara cada canto a sua maneira.

Bernardo já não tinha nada que fosse só seu. Júlia tinha seu sofá, seu computador e seus livros. Bernardo já não tinha sua casa apenas, tinha a casa deles dois. Júlia tinha a casa dela e era com muito orgulho que falava isso para as amigas do trabalho. Bernardo não sentia-se só por saber que Júlia estaria ali e Júlia sentia-se só a cada vez que Bernardo não aceitava ir ao shopping no domingo à tarde.
Cansada de viver sozinha, Júlia decidiu partir um dia. Mudou-se de uma hora pra outra levando sofá, e computador, e livros e tudo aquilo que era seu. Bernardo, em casa, sentia-se vazio: já não tinha mais com quem dividir sua vida. Júlia, noutra casa, sentia-se completa: já não tinha mais que dividir-se em dois.

Corria por uma rua.

Corria por uma rua. Rua. Ruía a rua. Ruía o mundo, tudo caia, tudo desabava. O chão por onde pisava caía. E ele corria. Talvez para tentar não desabar com o mundo, corria. Debatia-se contra tudo aquilo que estava ao seu redor. Diriam Rema contra a maré, mas já nem há maré, nem mar, só concreto.
A concretude se fez presente no modo da impossibilidade. Já havia coisas impossíveis e, mesmo que possíveis, continuariam impossibilitadas. A concretude o prendia a seus pensamentos e o fazia dar passos largos entre o mundo que ruía. O prédio a sua frente começara a desabar antes mesmo que ele passasse por ele.
Era dessa maneira, comum aos filmes (poderíamos chamá-la de clichê): o mundo começou a ruir e ele decidiu correr. Após sua passada, o local exato em que seu pé havia pisado fazia-se nada. Mais ele corria, pra tentar não ser dragado pelo chão que se abria. E mais o chão se abria, porque mais pedaços de chão seus pés pisavam e percorriam.
A rua ia se estreitando... Ele já começava a pensar se haveria ainda uma saída dali quando chegasse ao fim. Ou seria o fim simplesmente O Fim, assim, com maiúscula para destacar a finitude e a importância do final.
Corria... Corria... E era como em um daqueles sonhos em que quanto mais se corre, mais devagar se vai. Para manter os paradoxos, quanto mias devagar, na verdade mais rápido ele ia. Sentia-se levado pela maré das circunstâncias. Tudo já era tão sem sentido e tudo já estava tão “nadificado” atrás dele, que decidiu deixar-se levar e, nesse jogo de ser levado, o ritmo era também o de corrida.
Nada para ele poderia ser diferente: deveria tudo ser uma grande corrida, ansioso que era. Dessa vez, certamente não estava feliz em correr. Era a vida que lhe impusera a tal concretude. Ela mesma também lhe trouxera o desespero e este foi o que lhe fez correr e ver seu mundo ruir.
Agora, ainda no caminho de corrida, vendo a rua se estreitar, sentindo-se sufocado por tudo e vendo o caminho que estava deixando para trás tornar-se nada, já sendo levado pela maré das circustâncias e desistindo de correr e de tentar uma saída para uma das esquinas que às vezes enxergava a sua direita ou esquerda, pensou que valeria mesmo a pena esforçar-se contra a tal maré e deixar-se cair no vão da nadificação, esperar que o princípio de seu fim se dê ao invés de correr dele alucinadamente. Começou a fazer força. Agora sim remava contra a maré. Esforçava-se para parar. Olhou para trás e havia o nada ali. Nem escuridão era. Era nada. Foi quando decidiu olhar mais uma vez para a frente.

Evidências Apodíticas

O mundo já não fazia sentido. O peso de seu corpo sobre o colchão duro. O ventilador girava. O vento movia-lhe os fios de cabelo levantados. Já não havia ali, porém, nem cama, nem colchão, nem ventilador, nem vento, nem fios de cabelo: o mundo já não fazia sentido.
Não era vítima de nenhuma síndrome em que os sentidos se desfazem. Estava apenas deitado e percebeu como, nos últimos dias, já não sentia. Não era coisa momentânea, como o leitor pode ter pensado: era coisa de dias, mas que era apenas percebida agora por ele: não sentia.
Já não é a primeira vez que falo dos anestésicos. Essa insígnia dou àqueles que juram nada sentir quando tudo sentem. O mundo a estes se apresenta e sentem que nada sentem. Mas sentir que não se sente, já perguntei-os, leitores, uma vez, não seria também sentir? E (esta questão, garanto, é nova) será que não sentem?
Ao menos podemos nos aliviar com a idéia de que percebe que ainda consegue pensar e refletir e com o fato de que desse pensar e dessa reflexão conseguiu tirar um sentido ao menos para seu momento atual: não percebe o sentido do mundo.
Para os empiristas, sentido deriva-se de atos mentais que têm início no sentir. O mundo sensível é o caráter gerador. Mas como fica aquele que já não sente?
Olhou para o ventilador no teto. Girava. No girar daquelas pás, viu as cenas que lhe vieram comprovar o sentido que dera a todos os pensamentos que lhe ocorriam. Pensamentos tais que organizou cartesianamente em ordem de evidenciação:
Evidência 1: Há treze dias vira uma menina de 10 anos ser estuprada numa cena de filme. Não se comoveu. Achou até bastante natural, dadas as circunstâncias, que aquilo tivesse acontecido.
Evidência 2: Recebeu o telefonema de um amigo antigo. Atendeu-o muito bem. Fora até caloroso. Não conseguira, todavia, compreender o porquê das lamentações do amigo pelo tempo em que ficaram sem contato: A vida tem dessas coisas, disse ao rapaz do outro lado da linha.
Evidência 3: Vira, próximo ao trabalho, um corpo estirado no chão.Imediatamente, olhou para céu e, vendo que o sol estava despontando após longo período de chuva e frio, disse: O tempo está melhorando.
Evidência 4: Assistira a um filme em que crianças matavam adultos, em que pais perdiam seus filhos, em que mães morriam com bebês no colo. Quanta dor... Já fazia 3 horas que não comia e seu estômago reclamava por comida: Quanto dor...
Evidência 5: Já não sentia o coração ao dizer a um amigo “eu te amo”.
As evidências, perante elas mesmas, passaram a não ter importância. De que importava evidenciar sua falta de sentido? Agora que a evidenciara, sentia. Sentiu a dor por tudo que deixara de sentir no tempo certo e lembrou-se do que lhe disse seu pai quando era ainda criança e brincavam de cavalinho nas tardes de domingo: “Filho, viva tudo antes que, por não sentir, tudo lhe tome a vida”.
A primeira lágrima escorreu do olho direito. Desceu pelas bochechas e molhou o colchão duro. A velocidade do ventilador parecia diminuir, mas na verdade era o tempo que começara a correr em outro tempo. A segunda lágrima. A terceira. O choro.
Chorava compulsivamente pelas dores, alegrias, amores, sentenças, libertações. Chorava por todas as sensações que não sentira. Aquelas evidências eram, certamente, apodíticas como exigiria seu professor husserliano. Mas aquelas evidências... Certamente fariam sentido num livro de filosofia ou lógica, mas não lhe traziam o sentido de tudo. Apenas o ajudaram a recobrar o sentido de tudo. O sentido, existindo, estava no próprio vivenciar da vida que cobrava-o os sentimentos que não lhe foram devotados. E chorou pela menina na tela, e pelo amigo distante, e pelo homem morto e jogado na rua, e pela crueldade do filme e pela falta de amor no “eu te amo”.
Nesta noite, dormiria e sonharia que tocava e era tocado pelo mundo lá fora.

Gridin' e o amor

- Era capaz de tudo por aquele homem! Não era qualquer um. E aquele macacão, garantiu-me ela, faria toda a diferença em meu corpo e poderia, quiçá, salvaguardar alguns momentos extras de felicidade conjugal. Ouvia no trabalho e na família que, para que os problemas pretéritos não se repetissem, deveria cuidar-me. Cuidar-me, penso eu, certamente inclui vestir-me bem e disso assegurou-me – dizia ela.
Era um dia comum. Andava pelo shopping. Vendo as vitrines, lembrava-se de como não poderia viajar nestas férias por precisar economizar para a compra da casa e do carro. Tivera certos problemas ao longo do ano e o que menos queria era vê-los repetidos. Cuidaria melhor de sua vida afetiva e isso certamente incluía a idéia de uma nova casa e de um carro Sem os quais não é possível conseguir felicidade conjugal, repetiu para si mesma enquanto andava em frente às lojas.
Tudo se lhe figurou como tentação. Cada vitrine era um convite ao desbunde. A casa, lembre-se da casa, repetia mentalmente, O carro, lembre-se do carro. Ao pensamento dos dois, recordava-se do marido no trabalho e pensava O casamento, lembre-se do casamento.
Então viu o macacão e o modo como se apaixonou por ele já o sabemos por palavras dela mesma. Aquele pedaço de pano rosa com aplicações de swarovskis legítimos caberia exatamente em seu corpo e, certamente, assegurariam mais alguns momentos de felicidade ao casal. É necessário reconquistá-lo, senão de que adiantarão casa e carro?, pensou.
Entrou na loja. O preço. Vou dar uma voltinha e ver mais coisas e, não achando nada que agrade mais, volto para comprar, disse à vendedora, que já estava cansada de ouvir essa mesma frase dita por clientes que achavam que a roupa, mesmo que bonita, não é mais que pano.
Não era, contudo, este o caso de nossa personagem. A roupa, mesmo que de pano, era mais do que isso. Convencera-se de que a roupa lhe traria a tão sonhada felicidade conjugal e ela não saberia viver sem isso mais nenhum instante.
Desde nova fora criada com a idéia de que o casamento é a fonte de felicidade de uma mulher. Desde que casou-se, devotou sua vida e felicidade ao marido, sem o qual não conseguia tomar nenhuma decisão. Ao chegar em casa perguntarei a ele o que pensa sobre comprar ou não o macacão.
Decepção. Certamente ele ainda pensava na outra, porque não a motivou a comprar o macacão que garantirá a ambos a felicidade conjugal! Que tenha dormido e ficado com aquela uma não há problemas, mas negar a ambos uma possibilidade de serem felizes?!
Fora para o trabalho no dia seguinte pensando em passar pelo shopping e verificar se o macacão ainda estava na vitrine. E o fizera. E vira a beleza estonteante daquele pedaço de pano enfiado no corpo de um manequim macérrimo.
Entrou na loja. Vem cá, você acha que... E desfiou o rosário de lamentações acerca do marido e de tudo o que ocorrera. Então você pensa que com esse macacão eu consigo melhorar isso tudo, perguntou para a vendedora, que lhe assegurou que a vida dela mudaria depois de adquirir aquela peça de beleza ímpar.
Ainda assim não se convenceu. Foi para casa e ligou o televisor. Comerciais. Sua atenção fora chamada para aquele de uma loja em que a mulher entrava cabisbaixa e lembrando-se das brigas em casa (cenas mostradas em preto e branco) e saía com novas roupas e um marido muito atencioso levava-a para jantar na noite daquele mesmo dia (cenas mostradas em cores bem vivas).
A vendedora estava certa. Confiaria o que sobrara do salário do mês anterior (quantia que havia poupado para ajudar na compra da casa) à palavra da vendedora.
Voltara imediatamente à loja. Comprara o macacão e vestira-o imediatamente. Voltaria para casa já na roupa que mudaria sua vida e a de seu marido.
Nunca estivera tão ansiosa para entrar em casa e encontrar seu companheiro. No ônibus, imaginava como seria sua vida a partir de agora: colorida como no comercial.
A chave girava rapidamente e a maçaneta, por ter sido a porta aberta com força, bateu com força na parede. O marido não estava. Era comum que se atrasasse alguns minutos.
O trânsito na cidade, o chefe que demanda demais. Todos poderiam ser os motivos. Não esperava, contudo que o motivo seria aquele. A felicidade conjugal, outrora já ameaçada, ruiu-se por completa, mesmo perante o pedaço de pano rosa com cristais swarovski: ao ver a sombra do marido apontar no começo da rua já começou a sorrir pensando no impacto que ele teria ao vê-la, linda, trajando o macacão rosa e quanto mais ele se aproximava mais sorria; deixou de sorrir apenas quando viu o semblante apreensivo do cônjuge e chorou apenas quando ouviu Já não quero tentar viver a vida ao seu lado.
- Era capaz de tudo por aquele homem! Não era qualquer um. E aquele macacão, garantiu-me ela, faria toda a diferença em meu corpo e poderia, quiçá, salvaguardar alguns momentos extras de felicidade conjugal. Ouvia no trabalho e na família que, para que os problemas pretéritos não se repetissem, deveria cuidar-me. Cuidar-me, penso eu, certamente inclui vestir-me bem e disso assegurou-me esta mulher. Como pode ter me vendido a infelicidade? Por esse homem, por minha vida, faria tudo outra vez – dizia ela perante o corpo de jurados olhando as fotos do corpo estilhaçado daquela que lhe vendera o pano rosa com cristais.

Não sabia mais o que fazer.

Não sabia mais o que fazer. Sentia como se a vida estivesse perdendo o rumo. Olhava para os fios nos postes. Altos. Lá de cima, estirados, esticados até o último centímetro. Iam em linha reta até o poste seguinte e ao seguinte, e ao seguinte... Iam em linha reta. Queria que sua vida fosse como a do fio de luz entre os postes altos da cidade.
Passava em frente ao local onde a conhecera. O café amarelado próximo ao cinema. De fato, era inacreditável pensar que ela o vira dentro da agência bancária onde recebia seu pagamento, o procurara na “Clowns and Parties”, agência de festas infantis em que trabalha, e não o encontrara, e, mais inacreditável ainda, é o acaso que fez com que ambos se esbarrassem naquela noite fria, em que todas as pessoas da cidade parecem sair das ruas e enfurnarem-se ou em casa ou em café em tons amarelados.
Passa agora em frente à vidraça da entrada do café. Sua vida, sem rumo, o guiava por caminhos desconhecidos por ambos: por ele, nosso rapaz, e por ela, vida dele.
Resumiria-se como solitário. Era um rapaz solitário.
Trabalhava onde já sabemos. Tinha a profissão que saberemos. Ainda não sabemos nada, porém, sobre essa que, conforme ele pensa agora, o guia: sua vida. Perdi-me em explicar o que se passa agora e esqueci-me de falar do passado de nosso personagem principal e sem nome.
É engraçado pensar que um personagem principal não tenha nome. Todo livro que se pretende livro tem que ter no mínimo dois personagens: o principal, mocinho, aquele com qual o público, em geral, irá se identificar, e o segundo, o rival, aquele do qual o público, na maioria das vezes, terá raiva, aversão e medo. O primeiro, coitado, sempre sofre com tudo e todos. No entanto, em um mundo maniqueísta, sempre vence no final. Antes, porém, sofre o coitado do rapaz (ou rapariga). Sofre. E sofre mais uma vez. Triunfa no fim, mas sofre. E é por isso, aliás, que nos identificamos com ele: temos essa tendência egocêntrica de achar que só nós sofremos no mundo... E somos aliviados no final: se ele triunfou, também hei de triunfar!
Enfim, em nosso caso, isso não se aplica. Saímos em frente, uma vez que, além do mocinho e do bandido, temos Georgina. Na verdade, saímos em frente já por não termos mocinho e bandido. Como no mundo real, somos todos vítimas e assassinos de todos e de nós mesmos e assim são nossos personagens. Ganhamos ainda alguns outros marionetes que ajudam a dar colorido à narrativa: a senhora na fila do banco, a mulher na rua e seu filho que acaba de fazer 18 anos, a atendente da “Clowns and Parties”, aqueles que estão caminhando nas ruas... Ufa! Voltemos ao que contava!
Nosso rapaz se descreveria como solitário. Quando criança, morava com a mãe e pai, apenas. Filho único. Pensa que se tivesse tido um irmão ou irmã, teria mais força perante a vida e seria menos solitário. Leu, outrora, que “se” é a palavra das impossibilidades, por isso toda vez que lhe vem essa idéia em mente, a repudia quase que automaticamente. É filho único e esse é o fato.
Gostava muito de brincar com bonecos dos personagens de desenhos animados que assistia no canal 4 aos sábados de manhã. Escolhia sempre o cavaleiro destemido, o matador de dragões, o lutador imbatível... Qualquer boneco que compensasse alucinadamente aquilo que ele era em relação àquilo que ele queria ser.
Certa vez, aos sete anos, fez amizade com o menino que sentava na carteira atrás da sua na escolinha. Tomé. E foram amigos até o dia em que Tomé mudou-se de cidade com a família. A mãe de nosso rapaz não aprovava muito a amizade: Tomé era por demais desorganizado e, quando ia brincar com seu filho em sua casa, desarrumava todo o quarto de brinquedos. Não gostava que seu filho brincasse na rua. Não gostava que seu filho bagunçasse a casa enquanto brincava. Podemos concluir que não se importava que o menino fosse só. Importava-se mais com a cor branca do sofá que não poderia encardir-se até que pudesse estofá-lo novamente no ano seguinte.
Aos 10 anos e meio, nosso rapaz ganhou um papagaio de presente de sua tia. O mais interessante sobre o bicho, ele pensava, era quer tinha alguém com quem conversar. Bastava que ensinasse o bicho a responder a certos sinais. Foi quando conseguiu fazer com que Louro dissesse “Sim” quando ele, o rapaz, piscasse os dois olhos por três vezes seguidas e “Não” quando ele estalasse a língua. As conversas iam sempre animadas até o horário de fazer o dever, Louro, você gosta de mim (três breves piscadelas), Sim, E de mamãe quando ela implica com meu sapato sujo (um estalo), Não, Quer ser meu amigo pra sempre, Sim. E assim por diante.
Seu pai era sempre muito ocupado. Quase nunca brincava com o filho. Talvez fosse por isso que não sentiu a morte do mesmo como uma perda significativa. Quando menino, já o sabemos, juntou dinheiro para dar ao pai uma poltrona reclinável, tinha certeza de que essa poltrona era o preço que o pai estipulara para sua atenção. Bastaria a poltrona e seriam amigos. Já sabemos a resposta do pai ao ver o presente. Podemos imaginar o resultado disso tudo na relação entre os dois. Desistira de conquistar o pai e provavelmente por isso a morte do mesmo não fizera grande diferença.
Poderia dizer até mesmo que a falta de nome do rapaz deve-se a ele mesmo. É tão comum que se perde em si e no mundo e tornou-se, a meus olhos, um simples rapaz. É solitário como todos, pobre de espírito como muitos, sente-se aquele que tem o privilégio sobre os sofrimentos e mazelas humanas como vários. É mais um dentre muitos, diferindo-se do todo apenas pela particularidade de sua história (oras, mas não é assim com todo mundo?). Temos todos coisas em comum, como essa solidão que aperta o peito a cada nova manhã, mesmo naquelas em que nos sentimos acompanhados por alguém. Seria essa solidão constitutiva?
Não é interessante, leitor (e creio que você há de concordar comigo), longos relatos históricos. Se se tratasse de uma pessoa, bastaria que fizessem uma consulta ao histórico escolar dele, sua ficha criminal. Seu histórico familiar facilmente seria levantado através dos sobrenomes. Em algum cartório obteriam seus dados civis. Na internet poderiam encontrar cadastros em lojas, sites de relacionamento etc. Entretanto, é um objeto esse rapaz e sua história nada tem de real a não ser o relato que faço dela. Aliás, nem sequer o relato que faço dela é real. Tomemos por real apenas o papel que seguram agora ao lerem esta página. Sim, esta é a realidade da vida de nosso rapaz. Não perderei, portanto, mais tempo descrevendo sua história-passada. O que nela for importante terá reflexos em sua vida presente e é esta que quero relatar.
Os postes lhe davam a exata impressão de como sua vida estava agora, depois de Georgina. Enquanto falava sobre sua vida, nosso rapaz, caminhando já saiu da fachada do café onde encontrou Georgina duas semanas atrás. Apesar de já não mais em frente ao lugar, era lá dentro que sua mente vagava.
Viu uma menina estranhamente familiar entrando. Ela o vira desde quando estava na rua. Aliás, fora por isso que ela decidira entrar ali. Nunca gostara muito de cafés, mas para ter a oportunidade de vê-lo novamente perderia seu tempo e dinheiro, ainda mais porque assim que o vira na fila do banco encantara-se com o rapaz que, para ela, a olhara no fundo dos olhos e, por conseguinte, dentro dela mesma, e vira seu “eu” mais profundo. Pensava como aquele rapaz a desnudara com os olhos.
Foi buscando esse rapaz que ela pegou a conta de telefone caída no chão. Foi também pensando nele que ela ligara para o número que constava na conta. Combinara com a mulher que a atendeu dizendo “Clowns and Parties, Gílcia, bom dia, em que posso ajudar?”, que iria no dia seguinte no endereço informado levar os papéis. Esperava encontrar aquele homem lá. Vê-lo. Já era o bastante. Vê-lo, ao menos.
Todavia, chegara na agência, entregara o envelope em que colocara os papéis a Gílcia e saiu com a certeza de que nunca mais teria nenhuma oportunidade de vê-lo, muito menos de tê-lo, aquele rapaz de cabelos negros e olhos castanhos que lhe desnudara a alma.
Ele estava dentro do café e foi por isso que ela decidiu tomar um capuccino com creme.
Ele olhou-a profundamente. Tinha e impressão de tê-la visto já alguma vez. Havia sido um dia cansativo. Gostava de sentar-se na mesa ao fundo do café sempre que tinha um dia cansativo. Tinha a sua frente uma planilha de controle com as datas críticas na agência. Maldito o dia em que aceitei ser sócio daquele lugar, pensou, melhor era quando apenas ia fazer bico quando Richardson convidava.
A raiva que deixou extravasar em pensamento, expressou-se deixando com que a xícara de café caísse em cima de todos os papéis. Foi buscar com os olhos o ponto da mesa em que os guardanapos estavam. Seus olhos, porém, prenderam-se em outra coisa. O café agora gotejava no chão. Não conseguia tirar os olhos da menina. Viu uma menina estranhamente familiar entrando...
Essa imagem se desfez agora em sua mente e voltou para o momento presente. Não podia acreditar, andando agora nas ruas, duas semanas após o dia no café, que tal garota não entrara apenas naquele lugar. Viera como o café, destruidor de papéis, e destruiu todos os planos que tinha.
Já não importavam planos. Já não importavam datas. Perdera os caminhos, os fios, as linhas, os rumos. Perdeu o prumo como um fio num poste não pode perder. Já não invejava, no entanto, os fios. Não... Revendo o que até ali vivera, era como se tivesse enchido de certezas novamente. Era comum vacilar. Muitas vezes vacilava em seus propósitos. Saíra de casa vacilante. Desespero é um nome que podemos dar a esse vacilo: como lidar com tantas mudanças? Mas agora percebia que já não saberia aceitar que as mudanças mudassem novamente e que tudo voltasse a ser como era. Não aceitaria deixar que aquela menina, Georgina, saísse de sua vida.
Já sabia o que fazer. Não sentia como se a vida estivesse perdendo o rumo. Olhando para os fios nos postes e vendo novamente que iam em linha reta até o poste seguinte e ao seguinte, e ao seguinte, já não queria que sua vida fosse como a desses fios estirados. Já sabia o que fazer: iria para o prédio em que ela morava. Queria vê-la e tê-la para si por minutos que fossem. De onde estou, só consigo ver agora o ritmo mais apressado que impôs a si e a seus passos quando dobrava a esquina.

Da escatologia

E o menino perguntou:

- Mãe, o cocô é a gente que faz, né?
- É, meu filho - respondeu a mãe, embaraçada, que todos no ônibus olharam.
- E como é que é feito?
- AH! Meu filho... Como é que é feito?... A gente come... Aí a comida faz um caminho muito longo...
- Como este que a gente tá fazendo? Tá chegando?
- Tá quase, meu filho, tá quase - respondeu ela, aliviada. O menino parecia ter esquecido o assunto. O silêncio presentificou-se, até que:
- E como é o caminho da comida, mãe?
- Começa na boca e - aí seguiu com o dedo da boca do menino até a barriga, fazendo cócegas. E ele riu... Mas não esqueceu de continuar:
- E aí sai por baixo, né?
- É. Sai - o rubor visível.

Então o menino começou a olhar pela janela. Havia esquecido do assunto?

- Mãe, mas então o cocô vem da comida, né?
- É, meu filho.
- E a comida tem um cheiro bom...
- Sim, uma boa comida tem cheiro bom...
- Mas porque o cocô fede?
- Júlio Alberto, vamos deixar pra conversar isso outra hora, ok? - disse ela ao perceber o riso solto do rapaz no assento ao lado - Isso não é coisa de se falar assim, em público.
- Ah é verdade, mãe. Isso é coisa de se fazer escondido. No banheiro. Mas é porque fede, né? Mãe - disse sorrindo - já pensou se não fedesse? Aì a gente ia poder fazer cocô na frente dos outros...
- É, Júlio Alberto, mas agora chega, viu?

O menino levantou-se. virou-se e ajoelhou no banco. Ficou olhando para a janela. Os carros passando. Levantou-se de novo, virou e sentou. Aío levantou e pulou por uns dez segundos. Aí sentou. Aí deitou no colo da mãe. E levantou do banco e fez menção de sair para o corredor, mas a mãe não deixou. Estava visivelmente inquieto. As idéias ferviam em sua cabeça.

- Mãe, chega aqui - acenando para que ela chegasse mais perto. Falou, então, ao pé do ouvido - Mãe, o papai também faz cocô?
- Ué, meu filho, claro! Todo mundo faz!
- Até Deus?
- Aì não sei, filho, porque ninguém conheceu Deus pra dizer...
- Nem a vovó? Você disse que ela tinha ido morar com Deus.

A senhora do assento da frente olhou repreensivamente para a mãe do garoto: como podia mentir para uma criança?!

- Querido, sim a vovó foi morar com Deus, mas nunca voltou pra contar como é. Mas Ele disse que fez a gente a imagem e semelhança dele, então ele deve fazer cocô também.
- E o vovô? O vovô também faz?
- Faz. Todos fazem, Júlio Alberto! Já lhe falei. E agora, fique quieto e sossegue!
- Mãe, só mais uma pergunta?
- Ahn?
- O vovô faz na calça, né? Que nem eu faço ainda de vez em quando, mas eu sei que vou parar... O vovô sou eu, depois.

segunda-feira, 3 de setembro de 2007

Sobre sempre conhecer pela primeira vez

Sábado conheci pessoas conhecidas pela terceira vez (?) e elas me conheram novamente também. É estranho conhecer pessoas conhecidas de novo. Há um quê de contentamento e de tristeza em conhecer sempre pela primeira vez.

Admito: no começo me senti meio estranho. Deslocado talvez seja a palavra. Pensava: sou eu que dou muita atenção às pessoas.

Mas, como disse, há um quê de contentamento e de tristeza ao conhecer sempre pela primeira vez. É como se nada mais houvesse além da possibilidade de uma primeira vez.

"Prazer", diziam eles quando eu era apresentado por Lucas. E eu pensava: como assim "prazer"? Será que não se lembra que já nos conhecemos?...

E fato: não se lembram.

Comprei também sabonetes novos. Tomar banho virou uma tarefa árdua. É que tem um de açúcar mascavo e foi exatamente o que abri primeiro. Me dá ânsia de vômito. Será que vou associar banho à vômito? Espero que não... Sempre gostei tanto de banho.

E será que vou associar a palavra "prazer" a relações que não se aprofundam? Pois quando tudo não passa de primeira vez, há o contentamento da leveza, mas há a tristeza da dificulade de referências ao passado, de trocas, que são o que fortalecem qualquer relação.

Devo dizer: de fato, não me importo. Por fim, acabo me sentindo em casa. São pessoas ótimas. Diria que são pessoas bastante sedutoras. No final, conversamos, nos esbarramos e até trocamos palavras. Mas... É assim: já sei que, da próxima vez, será novamente "prazer" a palavra que vou ouvir.

Gente, pensem: isso é assim mesmo ou é só medo? Tem que ser assim mesmo ou é só falta de uma boa terapia?

sábado, 1 de setembro de 2007

A vida de Maria

Foi assim que Maria começou a viver: num dia de sol, um pombo acinzentado, sobrevoando a pista de corrida do Aterro do Flamengo, teve um taquicardia e despencou velozmente do céu ao chão, estabacando-se aos pés de nossa heroína, que corria como fazia todos os dias pela manhã.

Não... Não está bom! Maria deve ser uma mulher de 40 anos, faz cooper todas as manhãs no Aterro... Talvez seja uma executiva... Sim! Uma executiva. Bem sucedida, solteira... E começar a viver diante da morte é um clichê... Sim!:

Foi assim que Maria começou a viver: ao chegar em casa após mais um dia produtivo no trabalho, abriu a caixa do correio e encontrou o convite para o casamento de Arlete, aquela amiga de infância que Maria jurava que nunca ia ter pretendentes na vida.
Com o convite na mão, chamou o elevador. A respiração presa. Rompeu-se em lágrimas ao adentrar seu apartamento triplex na rua da praia: ela, Maria, era só.
"Você sempre foi uma moça tão casadoira, minha filha", dizia sua avó, "não entendo como todos as suas amigas se casam e você fica só...".

Ah! Pronto! Mais uma tentativa frustrada! Maria não pode ser uma mulher "casadoira"... É uma executiva, bem sucedida, decidida, objetiva. Maria, certamente, leria Marie Claire! Isso se não tivesse feito a faculdade de Economia e se convencido de que ser mulher era perda de tempo:

Foi assim que Maria começou a viver: no sinal, decidiu comprar uma água do ambulante e abaixou o vidro elétrico. Nisso, seus olhos bateram nos dela, nos de Gorette, que ia sentada ao volante do carro ao lado. Gorette, percebendo-se olhada e simpatizando com a figura de Maria, pegou um cartão seu no porta-luvas e, amassando-o para que melhor vencesse a resistência do ar e mais chances tivesse de alcançar o outro carro, arremessou-o.
O sinal abriu. O coração de Maria batia acelerado quando, lentamente, seus pés soltaram a embreagem e pisaram o acelador. O que fazer com aquele pedaço de papel que lhe arremessara a outra? Ela era solteira... Não era errado conhecer uma nova pessoa. E assim, decidiu ligar.

Mas Maria abre-se tão facilmente assim para os outros?! Ah! Maria é uma mulher que tem uma vida... E eu já me canso de tentar escrever sobre esta mulher tão comum! :

Foi assim que Maria começou a viver: num dia de chuva, num lugar descampado e com gramíneas verde claro, um grupo de pessoas chorosas e trajando preto olhavam a descida do ataúde. Por fim, uma meninita, talvez sobrinha da defunta que descia os sete palmos, jogara por sobre o caixão um ramalhete de rosas brancas e um pequeno cartãozinho onde se podia ler: "Maria, parta em paz para uma nova vida".

sexta-feira, 31 de agosto de 2007

Erros de "escrivinhação"

Pois se há erros de gravação nos extras do DVD, porque não os erros de escrita no blog ao final deste mês que, Caio Fernando Abreu concorda, é um dos mais longos e chatos do ano: agosto? E não adianta, Rubem (o Fonseca), fazer livro com o nome do mês. Ele é um ingrato mesmo. Muitos contos se iniciam e se perdem nesse mês... É assim sempre! Todo ano. Há dois anos atrás foi um livro que comecei em agosto... E este ainda está parado no oitavo capítulo, dos 30 que eu havia planejado.

Pois segue então três pequenas tentativas de colocar coisas para fora:

1- Uma família saindo de férias ao que tudo indica. Um conto para falar sobre como ignora-se o momento em função da pressa de se viver o que se espera.

2 - Uma tentativa de descrever o sexo. É que ainda tenho destas dificuldades... Ainda farei novos esforços e espero que estes sejam menos piegas.

3 - Um começo de texto sobre um dia chuvoso em que ouvi Nine Inch Nails de verdade.


Então, vamos lá:


1 - Era tudo uma grande correria. A casa cheia. Os cães olhando a todos nada entendendo. porque tanto movimento? Para que tanto movimento? A casa nunca fora assim! As pessoas da casa nunca foram assim!

É que ali havia uma bomba, já vou logo dizendo. Não gosto quando os leitores ficam imaginando, tentando avidamente compor todo o quadro da situação.Esta, a situação, sou eu que crio. Não cabe a vocês. Por enquanto, tudo o que lhes cabe é tentar sentir a pressa.

Os passos na escada iam velozes! Subiam e desciam pessoas a todo o momento. O pai gritava: por favor, rápido! Vamos nos atrasar. A mãe respondia: Querido, você já disse isso um milhão de vezes. E a filha falava: Aí que saco! Detesto férias!






2 - Era puro tudo aquilo. A pureza exalava pelos poros de cada um. Uma beleza sutil, simples. Um campo verde e plácido.

Os olhos se olharam. Não se viam, contudo. Iam além daquela superfície. Os olhos se olhavam e não se viam a si mas sim aquilo que estava para além deles mesmo: viam-se por dentro e desnudavam-se pelo olhar.

Ficaram assim por minutos. Os lábios esboçavam leves sorrisos. Apenas de canto de boca. Uma fugaz folha caindo ao balançar dos galhos. Um diminuto flerte de um lábio consigo mesmo. Os superiores amando os inferiores e ambos abrindo-se levemente. Era um pequenito sorriso nos lábios de cada um.

Tanto haviam esperado. Tanto haviam imaginado. E agora estavam a apenas um toque de distância. E agora não estavam a nem sequer um passo um do outro, que os olhares os fundiam, os fusionavam. Eram apenas um: um único lábio, com um único e mesmo sorriso, um único olhar que se olhava a si, bem no fundo de si.

As mãos, hesitantes, de ambos ergueram-se em súbita carícia. Tocaram-se. Sentiam-se. Era o momento e a própria superação do momento.

Os pêlos eriçavam-se a cada novo toquezito. Leves toques.

Os corpos se aproximaram. E os lábios se aproximaram. E as peles se aproximaram. E os pêlos se aproximaram. Sentiam-se e estavam ali, presentes, por uma vez.

Em resposta aos toques e ao roçar dos lábios, a respiração ofegou-se. Ela tinha vida própria. Controlava-se. Melhor seria, que ninguém ali seria capaz de controlá-la.

As mãos de cada um, em consonância, passaram por trás dos rostos inertes e tocaram a nuca. Levemente, um frêmito tomara os corpos.





3 - A chuva rasga a pele. Tem dias que a chuva é de rasgar. É sempre em dias assim: frios. É sempre em dias em que entre você e o mundo há uma massa gigantesca de gelo. Em dias assim, tudo o que se precisa é um pouco de calor, seja ele qual for, mas aí vem a chuva.
Hoje queria sol à noite. E queria colo de novo. Sinto-me como uma criança recém-saída da barriga materna. Quero dormir como um feto. Ou balançar-me para a frente e para trás como um autista.
Lembro-me da oração budista "Nam-Myoho-Rengue-Kyo" e a possibilidade de que o mundo mude por conta do muito querer. Hoje, quero que o mundo se desmundifique - Nam-myoho-rengue-kyo - quero que o mundo se nadifique- Nam-Myoho-Rengue-Kyo - quero que o mundo não seja meu mundo - Nam-Myoho-Rengue-Kyo - quero ser um nada, novamente - Nam-Myoho-Rengue-Kyo.
NIN é demais, Lucas. NIN é a salvação neste momento. Sinto como se a música entrasse por mim, me limpasse, arrancasse qualquer coisa de dentro, tudo o que há dentro. A música me escarra.






É isso, queridos. Quem quiser, comentários serão bem vindos... Algum destes deveria ser continuado? SIm, isso seria um bom comentário.

quinta-feira, 30 de agosto de 2007

O passado e a esperança

Esperava-o todas as noites. Os olhos seguiam os instantes passados no diminuto relógio na tela. Sentia o tique-taque no peito. É que no peito havia a esperança, aquela que alimentara ao longo de todo o dia, e que agora era devorada a cada novo segundo. O deus Chronos era um bom pai: comia seus filhos a cada novo instante.

Apesar do frio, gotículas de suor brotavam-lhe da pele. As mãos gélidas moviam o cursor na tela em movimentos repetitivos que lhe reduziam a ansiedade, distraindo-lhe.

Foi assim que começara a usar as pessoas: buscava por elas em todos os lugares, as seduzia, as mantinha entretidas e, ao menor sinal de que ele viria, as abandonava.

Contudo, isso era no tempo em que a esperança de falar com ele não era de novo e a cada vez frustrada, em que a esperança era sempre satisfeita ao final do dia. Agora, neste momento em que a frustração é o senitmento que mais se presentifica nesta relação, manter-se nesse movimento com as outras pessoas era um risco que não conseguia correr. Muitos são os riscos de viver, ainda mais por sermos seres relacionais. Assim sendo, o que poderia lhe garantir que continuaria a devotar sua espera e seu afeto aquele que se fazia ausente? O que lhe garantia que se manteria fiel a seu desejo? Mesmo que este, o desejo, nunca tenha encontrado vias de se concretizar ainda, mesmo que todos lhe dissessem que o melhor seria esquecer e seguir adiante, era isso o que queria: manter-se fiel a seu desejo.

- Ei! E o que lhe garante que ele se mantém fiel ao que disse desejar? - pergunto-lhe - E o que lhe garante que este afastamento não serve a ele como um moo de decidir-se e sair paulatinamente desta situação de enamoramento?
- Perdão...?
- Quem te garante que ele ainda gosta de você como você dele? Vejamos... Ele tem alguém além de você?
- Er... Ahn... Sim, tem. Namora há algum tempo.
- Pois então... Não teme que ele te esqueça com esse distanciamento?
- SIm, é tudo o que mais temo!
- E se é exatamente isso o que ele quer?
- Distanciar-se?! Não!
- Ué, já imaginou?
- Quam é você que chega assim e vem me falando essas crueldades?
- De que importa?! O que realmente importa é que agora sente-se inseguro! O que mais sente? De qualquer modo... Sou sua própria consciência, por assim dizer.
- É... Sinto-me inseguro. Mas sinto mais é saudade, sabia? Saudade... Assim mesmo, reticente.
- Como é uma saudade reticente?
- É uma saudade que sabe o que falta apesar de não o conhecer. E mesmo sem conhecer o que falta, não há espaço para a falta, porque o sinto aqui, ao meu lado. É como se enquanto estou no computador esperando por ele que não vem, é como se nessa hora ele estivesse ali, sentado na cama e me olhando, e penso: "é por isso que hoje, mais uma vez, ele não vem. É porque não há como vir se ele já está aqui".
- Mas você sabe que ele não está aqui...
- E nem eu estou lá, mas penso que ele pensa em mim.
- E tem certeza?
- Sim! Bem... Talvez. Agora, com tantas perguntas, já não tenho mais certezas, eu acho. Sabe? É como se eu estivesse à beira-mar, bemonde as ondas começam a voltar para as águas. Eis que surge essa grande onda, que me derruba e me suga para dentro do mar, que já não é mar e sim, poço. Essa onde que me suga é você, minha consciência. Quer me levar para o buraco, este em que o mar se abriu. E não há raízes, nem gramíneas, nem gravetos na beira da praia: não há nada em que eu possa me agarrar...
- Pois vejo que é assim mesmo... Vejo, porém, que ainda assim, se agarra a algo. É este algo aliás, que me impede de atingir minha meta de levá-lo para o tal buraco. Que algo é este que te sustenta?
- O que me sustenta é o que já se deu e o que espero que ainda se dará. O que me sustenta é o passado e a esperança, o que já vivi com este que se ausenta e aquilo que sei ainda ser possível viver. São dois: passado e esperança. São eles que me dão o sustento necessário. Eles e o objeto de meu afeto. Mesmo que não o conheça de fato, desconheço mais ainda o que sinto por ele. Isto que agora sinto e que nunca senti antes do mesmo modo. Sabe? Por exemplo, nunca tive ciúme...
- Verdade?
- Pois sim... É isto que sinto que me sustenta, mais que todas as coisas.

Foi assim que decidi retirar-me e parar de questioná-lo. É que nisto que ele sente não há espaço para mim, não há consciência que se sustente diante de tais sentimentos. Não há razão que dê conta.
Ao sair, ainda o ouvi dizer, mais uma vez:
- Certo, mais uma noite... Vem logo, poxa! - para si mesmo, crendo que o outro, por acaso do destino ou do muito querer, seria capaz de ouví-lo.

quarta-feira, 29 de agosto de 2007

Da saudade

Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às
vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra
pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos
sentimentos mais urgentes que se tem na vida

(Clarice Lispector)

terça-feira, 28 de agosto de 2007

Foguete - Maria Bethania

Tantas vezes eu soltei foguete

Imaginando que você já vinha

Ficava cá no meu canto calada

Ouvindo a barulheira

Que a saudade tinha


Tirei a renda da naftalina

Forrei cama, cobri mesa

E fiz uma cortina

Varri a casa com vassoura fina

Armei a rede na varanda

Enfeitada com bonina


Você chegou no amiudar do dia

Eu nunca mais senti tanta alegria

Se eu soubesse soltava foguete

Acendia uma fogueira

E enchia o céu de balão

Nosso amor é tão bonito, tão sincero

Feito festa de São João

domingo, 26 de agosto de 2007

Carta de amor III - A resposta de Marcelo à Beatriz *

Pequena Beatriz, minha vida!

O amor, assim como a vida, é uma dádiva! E só alguns são capazes de dádivas como estas. Há aqueles que morrem a cada instante: a estes esta dádiva não é dada a conhecer.

Confesso que fiquei surpreso com sua carta. Sim, não esperava. A outra havia sido tão seca, tão dura. Em meio a essa dádiva que a vida é, há dores, mas estas passam, como passaram assim que terminei de ler suas palavras. A que sinto agora, esta dorzinha no peito, é um pequenito milagre e chama-se felicidade.

Notei que faltaram algumas coisas em meio ao que fui buscar na portaria do prédio. O Seo Zé, gente fina como sempre, me perguntou se eu e você estávamos bem... Porteiros... Sempre metendo o bedelho... Disse que estava estranhando minha ausência no prédio. Não sei se fiz bem, mas naquele momento disse apenas que eu estava viajando muito a trabalho. Parece que lá no fundo, eu sabia que ainda teríamos outra chance!

Ah! Como gosto de ti, pequenita!

Não me importo com o que aconteceu! De agora em diante, novos caminhos poderão ser trilhados! E quero trilhá-los ao teu lado!

Compreendo tua raiva, teu desespero. Perdoe-me se em algum momento pareceu que te ignorava, mas é que preferia manter-me distante. Melhor: talvez por não compreender o que eu sentia, mantive-me distante todo o tempo, como quando, como você mesma disse, desnudou-se diante de mim, "meus sentimentos expostos e suas respostas escarradas sobre mim". Como fui tolo! Perdoe-me, querida! Não entendia o que se passava comigo... Era a primeira vez que me sentia assim, como agora compreendo: era a primeira vez que o amor me era apresentado na vida e de um modo tão belo: você!

Quero logo que recebas esta carta! Quero logo acertar tudo! Sinto saudade de ter você ao meu lado quando o dia finda e a cama e a casa pertence a nós e aos nossos desejos.

Do seu,
Marcelo.

* Continuação da série de cartas trocadas entre Beatriz e Marcelo, iniciadas em Julho. Não sei como, mas todas elas param aqui em casa depois de abertas...

A saudade em Orfeu

Há dias em que os sentimentos embotam as idéias... Há tanto o que se sente, que não se consegue expor. Nesses dias há o que expor, vejam bem. Muito o que expor. Mas é que apenas o que se tem para expor vem com tantos afetos ligados, que não sai da cabeça e do peito.

É em dias assim que um bom texto escrito por outrem nos valhe e nos vale. Reli o "Monólogo de Orfeu", do Vinícius, e lembrei que é por aí o que queria dizer:

"Aqui
Ficam os meus restos a esperar por ti
Que dás vida!

(Eurídice atira-lhe um beijo e sai).

Mulher mais adorada!
Agora que não estás, deixa que rompa
O meu peito em soluços!
Te enrustiste
Em minha vida; e cada hora que passa
É mais porque te amar, a hora derrama
O seu óleo de amor, em mim, amada...
E sabes de uma coisa? cada vez
Que o sofrimento vem, essa saudade
De estar perto, se longe, ou estar mais perto
Se perto, - que é que eu sei! essa agonia
De viver fraco, o peito extravasado
O mel correndo; essa incapacidade
De me sentir mais eu, Orfeu; tudo isso
Que é bem capaz de confundir o espírito
De um homem - nada disso tem importância
Quando tu chegas com essa charla antiga
Esse contentamento, essa harmonia
Esse corpo! e me dizes essas coisas
Que me dão essa fôrça, essa coragem
Esse orgulho de rei. Ah, minha Eurídice
Meu verso, meu silêncio, minha música!
Nunca fujas de mim! sem ti sou nada
Sou coisa sem razão, jogada, sou
Pedra rolada. Orfeu menos Eurídice...
Coisa incompreensível! A existência
Sem ti é como olhar para um relógio
Só com o ponteiro dos minutos.
Tu És a hora, és o que dá sentido
E direção ao tempo, minha amiga
Mais querida! Qual mãe, qual pai, qual nada!
A beleza da vida és tu, amada
Milhões amada! Ah! criatura! quem
Poderia pensar que Orfeu: Orfeu
Cujo violão é a vida da cidade
E cuja fala, como o vento à flor
Despetala as mulheres - que êle, Orfeu
Ficasse assim rendido aos teus encantos!
Mulata, pele escura, dente branco
Vai teu caminho que eu vou te seguindo
No pensamento e aqui me deixo rente
Quando voltares, pela lua cheia
Para os braços sem fim do teu amigo!
Vai tua vida, pássaro contente
Vai tua vida que eu estarei contigo! "

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

O passado e a escolha (um texto quase teórico)

Ao homem é dada a possibilidade de reflexão. Heidegger, por isso, nos chama de "entes privilegiados", pois só à nós é dada a possibilidade de refletirmos sobre o nosso próprio existir. É por conta dessa consciência que temos de nós, aliás, que somos. Kierkegaard dirá: o eu é relação que se estebelece com a relação estabelecida entre mim e eu mesmo, ou seja, o eu é reflexão acerca daquilo que faço e sou.

Há, contudo, que haver um momento originário, um momento em que percebemos que nós somos algo com o qual nós mesmos dialogamos. Há que se haver uma diferenciação entre mim e aquilo me circunda. Não há separação, posto que não há homem sem mundo, mas há, sim uma diferenciação. Para Sartre, "é no contato com o outro que tomo consciência de minha própria existência". Por isso, aliás, "o inferno são os outros", pois eles nos fazem ver quem somos a todo momento, seus olhares são testemunhos daquilo que fazemos de nós.

O caráter reflexivo do homem lhe confere outra peculiaridade: a liberdade que somos nos permite escolher. Podemos decidir o que viremos a ser a cada novo instante. Mas como se dá cada decisão?

Sartre destacará o que chama de "circuito de ipseidade": o homem, ao escolher no presente, passeia por seu passado, lugar onde "já-fui", e divaga por seu futuro, espaço do vir-a-ser, do lançar-se. Ao vermos uma escada parada em um prédio, podemos escolher passar por debaixo dela ou não. Ao nos depararmos com esta situação, podemos seguir tal caminho: sabemos que algumas escadas caem e podem ferir; lançamos para o futuro este pensamento passado e assim decidimos dar a volta na escada, para não corrermos o risco de sermos atingidos.

Kierkegaard dirá também: escolhas são feitas, mas não sem temor e tremor. O homem, ao decidir, decide-se por si, escolhe aquilo que vai ser neste momento. E o faz sem garantias: não sabe se o que escolhe é o melhor, trará os melhores resultados, se é o mais correto etc. Assim, somos tomados pela angústia (o tremor) e tememos.

No "circuito de ipseidade" há um risco: e se escolho apenas pelo passado? Ao homem é dada também esta possibilidade. Por não conseguir lidar com o temor e tremor que Kierkegaard nos diz de abrir-se para um novo futuro, o homem, ao olhar para seu passado no momento de uma decisão, prefere negar a possibilidade de um novo futuro, prendendo-se à certeza que o passado, que a história construída, é capaz de lhe dar.

Existir é correr o risco de ser si mesmo.

Há sempre a escolha que nos compete: podemos ou não nos manter em determinada posição ou situação. Mas é que, algumas vezes, quando se trata de gostar, a escolha é mais difícil e nem aparece diante de nós, porque os sentimentos a embotam e vemos apenas um caminho: esperar por quem se gosta. Poderia escolher sair. Mas simplesmente não consigo. Não consigo... E há ainda a outra escolha, a do outro, e esta não me compete.

Queria poder resolver todos os problemas. Diminuir as distâncias. Estreitar os laços. Não me comunicar apenas através da tela fria. Queria poder estar perto e acompanhar este processo, estar ao teu lado. E queria dizer (e digo) que sim, quero que a escolha me favoreça (mesmo que admitir isso soe um tanto quanto egoísta, mas a atitude diplomática tem seus limites).

Escolho permanecer ao teu lado, mesmo que, de fato, ao teu lado nunca tenha estado. Escolho a esperança assassina: aquela que quer matar os dias para que logo chegue a noite... A noite, este momento em que, sedentos, partilhamos nosso dia.






PS.: Enfim, queridos que lêem este blog, o texto é apenas uma proposta de reflexão. Talvez tentem descobrir algum sentido e de que escolhas eu falo... Bem, aproveitem apenas as reflexões que, quem sabe (é o que espero) o texto é capaz de suscitar

quinta-feira, 23 de agosto de 2007

Da amizade

Aí ela falou assim Ah é? Mas Clarice é bem mais antigo que qualquer coisa e eu respondi É eu sei. Mas você não lembrou, ela disse! E eu falei Lembrei sim só não quis dizer que lembrei porque quando perguntei se era sobre a gente que você tava falando você desandou a conversa.

Daí ela ficou vermelha e respondeu de ímpeto que ela não desandou coisa alguma e que era eu que não tinha entendido as coisas. Aí mais tarde ela releu tudo e até me deu quase razão.

Oh! Vai pra sua mesa que te escrevo no e-mail, ela emendou. Daí eu sentei na minha mesa e esperei pelo e-mail que nunca vinha... E ele chegou. Então eu li correndo, sem nem dar atenção a cada detalhe, mas só ao que eu sentia. Levantei da cadeira e fui correndo dar um abraço nela. Aì quase chorei, né, que ninguém é de ferro, mas ela me lembrou que era pra manter a postura corporativa e que a gente sempre podia conversar no almoço.

O almoço... Ah! O almoço acabou em risos frouxos sobre a dramaticidade da situação. É que aí eu disse que na verdade ela era importantíssima sim e também que eu sempre tive medo dela, que ela é muito melhor que eu. Daí ela riu e falou que na verdade eu é que era. Aì fomos a uma loja de tecidos e compramos seda pra rasgar (o que, na verdade, não é verdade, é só metáfora).

Da última vez que nos falamos eu tava já no banho pela manhã. Foi coisa rápida. Mas eu pergunto: algum amigo seu já te ligou pra te acordar pra tu não perder a hora prum compromisso importante? Pois é... Mas ó, inveja e olho gordo longe daqui, pelamordideus.

quarta-feira, 22 de agosto de 2007

Os olhos fechavam-se, pesando por sobre si mesmos. Já era tarde. O pensamento vagava. O frescor da noite entrando pela fresta na janela. O edredon tocava-lhe levemente o corpo e sentia-se acariciado. Era um bom convite ao sono. Um bom repouso. Aos poucos, sem que se desse conta, a consciência perdeu-se e começou a vagar por caminhos estranhos...

Era uma rua. Uma rua muito cheia. Muitas pessoas. E ele buscava alguém.

Do outro lado. A mesma rua. A mesma multidão. E a outra pessoa o procurava.

Acordara com a ligeira sensação de que ali, naquele sonho, havia um encontro de almas prestes a acontecer. Aconteceria de fato, não fosse o despertador tocando ou uma mensagem intrometida no meio do sonho que assustasse cada um dos dois envolvidos mais do que a própria situação era capaz de assustá-los.

Esta noite, talvez sonhasse de novo. E talvez, apenas talvez, nada entrasse em seus caminhos.