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segunda-feira, 30 de julho de 2007

Da paixão pela idéia ou Sobre o Opção Deliberada pelo Platonismo

Os olhos vidrados pela janela. Esquadrinhavam o exterior, a rua, as pessoas. Tudo viam, sem nada ver. Sem ver aquilo que queriam.
Curioso como o mundo se nadifica para que salte aos olhos aquilo que o coração quer ver. Pela janela, o mundo nadificado, o nada sobressaía. Até então não havia encontrado o que procurava.
- Por favor, o senhor poderia dobrar naquela rua? - pediu ao motorista do táxi.
A corrida já se delongava. O dinheiro ainda daria, mas era preciso vigiar o taxímetro que, aos poucos, comia-lhe a esperança de encontrar o que procurava pelas ruas da cidade.
Era um desconhecido ali. E aquele lugar, aquela cidade, aquelas ruas, também eram suas desconhecidas. Tudo era novidade, menos aquilo que trazia dentro em si ao sair de onde morava para aquele lugar estranho.
- Senhor, o senhor procura algum lugar específico? - perguntou o taxista. Talvez possa lhe ajudar... Algum hotel? Alguma loja? Empresa?...
- Não, procuro uma pessoa, mas imagino que o senhor não conheça... - era puro demais de coração e, acostumado ao mundinho pequeno do lugarejo onde conhecera a menina, pensava que em qualquer lugar do mundo todos eram conhecidos uns dos outros, todos confraternizavam-se. Idéia mais absurda era pensar que no mundo, em que toda a gente era igual a toda a gente, as gentes não se conheciam e não se davam atenção!
- É, realmente acho difícil...
- Bem, chama-se ---.
- É que aqui é muito grande, senhor. Há tantas pessoas com esse nome que o senhor seria incapaz de fazer as contas!
- Olha, ela me disse que trabalhava com coisas de televisão...
- O senhor sabe ao menos onde mora esta pessoa?
- Ah! Sim! Sei que mora numa rua com árvores, num desses prédios que as pessoas dividem o espaço e moram apertadinhas.
- Entendo... - respondeu o motorista olhando em estranhamento pelo retrovisor. De onde saíra aquele rapaz? Não importa! Fato é que desconhecia o mundo. - Onde a conheceu?
- Na minha cidade. Ela estava lá... Fora conhecer as coincidências da vida, me disse. Contou que um dia estava lendo um livro desses que se lê na faculdade e que pensava, desde que começara a folhear as primeiras páginas, num nome. "Guarapiúna", ela disse. É o nome de minha cidade. E a tal história do tal livro se passava exatamente lá. Agora veja! Um livro que fala daquele canto de mundo... E começou a ler o livro mais avidamente, então, já que adivinhara o nome do lugar onde se passava a história.
- Vá ver já tinha ouvido falar que o livro se passava na tal cidade. E vai ver é por isso que quando pegou o livro pra ler, a primeira coisa que lhe veio à cabeça foi o tal nome. Mas é que se esqueceu e daí a sensação de coincidência...
- É... Pode ser. Mas no mesmo dia, me contou que foi pra uma festa com as amigas. E lá chegando, conheceu essa menina no balcão do bar da boate. "Guarapiúna, prazer. E você?", lhe disse a menina. O senhor há de concordar: é muita coincidência...
- Pois é. Coisas da vida, né?
- E aí foi conhecer a cidadezinha. Chegou lá numa tarde de sexta-feira. E passou o final de semana. Chegou com uma mochila pesada nas costas. Livros. É dessas que gostam de ler. E eu estava bem no ponto bem na hora que ela desceu do ônibus. A mochila arrebentou de tanto peso. E ela se abaixou para catar todas aquelas coisas... Roupas e livros. E o primeiro que segurou era "Laços de Família", não sei se o senhor conhece... É o único livro que li em toda minha vida, o senhor não vai acreditar! - os olhos ainda vidrados na rua enquanto ia conversando, ainda a procura da menina. - Não acredito em destino, mas numa situação dessas a gente até se questiona...
- Pois é...
O taxímetro chegava ao valor limite. R$50. Era tudo o que ele tinha para gastar naquela hora. No mais, apenas o dinheiro para se alimentar até o final do dia e para voltar para a rodoviária e pegar o ônibus. A passagem de volta, já comprada, ia no bolso da calça, para que pudesse sempre se certificar de que não a tinha perdido, colocando a mão por sobre o bolso para sentir o papel dobrado ali dentro.
- Senhor, o senhor pode encostar. Vou descer aqui.
- OK.
Parara em frente a uma grande magazine. Tudo naquela cidade era grande. Os prédios. As lojas. As avenidas. Andando pelas ruas lentamente, olhos em riste a procura da menina, começava a desanimar de sua busca. Sim, era melhor admitir: nunca a encontraria...


A tensão aumentava a medida que ia dando seus passos em direção ao desconhecido, que era tudo a seu redor. Não estava acostumado com tantas pessoas pela rua. Não estava acostumado a não ser ninguém em meio à concretude dos prédios e carros.

Os ombros, outrora erguidos, iam aos poucos caindo. O rosto, exultante em excitação, perdia as feições de alguém em busca de seu desejo mais profundo. Até mesmo a clareza que tinha quanto aquilo que sentia ia se esvaindo a cada rua, a cada pessoa por que ele passava.

Duas horas depois, um lanche rápido - o que lhe renovara as energias - e um papo rápido com o rapaz sentado ao seu lado na lanchonete, caminhava novamente pela rua e avistara lá adiante... Seria ela? O cabelo era parecido. O modo de andar. Cada um dos movimentos... Não ficara muito tempo com a menina. Apenas todos os dias de um final de semana. O suficiente para acreditar conhecê-la, o suficiente para arriscar e sair de sua cidade em busca do que desejava.

Apressou o passo. Sim, era ela. Havia de ser ela. Muito parecida. E seria, mais uma vez, a coincidência, aquilo que tanto conspirara a favor do primeiro encontro de ambos, que lhes faziam esbarrarem-se numa cidade tão grande como aquela?

Já próximo, quase podendo tocá-la nos ombros, exclamou:

- ---!

Ela virara o rosto espantada. Algum conhecido? Sim, ao menos ouvira seu nome.

Ele lhe acenava. As mãos para cima. Em profundo êxtase, acenava para a menina. Por fim, haviam se encontrado... Mas... Não... Não era ela que vinha ao seu encontro de braços abertos... Não era ela! Vira a menina abrindo os braços e o sorriso, mas não era ela! Vira a menina se aproximando para um abraço. Talvez um beijo... Mas não era ela!

Fechou a cara e, desviando-se do abraço, partira em disparada para o ponto de ônibus mais perto.

- Por favor, o senhor sabe me dizer o número do ônibus para a rodoviária? - perguntara e, recebendo a indicação, entrara rapidamente no ônibus. Ainda pudera ver, lá de dentro, a cara de estupefação daquela menina. Muito parecida com a sua ---, mas não podia ser ela.

E voltou para casa, apaixonado pela idéia que negara-se ser frustrada pela realidade. Voltara para casa, o peito extravasado em dor pela idéia de --- que quase se perdera naquele breve encontro com... ela?

2 comentários:

Anônimo disse...

Viajei nas imagens,Rô...........que perfeito esse texto...........

Lili disse...

Eu acho que Platão agora é santo, baixou e não quer mais subir, né não zi-fin?!